O presidente da Federação Internacional de Futebol (Fifa), Gianni Infantino, fez um pedido de desculpas aos outros 36 membros do Conselho da entidade, durante reunião realizada nesta quinta-feira (15), em Zurique, na Suíça.
O mandatário reconheceu que errou ao não compartilhar com os demais integrantes do órgão os planos de criação do Fifa Forward Enterprise (FFE), subsidiária que assumiria as propriedades comerciais dos torneios da instituição (inclusive a Copa do Mundo, que em 2026 rendeu US$ 15 bilhões em receitas) e depois teria um percentual minoritário vendido a Joshua Kushner, irmão do genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O caso provocou revolta em parte das entidades associadas à Fifa, especialmente as que integram Uefa (Europa), AFC (Ásia) e Concacaf (Américas do Norte e Central), que iniciaram uma verdadeira rebelião contra Infantino, chegando ao ponto de ameaçarem boicote às competições oficiais da entidade, medida que poderia impactar a Copa do Mundo Feminina de 2027, que terá o Brasil como sede.
A reunião do Conselho da Fifa representou o primeiro momento em que Infantino ficou diante de seus maiores opositores. Até então, ele vinha sendo alvejado por declarações à imprensa, além de denúncias judiciais, e-mails internos e artigos veiculados na mídia.
Apesar de se desculpar pela forma como tentou conduzir o projeto, o presidente da Fifa recusou-se a partilhar mais informações e documentação sobre as negociações com a Thrive Capital, empresa que tem Kushner como sócio e que compraria 20% do FFE.
“Foi decepcionante não termos as respostas para questões que tínhamos requerido especificamente, como por exemplo a documentação da FFE”, afirmou Debbie Hewitt, presidente da Football Association (FA), a Federação Inglesa de Futebol, em entrevista à emissora britânica BBC.
Segundo o dirigente, que se posiciona como um dos principais adversários de Infantino na atualidade, ao questionar por que as informações sobre o FFE não poderiam ser compartilhadas durante a reunião, teria sido orientado a submeter as perguntas “por escrito”.
Na avaliação de Hewitt, pelo modo como se comportou durante a reunião, Infantino teria demonstrado que “não tem condições de ser presidente da FIFA”. De acordo com o dirigente inglês, tal ideia “foi partilhada na reunião”, pelos demais cartolas.
Arsène Wenger
Nos últimos dias, o nome do ex-treinador do Arsenal e atual chefe de desenvolvimento global da Fifa, Arsène Wenger, despontou nos bastidores como um dos principais cotados para enfrentar Infantino na eleição presidencial, a ser realizada em março do ano que vem.
Ele passou a ser elogiado por dirigentes na Uefa, que enxergam no ex-técnico alguém que teria condições de restaurar a integridade da Fifa, recolocando o futebol como prioridade da entidade, foco que, na visão dos cartolas europeus, teria sido deslocado para questões puramente monetárias na gestão de Infantino.
Wenger, de 76 anos, assumiu o cargo na Fifa em 2019 e costumava ser muito próximo a Infantino. Os dois acabaram rompendo, depois que os planos de criação e venda da parte minoritária do FFE foram revelados.
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Em agosto deste ano, ele divulgou comunicado revelando que a área técnica da Fifa sequer havia sido consultada sobre o modelo de negócios pretendido por Infantino.
“A decisão de retirar o projeto [do FFE] foi absolutamente necessária e indiscutível, porque acredito firmemente em uma Fifa independente que sirva ao nosso futebol com compromisso, transparência e integridade”, defendeu Wenger.
Pesa a favor do ex-treinador o fato de sua vivência no futebol estar mais relacionada ao jogo propriamente dito do que às finanças e à política, num momento em que o alto comando da Fifa é acusado de vender a alma a investidores, em troca de lucro fácil.
Wenger passou a desfrutar de grande prestígio na Ásia, adquirido na época em que treinou o Nagoya Grampus do Japão, chegando a conquistar a Copa do Imperador de 1995 (ocasião em que foi eleito o treinador do ano na J League) e a Supercopa do Japão de 1996.
Ele já declarou que a passagem pela Terra do Sol Nascente “salvou sua carreira”, pois atribui à cultura japonesa, baseada na serenidade e no respeito, o mérito de haver melhorado seu temperamento à beira do campo, além de ter moldado sua famosa filosofia de nutrição e dieta rigorosa, que mais tarde levaria para o futebol inglês.
O prazo para que a eventual candidatura de Wenger à presidência da Fifa seja apresentada segue até 18 de novembro deste ano. Além dele, vêm sendo ventilados como possíveis nomes de oposição a Infantino o ex-jogador português Luís Figo e a empresária Michele Kang.
A votação ocorrerá durante o 77º Congresso da Fifa, em Rabat, no Marrocos, no dia 18 de março de 2027. Na ocasião, as 211 federações nacionais também discutirão a proposta que prevê a distribuição de US$ 6,35 bilhões, pelo programa de desenvolvimento global do futebol.
A medida, que é vista como um trunfo político na tentativa de Infantino permanecer no poder, poderá garantir uma bolada de US$ 25 milhões a cada associação nacional, além de US$ 99 milhões para as confederações continentais, para o ciclo que irá de 2027 a 2030.
