Nesta sexta-feira (16), Júlio Casares e o São Paulo Futebol Clube têm um encontro marcado com o destino.
Se não ocorrer reviravolta alguma no script que se desenrolou até o presente momento, a partir das 18h30 (horário de Brasília) o dirigente esportivo, advogado, radialista e publicitário, que acumula passagens bem-sucedidas por grandes emissoras como SBT e Record, será julgado pelo Conselho Deliberativo do Tricolor.
Os membros do órgão analisarão um pedido de impeachment assinado por 57 conselheiros do grupo “Salve o Tricolor Paulista”, que faz oposição a Casares desde o início de seu mandato. Na denúncia, o cartola é acusado de praticar gestão temerária, irregularidades financeiras e desvio de recursos.
Nos últimos, circularam notícias de que aliados mais próximos chegaram a sugerir que Casares renunciasse. Ele, porém, optou por seguir no cargo e recorrer a todas as manobras possíveis para não perder a cadeira presidencial.
Nessa luta, acabou obtendo algumas vitórias efêmeras, como o parecer contrário ao impeachment, aprovado por oito dos nove cardeais do Conselho Consultivo, decisão de caráter meramente opinativo, emitida por um órgão que reúne membros ilustres do clube, como ex-presidentes da diretoria ou de algum dos conselhos.
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A última cartada do grupo de Casares para tentar barrar o impeachment consistiu no edital de convocação da reunião desta sexta, que previa a participação apenas no modelo presencial e ainda elevou de 70% para 75% o percentual de votos necessário para que o afastamento pudesse ser aprovado.
Cada vez mais isolado
A tentativa de alterar as regras de votação do impeachment, levadas a cabo pelo presidente do Conselho Deliberativo do São Paulo, Olten Ayres de Abreu Junior (aliado de Casares), ocorreu em meio à debandada de antigos apoiadores do cartola, que optaram por engrossar as fileiras da oposição, ao mesmo tempo em que se acumulam denúncias e polêmicas envolvendo o gestor.
Hoje, seis grupos no Morumbis são contrários a Casares, que está a cada dia mais isolado, movimento que ganhou força graças ao rompimento dele com o ex-diretor de futebol Carlos Belmonte, que havia sido peça fundamental na montagem da chapa que elegeu o atual presidente.
Em tese, a oposição teria condições de reunir 187 votos a favor do impeachment, o que não seria suficiente para a aprovação caso prevalecesse a interpretação de Abreu Junior, pela qual o afastamento só ocorreria se houvesse apoio de 191 membros do Conselho Deliberativo, número que seria mais difícil de ser alcançado no período de férias, em que muitos conselheiros estão viajando.
Mas uma decisão da 3ª Vara Cível do Butantã, na capital paulista, que atendeu a um pedido dos conselheiros um pedido apresentado pelos conselheiros Marcelo Marcucci Portugal Gouvêa (filho do ex-presidente Marcelo Portugal Gouvêa), Caio Forjaz, Daniel Dinis Fonseca, Fabio Machado, José Medicis, José Carlos Ferreira Alves, Kalef João Francisco Neto, Miguel de Sousa e Waldo Jose Valim Braga, derrubou as esperanças de Casares.
A juíza Luciane Cristina Silva Tavares, que analisou o caso, entendeu que o percentual necessário para a aprovação do impeachment é de 70% (171 votos) e que os conselheiros poderão participar de forma híbrida da reunião.
O percentual de 75%, previsto no artigo 58 do Estatuto Social do São Paulo (e que foi evocado por Abreu Junior), é o quórum necessário para que a reunião ocorra.
O São Paulo recorreu da decisão, sob o argumento de que a participação híbrida prejudicaria o direito de Casares exercer o contraditório e sua ampla defesa.
Porém, a juíza Mônica Rodrigues Dias de Carvalho, da o 1ª Câmara de Direito Privado, negou o recurso, mantendo o voto híbrido e a interpretação de Luciane Cristina Silva Tavares a respeito do percentual mínimo para que o afastamento ocorra.
As denúncias
A derrocada de Casares no São Paulo foi precipitada por uma série de denúncias surgidas desde o fim de 2025, contra o ex-presidente.
A começar pelo vazamento de áudios que desvendaram um suposto esquema de comercialização irregular de um camarote do Morumbis durante shows internacionais realizados no estádio, caso que envolve os diretores afastados Mara Casares (ex-esposa do presidente são-paulino) e Douglas Schwartzmann.
Posteriormente, a Polícia Civil de São Paulo e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) passaram a apurar saques em espécie feitos nas contas do clube, que totalizaram R$ 11 milhões, além dos depósitos em dinheiro feitos em favor de Casares, que somam R$ 1,5 milhões.
O cartola sustenta que os depósitos por ele recebidos não têm relação com os saques feitos na conta do Tricolor.
O São Paulo, por sua vez, alega que as retiradas serviram para pagar despesas do dia a dia e que o dinheiro foi usado em benefício exclusivo do clube.
Essas denúncias, que ganharam repercussão até mesmo no Fantástico, da TV Globo, serviram para minar o apoio externo e interno a Casares.
Mas sua iminente queda é um processo que vai além dos aspectos jurídicos e legais. Fatores como o crescente endividamento do clube e os maus resultados obtidos pela equipe em campo (situação agravada pelo crescente número de atletas lesionados) serviram para corroer a relação entre o presidente e os torcedores.
A venda de jovens promessas a preços considerados baixos, para cobrir rombos orçamentários, e a própria tentativa malograda de Casares de negociar um percentual das categorias de base com um investidor externo ajudaram a complicar ainda mais a situação, que foi se agravando na medida em que se aproxima a próxima eleição do clube, prevista para ser realizada no fim deste ano.
Possíveis cenários
Ao que tudo indica, Júlio Casares esgotou suas manobras legais para tentar barrar o impeachment.
Ainda que ele consiga derrubar a liminar, sua eventual permanência no cargo, nessa hipótese, acabaria por se converter no prolongamento da agonia (dele, enquanto gestor, e do próprio clube), sobretudo se a oposição tiver maioria dos votos. Isso só reforçaria seu isolamento político, comprometendo por completo sua legitimidade enquanto presidente.
A única salvação para Casares terminar seu mandato com certa tranquilidade seria ele levar a melhor na votação do Conselho Deliberativo, cenário que se mostra pouco provável, no momento atual. Isso indicaria que ele ainda conta com apoio político suficiente para comandar o São Paulo.
Se o impeachment passar, quem assumiria no lugar de Casares seria o vice Harry Massis Junior, de 80 anos, e que já declarou seu voto favorável ao afastamento do titular do cargo.
Ainda na condição de presidente interino, Massis Junior teria 30 dias, a partir da destituição de Casares, para convocar uma Assembleia Geral de Sócios para confirmar ou não a decisão do Conselho Deliberativo.
Caso os associados ratifiquem a cassação de Casares, ele acabará banido do clube. Por outro lado, se ele optar por renunciar, poderá manter até mesmo seu cargo no Conselho Consultivo do São Paulo.
