A 17ª edição do Relatório Convocados, produzido pela Convocados em parceria com a Outfield e apoio da Galapagos Capital, mostra transformações relevantes no mercado do futebol brasileiro.
Há a ascensão das casas de apostas como principais financiadoras dos clubes, um modelo mais igualitário de distribuição de receitas com o novo contrato de TV do Campeonato Brasileiro, os desafios às equipes com a implantação de regras de sustentabilidade financeira e um cenário desafiador para o equilíbrio das contas.
“O futebol brasileiro vive um momento de expansão, mas ainda sustentado por receitas muito instáveis. Transferências de atletas e premiações elevaram os números de 2025, porém não são fontes que garantem previsibilidade no longo prazo”, analisou Cesar Grafietti, economista responsável pelo estudo.
“O desafio agora é transformar esse crescimento em uma operação estruturalmente saudável, com maior capacidade de geração de caixa recorrente e menos dependência de fatores extraordinários”, acrescentou.
Receitas x despesas
O estudo tradicionalmente é publicado logo após a divulgação dos balanços financeiros dos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro. A partir desses documentos, o relatório mostra um cenário de crescimento financeiro.
“As receitas da Série A cresceram de forma importante, mas muito calcadas nas transferências de atletas e algum impacto de receitas comerciais, suportados pelas bets. Tivemos também as receitas de participação na Copa do Mundo de Clubes, elevadas e não recorrentes”, destaca o Relatório Convocados.
Apesar disso, há alguns perigos pelo caminho, que muitas vezes têm sido subestimados pela gestão dos clubes.
“Vimos aumento de custos e despesas. É a dinâmica do futebol: mais dinheiro, mais gastos em busca de competitividade. Nunca geramos tanto caixa em termos gerais; nunca tivemos resultado tão ruim em termos recorrentes. Sinais que confundem, animam, mas também alertam”, afirma o documento.
Apostas

As receitas comerciais dos clubes da Série A atingiram o patamar de R$ 3,1 bilhões em 2025, representando um crescimento de 36% em relação ao ano anterior. O principal motor desse avanço foi o setor de apostas esportivas, que agora concentra 34% do volume comercial total dos clubes da elite.
O investimento desse segmento no primeiro ano de regulamentação do setor pelo Governo Federal atingiu R$ 1,03 bilhão. Esse montante representa um aumento de 67% em relação ao ano anterior.
O futebol brasileiro atingiu o primeiro bilhão vindo apenas de patrocínios de casas de apostas, o que indica uma dependência financeira perigosa em relação a esse setor.
Alguns clubes já vivenciam esse refluxo de investimentos das bets, com a saída de patrocínios em equipes como Athletico-PR, Bahia, Coritiba, Grêmio, Internacional, Santos e Vasco.
Bahia e Santos assinaram com novas empresas do segmento, após perderem o apoio de Viva Sorte Bet e 7K, respectivamente. No entanto, tiveram que se contentar com patamares mais baixos de remuneração. O Grêmio já sinalizou que busca um novo patrocínio máster em outros setores da economia.
Direitos de TV
O início do ciclo de direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro para o período de 2025 a 2029 marca uma transição para uma distribuição de recursos mais igualitária entre as equipes, segundo o relatório.
Clubes que possuíam cláusulas de “mínimo garantido” foram os mais afetados financeiramente, enquanto agremiações com presença regional e receitas menores acabaram beneficiadas pela organização em blocos comerciais, como a Liga do Futebol Brasileiro (Libra) e o Futebol Forte União (FFU).
De acordo com o documento, o piso de receita de transmissão na Série A em 2025 foi de R$ 93 milhões, valor que representa mais que o dobro do mínimo registrado em 2024, que havia sido de R$ 44 milhões.
Sustentabilidade
Em 1º de janeiro de 2026, iniciou-se a operação da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf), responsável por monitorar o Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF).
O sistema monitora o cumprimento de obrigações, custos de elenco e níveis de endividamento dos clubes. O critério mais crítico nas finanças das equipes da elite do Brasileirão é o equilíbrio operacional.
Estimativas do relatório indicam que, caso as regras estivessem em vigor pleno em 2025, nove clubes da Série A seriam reprovados: Atlético-MG, Botafogo, Ceará, Corinthians, Fortaleza, Grêmio, Internacional, Sport e Vasco. Desses times, Ceará, Fortaleza e Sport foram rebaixados para disputar a Série B em 2026.
O novo sistema prevê sanções como proibição de registros (o chamado transfer ban), perda de pontos e, em último caso, rebaixamento administrativo.
Venda de atletas

A análise das operações demonstra que os clubes brasileiros enfrentam desafios para equilibrar as contas sem a dependência da negociação de jogadores, as chamadas receitas não recorrentes.
Em 2025, os custos e despesas das equipes da Série A do Campeonato Brasileiro representaram 108% de suas receitas recorrentes, que são aquelas que excluem a venda de jogadores. Esse dado indica que a operação diária é deficitária e depende estruturalmente da transferência de atletas, normalmente para o exterior, para o fechamento das contas.
Apesar do aumento global de arrecadação, o resultado recorrente foi o pior da série analisada, evidenciando clubes “em obras” que precisam cobrir salários e despesas administrativas com receitas variáveis.
Sócio-torcedor
O crescimento de público nos estádios após o período de pandemia apresentou estabilidade em 2025, com média de 25.542 torcedores pagantes, patamar um pouco abaixo do obtido em 2024 (25.774).
Entretanto, as estratégias de marketing de fidelização produziram resultados financeiros diretos. Em 2025, os programas de sócio-torcedor geraram R$ 877 milhões aos clubes, enquanto a bilheteria somou R$ 847 milhões.
O relatório pontua que o sócio-torcedor “ultrapassou a bilheteria em 2024 e se consolidou como a principal fonte de receita de matchday da Série A. O movimento reforça a transição gradual dos clubes para modelos de receita mais recorrentes e previsíveis”.
Com a estagnação das bilheterias, os times focam na inteligência de dados para a gestão de relacionamento com o cliente (CRM, na sigla em inglês) e no ticketing (estratégia de venda, distribuição, controle de acesso e análise de dados relacionados ao ingresso) para monetizar a base de torcedores além do dia do jogo.
