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Rodrigo Ferrari - Catanduva (SP)

Estação Central

7 min de leitura

Análise

Grêmio é o primeiro grande do Brasileirão a desistir de buscar patrocínio máster de bets

Postura do clube, que rescindiu com a Alfa no fim do ano passado, coincide com avanço de projetos que tentam restringir publicidade no setor

Rodrigo Ferrari - Catanduva (SP) • Colunista

29/04/2026 19h05

Alfa entrou no patrocínio máster de Grêmio e Inter e encerrou 24 anos de Banrisul na propriedade - Lucas Uebel / Grêmio

Alfa entrou no patrocínio máster de Grêmio e Inter e encerrou 24 anos de Banrisul na propriedade - Lucas Uebel / Grêmio

⚡ Máquina Fast
  • Grêmio desistiu de patrocínio principal de casas de apostas e busca empresas de outros setores para sua camisa.
  • Projetos legislativos buscam limitar publicidade das casas de apostas devido a preocupações com dependência e regulamentação no Brasil.
  • Juventus, após vender sua SAF, comemorou retorno à Série A1 do Paulistão e aumento de patrocínios e público em 2026.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Os patrocínios das casas de apostas, que chegaram quase que a monopolizar as principais divisões do futebol brasileiro, entraram em um movimento de refluxo, nos últimos tempos, com diversos contratos milionários sendo rescindidos, desde o fim do ano passado.

Um deles foi o do Grêmio com a Alfa, que também patrocinava o arquirrival Internacional. A plataforma fechou com a dupla gaúcha em substituição ao Banrisul.

Apuração do jornalista Adalberto Leister Filho, da Máquina do Esporte, mostra que o Tricolor Gaúcho desistiu de buscar uma bet para substituir a Alfa no patrocínio máster.

O clube, que está sem nenhuma marca no espaço principal da camisa desde dezembro de 2025 (quando rescindiu com a plataforma de apostas), busca empresas de outros segmentos para assumir essa propriedade.

Outros espaços

Isto não significa que o Grêmio ficará sem patrocínio de apostas. Segundo a mesma apuração, o entendimento da diretoria gremista é de que, se houver acordo com uma nova bet para o lugar da Alfa, ela ocuparia um espaço secundário na camisa.

Essa postura que será adotada pela equipe gaúcha foi posta em prática pelo Red Bull Bragantino, que reserva o espaço principal do uniforme para sua proprietária, a marca de bebidas energéticas.

Durante alguns anos, o clube do interior paulista estampava as logomarcas de bets nas mangas da camisa. Neste ano, porém, a equipe está sem nenhum parceiro de apostas.

Na mira dos políticos

O mercado de apostas no Brasil atravessa uma fase de fortes refluxos. Quando as plataformas passaram a fechar patrocínios ao futebol, há cerca de quatro anos, o setor operava sem regulamentação – e, portanto, não recolhia tributos.

Desde que o mercado passou a funcionar de maneira regulada, casas de apostas ficaram sujeitas a uma série de taxas, contribuições e impostos, que resultaram numa queda expressiva nas margens de retorno para os investidores.

Ao mesmo tempo, as bets entraram na mira dos políticos por conta do avanço da discussão sobre a dependência em jogos associada a produtos disponibilizados por esses sites, especialmente o famigerado “Jogo do Tigrinho”.

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), já chegou a defender publicamente a proibição dos cassinos on-line.

Paralelamente a isso, conforme a coluna já abordou, vão se avolumando ao redor do país iniciativas legislativas que buscam barrar a publicidade do setor.

Entre elas, um projeto de autoria do deputado estadual Tiago Simon (MDB/RS), que cria uma série de limitações para a veiculação de propagandas das bets no Rio Grande do Sul. O texto foi sancionado na última sexta-feira (24), pelo governador Eduardo Leite (PSD).

Bets indignadas

Thiago Garrides, CEO da Cactus Games, acredita que “limitar a publicidade das empresas que operam dentro da lei acaba desinformando o consumidor e enfraquecendo a própria lógica da regulamentação”. Já Nicolas Tadeu Ribeiro de Campos, da Ana Gaming (dona da 7K, Cassino e Vera), alega que “a publicidade responsável é parte da solução, não do problema”.

O advogado Bernardo Cavalcanti Freire, consultor jurídico da ANJL e sócio do Betlaw, escritório de especializado no setor de jogos, considera a norma inconstitucional. “Uma lei estadual não dispõe de liberdade irrestrita para proibir a divulgação de temas autorizados por lei federal ou pela constituição”, afirma.

Vale lembrar que a Câmara dos Deputados aprovou, há alguns dias, requerimento de urgência para a tramitação do projeto dos parlamentares Saulo Pedroso (PSD/SP) e Rodrigo Gambale (PODE/SP), que também buscam limitar a publicidade das bets no território nacional.

Palmeiras estreia patrocínio

Outra novidade trazida por Adalberto Leister Filho, da Máquina do Esporte, tem a ver com o Palmeiras. O clube irá estrear, no próximo sábado (2), o patrocínio da MotoChefe, durante o clássico com o Santos, válido pela Série A do Brasileirão e que será realizado no Allianz Parque (estádio que em breve mudará de nome, com a venda do naming right para o Nubank).

A MotoChefe passará a ocupar a traseira esquerda do calção do Verdão. Esse acordo já havia sido antecipado pela Máquina do Esporte, no começo deste mês, assim como o acerto do clube com a Embracon.

A diretoria alviverde aguarda apenas finalizar o período de rescisão com a Ademicon, para poder anunciar a nova parceira na área de seguros.

Racismo

Chamou a atenção, no último fim de semana, a ação concebida pelas agências End to End e Área 23 para o Corinthians, em resposta ao caso de racismo praticado por um torcedor (ainda não identificado) contra o goleiro Carlos Miguel, do Palmeiras.

O clube removeu uma cadeira da arquibancada da Neo Química Arena, de onde teria partido a agressão racista ao jogador palmeirense. O objetivo é passar a mensagem de que o racismo não tem espaço no estádio corintiano.

Vídeo mostra a iniciativa de remoção da cadeira na Neo Química Arena – Divulgação

A coluna apurou que as duas agências e o Corinthians conversavam a respeito de colaborações em outros projetos, quando surgiu a necessidade de posicionamento em relação ao episódio ocorrido no clássico contra o arquirrival.

A ideia é de que, ao olharem para o buraco na arquibancada, os torcedores se lembrem de que o racismo não é bem-vindo no estádio e que esse tipo de gesto criminoso poderá resultar em punição pesada, caso o agressor ou agressora venha a ser identificado.

A campanha também conta com um QR code disponibilizado na Neo Química Arena, que direciona para um conteúdo educativo, com orientações sobre como identificar e denunciar possíveis casos de racismo.

Juventus

Cerca de seis meses depois de criar e vender sua Sociedade Anônima do Futebol (SAF) para a Contea Capital, o Juventus obteve seu primeiro grande êxito esportivo em décadas, com o retorno à Série A1 do Paulistão, após uma espera que já durava 19 anos.

Desde que o negócio foi fechado, em outubro de 2025, o clube firmou um total de R$ 3 milhões em patrocínios, maior volume já registrado em sua história.

Em 2026, Juventus experimentou aumento de 36% na média de público nos jogos em casa, graças a ações de engajamento de torcedores, incluindo ingressos gratuitos e ativação do Estádio da Rua Javari para aproximar a torcida, além da organização de caravanas para torcedores, nas partidas fora de casa.

O próximo objetivo do clube grená é tentar obter uma vaga na Série D do Brasileirão de 2027, mediante sua participação na Copa Paulista deste ano.

Isso permitiria ao Juventus voltar a contar com calendário nacional, o que ampliaria suas possibilidades de obter novas receitas.

Atualmente, a SAF é comandada pelo CEO Claudio Fiorito. “Desde o início, entendemos que a SAF precisava caminhar junto com a essência do Juventus. As ações para aproximar o torcedor, como a política de ingressos e as iniciativas na Rua Javari, fazem parte disso. A ideia é modernizar a gestão e ampliar o alcance do clube sem perder as tradições que sempre fizeram do Juventus um time tão identificado com a sua comunidade”, afirmou.

Rodrigo Ferrari é jornalista da Máquina do Esporte desde 2022. Formado pela Universidade de São Paulo (USP), atua com política desde 2010

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