Enquanto se move para construir um novo e moderno Centro de Treinamento (CT) das categorias de base na Área Continental de São Vicente (SP), o Santos conseguiu, na semana passada, resolver o imbróglio envolvendo um local que leva o nome de seu ídolo máximo.
No último dia 1º de outubro, o clube assinou com a União a renovação, por mais 20 anos (prorrogáveis por igual período), da concessão onerosa do terreno que abriga o CT Rei Pelé, no bairro do Jabaquara, em Santos (SP).
A Máquina do Esporte apurou que o Peixe arcará com um gasto mensal de R$ 145 mil, relativo ao aluguel do terreno de 39 mil m² (isto sem contar a dívida de R$ 23 milhões pelo uso anterior do local, que será parcelada a perder de vista), situação que é vista como vantajosa, já que avaliações de mercado indicam que a locação apenas da terra nua (sem levar em conta as construções e melhorias existentes no local) em uma área dessas dimensões, naquela região da cidade, poderia custar até R$ 400 mil.
Histórico da área
O terreno que hoje abriga o CT Rei Pelé é uma área federal, onde, nos anos 1980 e 1990, funcionava o Conjunto Poliesportivo Chico Guimarães, mantido pela Prefeitura de Santos e que costumava sediar jogos e torneios envolvendo equipes amadoras da cidade.
Em 1996, o local foi enfim cedido pela antiga Codesp (atual Autoridade Portuária de Santos) ao Peixe, que já costumava realizar treinos nos campos ali existentes.
Como contrapartida, o clube teria de instalar uma estrutura de treinamento voltada à população vulnerável, com o objetivo de formar atletas em diversas modalidades.
Vistorias realizadas nos anos seguintes comprovaram que o Santos cumpria com sua parte no acordo. O CT foi inaugurado em 2005, passando a receber os treinos do time profissional.
Foi assim até que, em 2008, o procurador Rodrigo Joaquim Lima, do Ministério Público Federal (MPF), instaurou inquérito civil questionando a destinação social da área.
Em 2016, foi a vez da também a procuradora do MPF Juliana Mendes Daun Fonseca entre no caso, concluindo que o clube não cumpria com a contrapartida pactuada.
O Santos contestou, à época, as alegações da procuradora, apresentado um laudo que elencava 89 ações e projetos na área social que teriam sido desenvolvido no CT, entre 2015 e 2017.
Ainda assim, a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) não se comoveu com os argumentos e solicitou a desocupação da área.
Em 2020, o CT Rei Pelé integrava uma lista de imóveis públicos que Paulo Guedes, ministro da Economia do então presidente da República Jair Bolsonaro (PL), pretendia mandar a leilão.
A diretoria do clube precisou viajar até Brasília e solicitar mais tempo para resolver a questão da contrapartida social, evitando que o leilão da área ocorresse.
Nesse meio tempo, o Santos viu outras agremiações da cidade serem desalojadas pela SPU, casos da Portuguesa Santista e da Associação Atlética dos Portuários de Santos, que tiveram seus terrenos arrematados pelo total de R$ 71 milhões.
Risco de leilão prosseguiu
A Máquina do Esporte apurou que, logo ao tomar posse, a atual diretoria do Santos recebeu a informação de que a área do CT Rei Pelé iria para leilão.
Um fator que agravava a situação consistia na forte pressão do setor imobiliário. Estimativas de mercado indicam que o preço de um terreno de 500 m² (terra nua) no bairro do Jabaquara, em Santos, pode ultrapassar facilmente R$ 1,9 milhão.
Apesar de não estar próxima à orla, a região acaba atraindo o interesse dos investidores, por contar ainda com uma grande quantidade de terrenos livres, que poderiam abrigar novos condomínios verticais.
Essas áreas acabam representando uma alternativa mais barata que os empreendimentos mais próximos à praia, onde terrenos são muito valorizados. Para construir novas torres nas imediações da orla, as incorporadoras precisam adquirir antigos sobrados ou pequenos edifícios, o que acaba por elevar os custos do negócio.
Isso fez com que crescesse a cobiça dos investidores na área do CT Rei Pelé. Segundo apurou a Máquina do Esporte, o leilão que estava em andamento chegou a receber lance de R$ 200 milhões para a compra da área, avaliada pela União em pouco mais de R$ 79 milhões. Com o detalhe de que o comprador se comprometia a pagar a quantia à vista.
Vale lembrar que a dívida do Santos hoje orbita a casa de R$ 1 bilhão, situação que o impossibilita de fazer frente a tais propostas.
Para renovar a concessão, que garante maior segurança quanto à posse do terreno, o Santos conseguiu comprovar que CT Rei Pelé cumpre função social, especialmente na formação de novos atletas e também pelo uso feito pelo time feminino.
Por que manter o CT?
Uma dúvida que pode surgir no momento atual é por que o Santos se esforçou para manter o antigo CT Rei Pelé, no momento em que se movimenta para construir uma nova e moderna estrutura em São Vicente?
A resposta é que o CT da base representa um projeto que ainda demorará um tempo considerável para sair do papel.
Nesse intervalo, o Peixe (incluindo a base) necessitarão de uma estrutura para treinamento, disponível no CT Rei Pelé.
Nesta sexta-feira (9), o Santos protocolou junto à Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) o Plano de Trabalho para o desenvolvimento do Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) referente à construção do novo CT da base.
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“Este é um avanço importante dentro das etapas de estudos e licenciamento ambiental. Temos conduzido todo o processo de maneira responsável, em conjunto com a Prefeitura de São Vicente e em conformidade com a legislação ambiental. Damos agora mais um passo importante e aguardamos a análise dos órgãos competentes para seguirmos avançando com os estudos e o projeto”, afirma o presidente Marcelo Teixeira.
“A apresentação dos documentos representa o início do processo de licenciamento ambiental do empreendimento. A partir de agora, os estudos serão conduzidos e, então, analisados pelos órgãos competentes, que poderão solicitar informações e levantamentos complementares antes da emissão das autorizações necessárias para o desenvolvimento do projeto”, explica Luiz Fernando Vella, gerente administrativo do clube.
O projeto executivo do novo CT será definido após a consolidação dos estudos técnicos e a obtenção das autorizações dos órgãos competentes, incluindo a Cetesb.
A área destinada ao futuro CT tem aproximadamente 700 mil metros quadrados e foi incorporada ao patrimônio do Santos por meio de um acordo com a Saint-Gobain, antiga dona do terreno e que será paga com contrapartidas comerciais.
