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Como empresa brasileira “descongelou” Jogos de Inverno e tornou público protagonista do entretenimento

Marcella Tobelem, da SP2, concedeu entrevista à Máquina do Esporte e comentou sobre o trabalho de sport presentation realizado durante o evento

Marcella Tobelem foi responsável pelo sport presentation dos Jogos de Inverno 2026 - Divulgação

⚡ Máquina Fast
  • A agência brasileira SP2 liderou o sport presentation dos Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026, com uma equipe de 600 profissionais e 120 cerimônias sem falhas.
  • O trabalho da SP2 destacou-se por transformar o público em protagonista, com interações como karaokê coletivo e a 'Freeze Cam', inovando na experiência do espectador.
  • O ouro inédito de Lucas Pinheiro Braathen foi celebrado ao som do 'Tema da Vitória', simbolizando um marco histórico para o Brasil e América do Sul nos Jogos de Inverno.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

A edição de 2026 dos Jogos Olímpicos de Inverno, realizada em Milão e Cortina d’Ampezzo, na Itália, certamente será lembrada como a mais “brasileira” da história do evento.

Não apenas pela conquista do primeiro ouro da história do país (e da América do Sul), com Lucas Pinheiro Braathen no esqui slalom gigante, mas também pela atuação de uma empresa brasileira numa área nevrálgica do evento.

Comandada por Marcella Tobelem, a agência SP2 ficou responsável pelo sport presentation dos Jogos de Milão-Cortina 2026, mediante uma joint venture com a italiana AWE Sports, que cuidou do conceito criativo do projeto.

A grande marca do trabalho realizado pela empresa brasileira consistiu em “incendiar” o público nos locais de provas, tornando a plateia também uma protagonista do entretenimento. “Conseguimos ‘descongelar’ os Jogos de Inverno”, diz Marcella.

A equipe contou com 600 profissionais, entre showcallers (profissionais que coordenam e controlam todas as questões técnicas e artísticas de uma transmissão ao vivo, independentemente de ela ser remota ou dentro de um evento), DJs italianos, MCs italianos e bilíngues, equipes de produção, entretenimento e também de cerimônias de premiação.

“Foram 120 cerimônias no total, sendo as duas últimas realizadas dentro da cerimônia de encerramento, em Verona, após o Cross Country 50 km. Não tivemos uma falha sequer”, celebra Marcella.

Na montagem das equipes, ela procurou contratar os melhores showcallers, especializados em cada modalidade, como curling, hóquei no gelo, patinação artística, entre outros.

Na patinação artística, as apostas foram nos ex-atletas Ben Agosto (celebrando 20 anos da sua medalha de prata) e Valentina Marchei como repórteres oficiais.

No hóquei no gelo, as partidas contaram com Allan Roach, vindo diretamente do Super Bowl, e Sebastien Goulet, do Montreal Canadien, além do DJ Dieter, que chamou a atenção por executar vinhetas ao vivo no órgão, seguindo uma tradição célebre do Los Angeles Kings, da National Hockey League (NHL).

A SP2 operou em 12 diferentes arenas, instaladas nas localidades de Milão, Valtellina, Cortina e Val di Fiemme.

Em todas as arenas de gelo, com exceção da patinação de velocidade, foram utilizadas projeções que entravam ao vivo na transmissão da TV, além de um rider (relação de equipamentos utilizados durante uma apresentação) de luz potente e envolvente, que permitia apagar por completo a iluminação nesses espaços.

Coragem para errar e ousar

Antes de iniciar o trabalho nos Jogos, Marcella já estava decidida a fazer com o que “o toque, o molho e o carisma do Brasil” pudessem ser sentidos em todos os momentos do evento.

“Quando comecei os workshops com as equipes, levei uma inspiração muito clara: coragem para errar, coragem para ousar. Eu não queria que os Jogos fossem uma cópia das edições passadas. Muitas vezes o clichê é visto como algo negativo, mas em Jogos Olímpicos ele é a chave do sucesso. Não posso criar a partir do meu gosto pessoal. Preciso gerar conexão coletiva. E foi assim que fizemos até o Djoko dançar ao som de ‘We Are the Champions'”, diz, em referência à cena protagonizada pelo tenista Novak Djokovic, enquanto ele acompanhava a final da patinação artística por equipes. .

Na opinião de Marcella, a grande sacada da SP2 nos Jogos de Inverno 2026 foi transformar o espectador em protagonista.

“Criamos momentos de caraoquê em que arenas inteiras acompanhavam a letra no telão e cantavam juntas, de hits italianos como ‘Sarà Perché Ti Amo’ e ‘Nel Blu Dipinto di Blu’ (Volare) até ‘Wonderwall’, do Oasis. O ponto alto foi uma arena inteira de hóquei no gelo cantando ‘Imagine’, emocionada, em um momento com um significado único de paz no mundo, algo que muitas vezes apenas os Jogos Olímpicos conseguem proporcionar”, afirma.

Público canta “Imagine”, de John Lennon, durante os Jogos de Milão-Cortina 2026 – Divulgação

O trabalho foi potencializado com o uso de câmeras interativas, que viabilizaram brincadeiras como a “Freeze Cam”, inspirada no jogo brasileiro “estátua”. Quando o DJ parava a música, o espectador na plateia precisava “congelar” até o som voltar.

Capacidade de improvisar

Na visão de Marcella, a capacidade de improviso aliada à elevada capacidade técnica dos profissionais brasileiros foi decisiva para o sucesso do trabalho realizado em Milão-Cortina 2026.

“Acredito muito no Brasil e nos brasileiros. Não apenas nos atletas, mas também nos profissionais. É uma honra ser brasileira e mostrar ao mundo o nosso potencial. Somos gigantes na arte, na cultura, na música, no esporte e também na excelência profissional. O comitê era repleto de brasileiros que vêm se tornando referência mundial desde o Pan de 2007. Arrisco dizer que nunca na história os Jogos de Inverno tiveram tamanha repercussão no Brasil, e talvez até no mundo”, afirma.

Marcella considera um dos ápices do evento a ideia de colocar a música “Tema da Vitória” no instante em que Lucas Pinheiro Braathen cruzou a linha de chegada, garantindo o ouro.

“Tema da Vitória” foi criado no início da década de 1980 por encomenda da TV Globo, para ser usada no encerramento das corridas dos Grandes Prêmios (GPs) do Brasil de Fórmula 1.

Como, no período em questão, pilotos brasileiros disputavam a todo instante os lugares mais altos do pódio, a música logo passou a ser usada para celebrar as vitórias do país na categoria, acabando por ficar muito associada a Ayrton Senna, morto em 1994.

“Lucas já havia feito o melhor tempo na primeira descida. Estava nevando, chuvoso, numa modalidade em que a velocidade é impressionante. Inevitavelmente nos veio Ayrton Senna à cabeça. Era o primeiro ouro da América do Sul, o primeiro ouro do Brasil, nos primeiros Jogos Olímpicos em que uma empresa brasileira esteve à frente do sport presentation e das cerimônias de premiação. Ouvir o hino nacional em Bormio, na neve, foi algo absolutamente extraordinário”, celebra Marcella.