A organização estrutural do futebol global está passando por transformações que devem reconfigurar o mercado de transferências. Novos critérios norteando as negociações, o avanço de organizações multiclubes e a necessidade de reposicionamento do Brasil são algumas das tendências com potencial para impactar este mercado.
Em participação no podcast Maquinistas, da Máquina do Esporte, Rafaela Pimenta, uma das agentes mais influentes do futebol mundial, detalhou os impactos que o avanço das organizaões multiclubes tem causado no universo das transferências de atletas e como a gestão de carreira está precisando se adaptar rapidamente.
“Eu pessoalmente acho muito inteligente o projeto do multiclube, em que você tem um jogador jovem que ainda não tem espaço no destino final e vai encaixando ele nos outros degraus da minha escala de progressão”, disse.
No entendimento da empresária, responsável por jogadores como Erling Haaland, do Manchester City, a consolidação de grandes redes de clubes muda a lógica da maturação e negociação de jovens talentos. O movimento liga um alerta aos profissionais do ramo e equipes que não estão envolvidas em estruturas do tipo.
Esse novo ecossistema cria um mercado fechado, em que o intercâmbio de jogadores acontece dentro do próprio guarda-chuva corporativo, alterando a idade em que as grandes movimentações financeiras ocorrem.
“Se o mundo se tornar multiclubes, o que é a tendência, a movimentação de jogadores entre clubes vai diminuir e vai acontecer em uma idade muito mais tenra. Então, quando a gente começa a falar daquela absurdidade de jogadores de 12 anos, que são crianças e não jogadores, essa movimentação vai começar a escassear a partir dos 14 anos mais ou menos”, projetou Rafaela Pimenta.
A empresária apontou que a tendência é que os clubes passem a fechar “pacotes” de jogadores jovens, que poderão resultar em jogadores de alto nível e gerar retornos significativos em comparação com o investimento realizado.
Novos critérios
Os critérios de avaliação dos clubes compradores também estão passando por mudanças no ponto de vista de Rafaela Pimenta, tornando-se mais frios, complexos e abrangentes.
“A idade do jogador vai impactar como vou registrá-lo no balanço do clube. Ele é registrado como um ativo, e como qualquer ativo em balanço tem depreciação. Aquela depreciação tem uma representatividade no balanço e depreciação depende da idade que o jogador tem”, exemplificou.
Para além das planilhas financeiras, a conexão entre clube e jogador também tem sido cada vez mais considerada, principalmente em relação ao comportamento dos atletas fora do campo, por conta das redes sociais.
Até mesmo o ecossistema familiar do atleta entra na negociação, já que tudo e todos que cercam o jogador são considerados importantes. A exigência física, por sua vez, transformou o futebol de alto rendimento. No entanto, a busca pela perfeição tem criado um contraste nas categorias de base.
“Vejo garotos incríveis que são puro talento, paixão e instinto, o que é ótimo, e do outro lado aqueles garotos em que a família inteira está concentrada no projeto. Algumas famílias estão levando isso de um modo que vai na direção da robotização”, exaltou Rafaela Pimenta.
“O que eu acho que tá faltando é juntar os dois lados um pouco de profissionalização e um pouco de pura paixão, essa é a receita pro jogador de futebol”, defendeu.
Brasil
No contexto global, o Brasil se vê diante de um mercado europeu cada vez mais autossuficiente e organizado em redes. Com isso, precisa enfrentar o choque de realidade para superar o fato de que sua posição histórica como um dos principais exportador es do mundo já não garante facilidades.
“Temos que tomar muito cuidado para que a soberba não tome conta da gente. Antes os clubes eram muito mais ricos e não pensavam em desenvolver a base, podiam comprar de quem precisa vender”, ponderou a agente.
“Hoje temos grandes pólos de desenvolvimento de base na Europa, como Holanda, Portugal, Dinamarca, Noruega, fazendo um trabalho muito bem feito com as categorias de base”, seguiu.
Essa concorrência direta exige que os clubes brasileiros recalculem a forma como precificam suas promessas. O rótulo “Made in Brazil” já não justifica cifras astronômicas por atletas inacabados.
“Se o mercado brasileiro perder o norte de que um jogador em formação não pode custar a mesma coisa de um jogador pronto a coisa vai dar errada. O que a gente vê hoje é que muitas vezes, porque tem o carimbo de ser brasileiro, o clube vai pedir valores que são tão importantes que o europeu fala: ‘Aí eu não preciso comprar um jogador em formação, compro um jogador pronto’”, analisou a empresária.
Além dos desafios externos, a empresária também aponta um gargalo interno recente que prejudicou o desenvolvimento de talentos no país: o retorno de medalhões.
“Aquela onda de jogadores que estavam terminando carreira na Europa e que vinham terminar a carreira no Brasil começou a virar moda e foi o sufocamento das categorias de base”, lembrou Rafaela Pimenta.
“Aquele menino que tinha que subir não subia, porque estava vindo um fenômeno de fora do Brasil. Claro que todo mundo queria ir ver o jogador que nunca teve oportunidade de ver, porque ele jogava na Europa e o pessoal queria assistir ele jogar. Então, houve um esmagamento das categorias de base”, concluiu a agente.
O podcast Maquinistas, apresentado por Erich Beting e Gheorge Rodriguez, com a participação de Rafaela Pimenta, advogada e agente de grandes jogadores do futebol mundial, está disponível no canal da Máquina do Esporte no YouTube:
