O projeto SAFiel, que propõe a transformação do Corinthians em uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF), se prepara para lançar a sua segunda versão com foco em equilibrar o poder político e econômico entre os acionistas. O intuito é fomentar o interesse do mercado enquanto busca manter o posicionamento popular do clube.
No Maquinistas, podcast da Máquina do Esporte, Carlos Teixeira e Eduardo Salusse, idealizadores do projeto da SAFiel, explicaram que a proposta introduz o conceito de “distritos econômicos” para proteger o clube da especulação e garantir voz à torcida.
“O que vai acontecer, na prática, é que, independentemente da quantidade [de ações], você vai continuar votando com as ações que você tem, mas você vai estar dentro de um distrito econômico onde a diferença é muito menor”, disse Carlos Teixeira.
“O grande desafio é equilibrar, achar o ponto ideal entre mercado e a democratização da SAFiel perante os torcedores. Se você pender muito para um lado, afugenta o mercado. Se pender para o outro, afugenta o torcedor”, pontuou.
Para democratizar de fato o acesso, o projeto também ampliou drasticamente a reserva de ações destinadas às camadas populares da torcida.
“A gente vai aumentar muito a reserva para torcedores populares. No primeiro projeto, tinha aproximadamente espaço para 100 mil compradores de poucas ações. Agora, a gente está ampliando para pelo menos 250 mil com um valor um pouco mais baixo, que pode ir até R$ 300”, detalhou Teixeira.
Outro pilar dessa versão são as travas de proteção comercial, criadas para evitar que grandes bilionários assumam o controle ou que as ações sofram vendas em massa. Entre elas, estão ferramentas para fomento de pulverização e controle de liquidez.
“As ações dos torcedores só são negociadas em balcão interno da SAFiel. Então, você não pode vender a sua ação para um indivíduo. Você vai poder vender no máximo 20% delas por ano via balcão. Para não acontecer isso de dizer: ‘Olha, minhas ações valorizaram 1000%, eu quero vender todas agora'”, explicou o executivo.
“Efeito SAFiel”
Apesar de não ter avançado o suficiente para começar a ser aplicado, o projeto da SAFiel demonstrou força dentro do Corinthians. A existência da proposta tem gerado um abalo no ambiente político do clube, forçando a atual gestão associativa a acelerar mudanças no Estatuto.
“O presidente do Conselho Deliberativo, Romeu Tuma, convocou uma coletiva de imprensa em um domingo e anunciou a mudança do Estatuto para poder implementar regras de governança, o que, em alguma medida, é o que a gente estava vendendo”, exemplificou Eduardo Salusse.
Esse movimento alterou também a percepção do torcedor comum, que passou a entender a necessidade de dividir a gestão social do futebol e a cobrar mais transparência.
“O torcedor corintiano não falava até alguns meses atrás que ‘a associação controla o futebol’. Não existia essa separação na cabeça do torcedor. Para ele, o clube associativo e o futebol eram uma coisa só. Hoje, o torcedor já sabe que a associação é uma coisa, o futebol é outra”, ressaltou Carlos Teixeira.
Um dos pontos de maior atrito na adoção de uma SAF é justamente o destino da sede social, frequentemente deficitária, mas central para a vida política do clube. A solução encontrada pela SAFiel foca na injeção contínua de recursos vindos do futebol diretamente para a associação.
“Temos que deixar muito claro que, hoje, o clube social sairá ganhando, e muito. No nosso projeto, a SAFiel pagará um royalty mensal, um percentual sobre a sua receita, suficiente para que o clube possa suprir as suas necessidades e melhorar as suas instalações”, afirmou Eduardo Salusse.
Momento tributário
Do ponto de vista dos fundadores da SAFiel, a mudança para o modelo de Sociedade Anônima é o futuro do futebol brasileiro. Na análise dos executivos, a sobrevivência financeira do modelo associativo é ameaçada por um cenário de asfixia fiscal no futebol nacional, agravado pela recente Reforma Tributária.
“A Reforma Tributária trouxe a tributação das atividades esportivas com uma redução da alíquota base em 60%, e houve uma manutenção da tributação específica da SAF. Na aprovação dessa última fase da regulamentação da reforma, houve uma emenda para fazer tudo igual, e o presidente da República vetou”, explicou Eduardo Salusse.
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Para os idealizadores da SAFiel, a discrepância na cobrança de impostos, especialmente previdenciários, torna a concorrência entre clubes tradicionais e SAFs cada vez mais desproporcional.
O podcast Maquinistas, apresentado por Erich Beting e Gheorge Rodriguez, com a participação de Carlos Teixeira e Eduardo Salusse, idealizadores do projeto da SAFiel, já está disponível no canal da Máquina do Esporte no YouTube:
