Enquanto no Brasil – especialmente no futebol – ainda convive com uma realidade em que clubes relevantes optam por desativar suas equipes femininas e em que dirigentes criticam abertamente os investimentos nessas modalidades, ao redor do mundo os esportes protagonizados por mulheres batem recordes seguidos de faturamento.
É o que mostra o relatório divulgado nesta semana pela consultoria britânica Deloitte. O estudo projeta um crescimento de 25% nas receitas das modalidades femininas de elite, que devem atingir US$ 3 bilhões em 2026.
No ano passado, o valor alcançado foi de US$ 2,4 bilhões. Segundo o relatório, entre 2022 e 2025 as receitas dos esportes femininos cresceram globalmente em 248%.
Considerando-se os valores previstos para este ano, a projeção é de que o crescimento nos anos de 2022 a 2026 atinja 340%.
“O mercado global de esportes femininos está passando por uma transformação profunda, atraindo novos públicos e criando uma identidade poderosa e única. Ultrapassar a marca de três bilhões de dólares em 2026 seria uma conquista fenomenal e consolidaria o esporte feminino firmemente sob os holofotes”, afirma Jennifer Haskel, líder de conhecimento e insights do Deloitte Sports Business Group.
Os números foram calculados pela Deloitte com base em três categorias de receitas, das quais as comerciais (que incluem patrocínios, parcerias e merchandising) devem ser as principais responsáveis pela disparada no faturamento, com a quantia de US$ 1,35 bilhão respondendo por 45% do total a ser gerado em 2026.
Em termos absolutos, as receitas comerciais dos esportes femininos de elite devem ter aumento de US$ 250 milhões, na comparação com o ano passado.
Transmissão e matchday
O estudo da Deloitte prevê que o faturamento das modalidades femininas com direitos de transmissão atingirá US$ 750 milhões neste ano, respondendo por 25% das receitas totais de 2026. Isso representaria crescimento de 23% em relação a 2025.
As receitas de matchday devem alcançar 30% do montante faturado pelos esportes femininos neste ano, com um total absoluto de US$ 911 milhões, aumento de US$ 163 milhões em comparação ao período anterior.
Na visão da executiva, o terreno para essa forte expansão no faturamento dos esportes femininos foi preparado por grandes eventos realizados em 2025, ano que contou com torneios como a Euro Feminina e a Copa América Feminina. Isto porque essas competições tendem a atrair, regionalmente, a atenção do público para as ligas domésticas e para as atletas dessas modalidades.
“Grandes eventos esportivos estão se mostrando catalisadores incomparáveis para o esporte feminino globalmente. Vimos o poder disso em 2025 nas Copas do Mundo de Rúgbi e Críquete, que não só mostraram talentos de elite, mas também ilustraram vividamente como o investimento estratégico, dentro e fora de campo, pode despertar uma nova geração de atletas e torcedores”, diz Haskel.
Por outro lado, ela evita análises eufóricas sobre esses resultados. “No entanto, é importante reconhecer que ainda é cedo. Construir uma identidade cultural e econômica sustentável requer investimento estratégico, paciência e inovação. O sucesso duradouro da indústria será construído na coleta diligente de dados, na análise de seu impacto e nas correções feitas por esses aprendizados”, pondera.
Principais mercados e modalidades
O relatório da Deloitte prevê que América do Norte (US$ 1,64 bilhão) e Europa (US$ 434 milhões) devem chegar ao fim deste ano como os principais mercados para os esportes femininos, com participações respectivas de 54% e 14% sobre o faturamento total.
De acordo com o estudo, futebol e basquete seguirão liderando a lista das modalidades que mais obtêm receitas, com 35% cada.
“Embora ambos os esportes se beneficiem de uma presença estabelecida em ambientes altamente profissionalizados, o crescimento projetado do futebol provavelmente será impulsionado pelo surgimento de ligas como entidades independentes e pela reestruturação das estruturas das organizações esportivas que incluem outros ativos, como times masculinos, para preparar as equipes femininas para o sucesso”, afirma o relatório.
O estudo cita a forte valorização verificada nas taxas de expansão da Women’s National Basketball Association (WNBA), que passaram de US$ 50 milhões, em 2025 (valor pago pelos donos do estreante Golden State Valkyries), para US$ 250 milhões, em 2030 (quando a nova equipe da Filadélfia entrará em atividade na liga).
A valorização dos times da National Women’s Soccer League (NWSL) também é lembrado no relatório, com taxa de expansão saltando de US$ 2 milhões em 2022 (total gasto pelos proprietários do Angel City FC) para os US$ 165 milhões a serem pagos pela futura franquia de Atlanta, em 2028.
O relatório também menciona a Copa do Mundo Feminina de 2027, que terá o Brasil como sede.
Os autores do documento avaliam que o evento, primeiro a ser realizado na América do Sul, poderá ajudar a impulsionar os esportes femininos na região.
