No mês em que estamos, outubro de 2025, enquanto os clubes brasileiros fazem as contas para fechar o ano e planejar a próxima temporada, a pressão por uma grande venda que salve o balanço financeiro é a força motriz por trás de cada decisão estratégica. Nesse cenário, a “Fábrica de Craques 2.0”, ou seja, a aplicação industrial de dados, biometria e inteligência artificial (IA) na formação de atletas, deixou de ser uma vantagem competitiva para se tornar uma questão de sobrevivência. O modelo, que promete substituir a incerteza da prospecção pela previsibilidade da produção em linha, é a nova ortodoxia do futebol de elite.
Contudo, a celebração acrítica dessa eficiência mascara uma transformação muito mais profunda e ambígua. Ao resolver velhos problemas de gestão, essa nova abordagem está silenciosamente criando um conjunto de dilemas que podem redefinir a estrutura, a estética e a própria alma do futebol brasileiro.
O paradoxo da eficiência
A primeira e mais filosófica consequência da industrialização é o risco da estandardização. A lógica industrial preza pela replicação de modelos de sucesso e pela minimização de desvios. Quando o sucesso de um jovem atleta passa a ser medido por um painel de “Key Performance Indicators” (KPIs) (“Indicadores-chave de desempenho”, em tradução livre), com picos de velocidade, passes progressivos e percentual de duelos ganhos, o sistema inevitavelmente começa a premiar e a promover os jogadores que melhor se encaixam nesse molde.
O atleta “eficiente” ganha preferência sobre o “genial”. O resultado é uma tendência à homogeneização, similar ao que os algoritmos causaram na música pop, em que certas estruturas de refrão e durações de música se tornaram dominantes por serem mais “performáticas”. No futebol, corremos o risco de otimizar a produção de atletas europeus com CPF brasileiro, perdendo justamente a imprevisibilidade que por décadas foi nosso maior diferencial.
Mas a consequência desse modelo não é apenas estilística; ela é profundamente psicológica. Atualmente, as categorias de base de elite operam sob um “panóptico da performance”: o atleta sabe que cada movimento é monitorado, quantificado e julgado por um algoritmo. Essa pressão constante para performar dentro dos parâmetros esperados pode inibir a criatividade. O medo do erro que afetará negativamente suas métricas pode levar o jovem a optar sempre pela jogada segura, em detrimento da tentativa genial, mas arriscada.
Assim, estamos formando, potencialmente, uma geração de atletas tecnicamente impecáveis, mas psicologicamente avessos ao risco, o exato oposto do que historicamente definiu o craque brasileiro.
A promessa de que a tecnologia democratizaria o acesso à informação se provou uma falácia no futebol. Na prática, ela se tornou a mais poderosa ferramenta para a concentração de poder. A implementação de uma estrutura de dados de ponta é um investimento massivo, que pode ultrapassar os R$ 5 milhões anuais. O resultado é a solidificação de um “abismo tecnológico” entre uma elite de quatro ou cinco clubes “data-driven” (“orientados por dados”, em tradução livre) e todo o resto do ecossistema.
Este abismo é mais profundo do que a mera disparidade financeira. Um clube rico sempre pôde comprar jogadores melhores. Agora, um clube tecnologicamente avançado tem a capacidade industrial de produzir jogadores melhores e identificar talentos de forma sistemática, criando um ciclo de domínio que se retroalimenta.
O efeito colateral mais perverso é o “dreno de cérebros”: os melhores analistas, fisiologistas e gestores são absorvidos por essa elite, drenando a competência do restante da pirâmide do futebol e enfraquecendo o ecossistema como um todo. A longo prazo, isso ameaça o valor do produto coletivo. Uma liga com apenas três ou quatro competidores críveis ao título se torna previsível e menos atraente, o que pode depreciar o valor dos direitos de transmissão que sustentam a todos, inclusive os próprios gigantes, como já se observa em algumas ligas europeias.
Risco e ineficiência na era dos algoritmos
A premissa final a ser questionada é a da própria infalibilidade dos dados, que pode gerar uma perigosa “ilusão de controle”. Quando todos os clubes de ponta bebem das mesmas fontes de dados e adotam modelos analíticos similares, uma consequência inevitável é o “pensamento de manada”. Eles passam a identificar e a valorizar exatamente os mesmos perfis de atletas.
E isso cria duas novas e fascinantes ineficiências de mercado.
A primeira é a superinflação dos “queridinhos dos dados”, transformando o que seria uma descoberta inteligente em um leilão óbvio e caro.
A segunda, e mais interessante, é a criação de um enorme ponto cego para os talentos “não ortodoxos”. Modelos de IA são treinados com dados históricos e, por definição, são ineptos para prever o “Cisne Negro”: o talento verdadeiramente revolucionário que quebra todos os modelos anteriores. Ao otimizar a busca pelo perfil de atleta que já conhecemos, corremos o risco de nos tornarmos cegos para o perfil de atleta que definirá o futuro do jogo.
Paradoxalmente, a maior oportunidade de negócio no futebol do amanhã pode ser apostar na intuição humana para encontrar os talentos que os algoritmos de hoje não conseguem compreender.
A conclusão é que a “Fábrica de Craques 2.0” é um caminho sem volta, mas repleto de efeitos colaterais. Ela oferece uma promessa de sustentabilidade financeira, mas cobra um preço na diversidade do talento, no equilíbrio competitivo e na imprevisibilidade do jogo.
O que estamos construindo é um modelo de negócio mais robusto, mas talvez um espetáculo mais pobre. A questão final para o gestor visionário não é como construir a fábrica, mas que tipo de futebol queremos que saia da sua linha de produção.
Samanta Vicentini é especialista em Gestão de Relacionamento com o Cliente (CRM) e estratégias de relacionamento e fidelização de fãs. Com passagens nos programas de sócio-torcedor de Flamengo, Palmeiras e Vasco, acumula experiência no uso de dados para fortalecer o vínculo entre clubes e torcedores, gerando recordes de retenção e faturamento
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