O derretimento da Liga do Futebol Brasileiro (Libra) aparenta ter se tornado um processo irreversível. Dentro de alguns dias, o bloco (que foi concebido, originalmente, com a finalidade de liderar a criação de uma liga responsável por organizar o Brasileirão, mas que passou a se concentrar em negociações coletivas de direitos comerciais e de mídia de seus membros) deverá perder mais um integrante de peso.
O Grêmio convocou uma reunião do Conselho Deliberativo para analisar a proposta de saída do clube da Libra. A votação ocorrerá na próxima quinta-feira (5 de março), em Porto Alegre (RS), e também decidirá sobre a migração do Tricolor Gaúcho para o Futebol Forte União (FFU), antiga Liga Forte União (LFU).
De acordo com informações do portal GZH, a iminente saída do Grêmio teria relação com as disputas internas na Libra, escancaradas após o presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista (o Bap), passar a criticar abertamente o modelo de divisão de receitas previsto no contrato atualmente em vigor, com o Grupo Globo.
A polêmica se agravou ainda mais depois que o Flamengo conseguiu bloquear judicialmente R$ 83 milhões que seriam pagos pela emissora aos clubes da Libra, graças a uma decisão da Justiça do Rio de Janeiro, que posteriormente foi derrubada.
Todas essas idas e vindas, entrecortadas por notas e declarações ácidas de dirigentes, serviram para tornar insustentável a convivência entre os membros da Libra.
Se os conselheiros aprovarem as propostas, o Grêmio será mais uma seguir um caminho que já foi trilhado recentemente por Vitória (que deixará a Libra em 2029, após o término do atual contrato de direitos de transmissão) e Atlético-MG, que decidiu migrar para a então LFU no fim do ano passado.
Os gestores do clube mineiro também criticaram, à época, a postura individualista adotada pela direção do Flamengo. Mas essa movimentação toda vai muito além do aparente choque de ideias.
Questão financeira
Dinheiro talvez seja a palavra que melhor explique a debandada que vem ocorrendo na Libra nos últimos meses.
Afundados em dívidas, alguns clubes viram suas expectativas de faturamento rápido se frustrarem na Libra, sobretudo depois que o Flamengo deixou claro (em uma entrevista concedida em 2023 por Gustavo Oliveira, então vice-presidente de marketing do clube, ao podcast Maquinistas, da Máquina do Esporte) que não estava disposto a vender 12,5% de seus direitos comerciais e de mídia ao fundo Mubadala, pelo prazo de 50 anos.
Com o acordo inviabilizado, restou à Libra negociar a venda conjunta dos direitos dos clubes do bloco, fechando contrato com o Grupo Globo para o ciclo de 2025 a 2029.
A justificativa usada pelo Vitória para trocar de bloco foi de que, na Libra, a projeção de receitas estaria em R$ 123 milhões, enquanto no FFU ela cresceria para R$ 166 milhões, um salto de 35%.
No caso do Grêmio, a questão financeira também pesa na movimentação para troca de parceiros de negociação.
Segundo o GE, se a adesão ao FFU se confirmar, o clube deverá receber R$ 100 milhões como antecipação por 10% das receitas de TV, relativas aos próximos 50 anos.
As equipes que integram o grupo, vale lembrar, aprovaram a venda de percentuais de seus direitos de mídia pelo prazo de cinco décadas.
Atualmente, a investidora do FFU é a Sport Media Participações S.A., que, aliás, está sendo processada, juntamente do Condomínio Forte União, por sócios do Sport que questionam a venda de 20% dos direitos comerciais e de arena do clube pernambucano.
Em um artigo publicado nesta quinta-feira (26) na Máquina do Esporte, o economista José Barreto de Andrade Neto, mestre pela Universidade de São Paulo (USP), observou que, tempos atrás, o Athletico-PR vendeu 20% de seus direitos de mídia ao investidor da LFU por cerca de R$ 203 milhões, enquanto o Goiás recebeu R$ 152 milhões nesse negócio.
Na prática, o clube gaúcho, apesar de contar com uma quantidade superior de torcedores e possuir engajamento muito maior nas redes sociais, teve seus direitos avaliados em termos similares aos do time paranaense e em apenas 40% acima do que foi pago à equipe goiana.
