A final da Copa do Mundo de 1934 aconteceu em um estádio integrado à máquina de propaganda do fascismo na Itália, país-sede do torneio. Como palco da decisão do segundo Mundial da Fifa, o Estádio Nacional de Roma foi utilizado como uma ferramenta para associar o regime autoritário de Benito Mussolini a elementos simbólicos de modernidade e sucesso.
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Vale destacar que a escolha da Itália como sede do torneio foi influenciada diretamente pela garantia de que o Estado Italiano cobriria eventuais prejuízos e investiria na organização do Mundial. Por meio de um lobby diplomático, o governo fascista do país assumiu o risco financeiro em troca do controle narrativo do evento, o que reduzia o risco econômico para a Fifa, que ainda operava com um orçamento reduzido, dependia de receitas pontuais e não contava com contratos de patrocínio ou de direitos de mídia relevantes.
Para viabilizar a competição em um contexto global marcado pelos efeitos da Crise de 1929, o governo italiano alocou um orçamento de 3,5 milhões de liras, moeda oficial do país entre 1861 e 2002, especificamente para a organização e a logística da Copa do Mundo de 1934.
O Estádio Nacional de Roma, originalmente inaugurado em 1911, foi transferido para o controle do Partido Nacional Fascista (PNF) e passou por uma grande reforma em 1927. A obra, de responsabilidade do arquiteto Marcello Piacentini, incluiu a construção de uma tribuna coberta em concreto armado, piscina de dimensões olímpicas, ginásios e um hotel sob as arquibancadas projetado para acomodar até 600 atletas.
O modelo de gestão do espaço era público, consolidando o estádio como um ativo do regime fascista voltado, principalmente, para demonstrações patrióticas e de poder. Além disso, com o objetivo de abrigar a competição e sediar a final da Copa de 1934, adaptações foram feitas na estrutura do estádio, incluindo a construção de arquibancadas temporárias sobre a piscina externa e de outros setores, o que elevou a capacidade oficial do local para cerca de 47,3 mil espectadores.
Na final entre Itália e Tchecoslováquia, porém, o estádio recebeu um público oficial de aproximadamente 55 mil pessoas, indicando uma aglomeração acima da capacidade regular do estádio em determinados setores.
Ainda em uma época em que não se comercializavam os direitos de mídia no futebol, o principal modelo de negócio e retorno da época continuava baseado na bilheteria. Como estratégia para lotar os estádios e criar um incipiente “turismo esportivo”, o Ministério dos Transportes da Itália ofereceu reduções nas tarifas ferroviárias, concedendo descontos de até 75% aos portadores de ingressos.
A estrutura comercial e das áreas premium do Estádio Nacional de Roma era completamente diferente do padrão que se observa hoje em dia nas modernas arenas esportivas. Nesse sentido, não há registros da comercialização de pacotes de hospitalidade corporativa ou espaços para empresas.
Os espaços nobres do estádio ainda eram estreitamente ligados ao Estado, estruturados em torno da “Tribuna D’onore”, setor com cerca de 800 lugares, e da “Tribuna Delle Autorità”, composta por outros 60 assentos. Esses espaços eram exclusivos para membros do governo, oficiais militares, dirigentes esportivos e diplomatas, funcionando como um local para networking político e consolidação de acordos diplomáticos.
O cenário de marketing e patrocínio na Copa de 1934 também refletia a ausência de um programa comercial estruturado pela Fifa na época, o que fez com que a publicidade ao redor do torneio ficasse sob o controle da confederação local e do Estado Italiano. Dentro do estádio, o espaço visual e a publicidade foram dominados por slogans nacionalistas, bandeiras e símbolos fascistas.
Neste aspecto, a comercialização do evento se deu principalmente pelo licenciamento patrocinado pelo Estado, que emitiu mais de 300 mil pôsteres oficiais, séries de selos e aprovou a venda de uma marca exclusiva de cigarros chamada de “Campionato del Mondo”.
Do ponto de vista da experiência do torcedor, a final combinou o espetáculo esportivo com uma coreografia política ostensiva, em que o público participou de um ritual de afirmação nacionalista. Ainda não existiam ações promocionais de patrocinadores, estandes comerciais ou venda expressiva de produtos oficiais com foco em distribuição de larga escala.
Comercialmente, a final de 1934 no Estádio Nacional de Roma marcou uma era de transição essencial na história das Copas do Mundo. A ausência de empresas globais parceiras e pacotes corporativos de alto valor financeiro demonstra que o futebol de elite operava subordinado diretamente às pautas governamentais.
O legado de negócios do estádio, que viria a ser demolido em 1957, se concentra na consolidação de que os megaeventos esportivos poderiam justificar investimentos em infraestrutura e atuar estrategicamente como vetores geopolíticos globais.
