A Sports Media, investidora do Futebol Forte União (FFU), utilizou direitos de arena cedidos por clubes que integram o bloco como garantia em uma operação financeira de quase R$ 1 bilhão.
A Máquina do Esporte teve acesso a um documento assinado em 4 de julho de 2025, relativo à 17ª emissão de debêntures simples, não conversíveis em ações, da Opea Securitizadora S.A., empresa com sede em São Paulo (SP).
Os títulos em questão foram lastreados em debêntures privadas emitidas pela Sports Media Entertainment S.A. (SME), acionista do Condomínio Forte União. A empresa detém percentuais dos direitos comerciais e de mídia da grande maioria dos clubes do bloco.
O valor total da emissão das debêntures privadas da SME foi de R$ 950 milhões, divididos em duas séries (uma de R$ 700 milhões e outra de R$ 250 milhões), com vencimento para 2030 (ano em que terá início o próximo ciclo de direitos de arena das Séries A e B do Brasileirão) e remuneração atrelada à taxa de juros básica da economia (mais conhecida como DI, que costuma ser próxima à Selic) acrescida de spread (prêmio fixo oferecida pela empresa emissora aos compradores, como compensação pelos maiores riscos que existem na operação).
As debêntures emitidas nessa operação, realizada no ano passado, contam com garantias reais como alienação fiduciária de ações e cessão fiduciária de direitos creditórios, que abrangem recebíveis, dividendos, juros sobre capital próprio e recursos oriundos da alienação das ações.
Os direitos definidos no documento incluem expressamente as propriedades comerciais e de mídia dos clubes do FFU, cedidos à SME.
Uma das cláusulas do documento prevê que, em caso de uma eventual inadimplência por parte da SME, o agente fiduciário poderá declarar o vencimento antecipado da emissão e adotar toda e qualquer ação judicial ou medida necessária para proteger os direitos dos debenturistas, tornando a cessão fiduciária exequível.
Se isso ocorresse, o fluxo financeiro gerado pelos direitos de arena deixaria de ir para a SME, passando a ser direcionado diretamente para pagar os investidores.
O documento informa ainda que, em cenários de liquidação ou insuficiência de bens do patrimônio separado (composto pelas próprias debêntures e também pelas garantias reais e as contas centralizadoras e de liquidação), a Assembleia Geral de Debenturistas pode deliberar pela cessão em pagamento dos créditos e bens aos próprios debenturistas ou ainda realizar um leilão desses ativos para terceiros.
Os debenturistas podem ainda votar por transferir a administração desses ativos (incluindo os direitos e recebíveis de arena herdados) para outra companhia securitizadora.
A SME foi procurada a respeito dessa operação de debêntures, mas ainda não se manifestou. O espaço segue aberto, caso a empresa deseje se pronunciar.
Autonomia dos clubes
A recente rebelião de parte dos clubes do FFU tem como pano de fundo justamente a questão da autonomia dos membros do bloco comercial, diante dos acordos e operações financeiras que a investidora tem levado adiante.
Vale lembrar que os recursos que são dados em garantia nessa operação de debêntures são relativos ao ciclo que se encerra em 2029.
Ou seja, quando as debêntures vencerem, em 2030, outro acordo comercial e de transmissão já estará em vigor.
Nos “States”
Dirigentes de diversos clubes e federações de futebol do Brasil estão em Orlando, nos Estados Unidos, um dos países-sede da Copa do Mundo de 2026, que se iniciará nesta quinta-feira (11).
A Máquina do Esporte apurou que os cartolas e representantes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) deverão se reunir com executivos da Major League Soccer (MLS) e da National Football League (NFL), com o intuito de conhecer melhor as duas organizações.
Essas visitas são parte do trabalho de “benchmark” que vem sendo realizado pela entidade e integram as discussões para a criação de uma liga unificada no Brasil.
Recentemente, dirigentes brasileiros também estiveram na Europa para ver de perto detalhes do funcionamento da Premier League, da LaLiga e da Bundesliga, as três principais ligas de futebol do planeta.
As informações coletadas nessas visitas têm ajudado a nortear as análises e a elaboração das propostas debatidas entre a CBF e os clubes.
Copa Masculina impulsiona seleção feminina
Em tempos de Copa do Mundo Masculina, a seleção brasileira feminina aproveitou o momento de empolgação do nosso povo com o futebol para impulsionar sua conexão com a torcida.
A CBF e a FSports, agência que detém a exclusividade sobre os acordos comerciais do futebol feminino da entidade, deixaram essa estratégia em evidência já na cerimônia de convocação do time masculino que disputará o Mundial deste ano.
Durante boa parte do evento realizado no Rio de Janeiro (RJ), a Copa Feminina de 2027, que terá o Brasil como sede, foi tratada com grande destaque.
A escolha das datas dos dois amistosos da seleção brasileira feminina contra os Estados Unidos, às vésperas da abertura da Copa 2026, não foi aleatória.
Afinal, deu aos torcedores brasileiros a oportunidade de ver o Brasil em campo e atuando diante de um adversário de peso.
Estratégia
Para a diretora de estratégia da FSports, Mônica Espiridião, o clima da Copa do Mundo Masculina tem um efeito que vai além da competição em si.
“Ele desperta o sentimento de pertencimento e fortalece a conexão dos brasileiros com todas as seleções nacionais. E isso tem refletido diretamente no interesse pela seleção feminina, que vive hoje a construção de um dos ciclos mais importantes de sua história rumo à Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil”, afirmou a executiva.
Ela lembrou que, mesmo sem uma grande competição feminina acontecendo neste momento, os indicadores digitais mostram que o interesse do público permanece alto e consistente, com a seleção feminina encerrando o último mês de maio com mais de 2,81 milhões de seguidores no Instagram, mantendo uma base extremamente sólida ao longo de todo o ano.
“Mais do que o volume de seguidores, chama atenção o consumo de conteúdo. Apenas entre janeiro e maio de 2026, o perfil da seleção feminina acumulou cerca de 19,3 milhões de visualizações e mais de 1,27 milhão de interações, números que demonstram uma comunidade ativa e engajada acompanhando a trajetória das atletas”, ponderou.
Na visão dela, o “Efeito Copa” beneficia toda a marca “seleção brasileira”.
“O torcedor volta a consumir mais futebol, acompanha convocações, cria expectativa para grandes torneios e fortalece seu vínculo com as equipes que representam o país. Nesse contexto, cada amistoso e cada partida da seleção feminina passa a ser percebido como parte da preparação para um momento histórico. No fim das contas, a lógica é simples: quando o assunto é seleção brasileira, o sentimento do torcedor não tem gênero. Afinal, é o Brasil que está jogando”, avaliou Mônica.
Rodrigo Ferrari é jornalista da Máquina do Esporte desde 2022. Formado pela Universidade de São Paulo (USP), atua com política desde 2010
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