Encerrada no último domingo (19), a Copa do Mundo de 2026 tem sido vendida pelos organizadores como um exemplo máximo de evento bem-sucedido.
Considerada por alguns como o maior Mundial de todos os tempos, a edição deste ano de fato teve apresentações memoráveis de seleções e atletas, sem contar os recordes batidos dentro e fora de campo, incluindo de público e faturamento.
Para alcançar esses números superlativos, porém, a Federação Internacional de Futebol (Fifa) aceitou fazer uma série de concessões, que ocasionaram incômodo ao universo do esporte mais popular do planeta, caso das famigeradas paradas para hidratação, do intervalo da final com duração superior ao permitido pelas regras e dos ingressos com preços flexíveis, que alcançaram somas astronômicas por conta da especulação.
Um caso em especial, porém, serviu para desgastar ao extremo a imagem do presidente da Fifa, Gianni Infantino.
Trata-se da decisão da entidade de anular a suspensão do atacante norte-americano Folarin Balogun, que havia levado cartão vermelho diante da Bósnia e Herzegovina, na primeira fase do mata-mata, mas ficou livre para enfrentar a Bélgica nas oitavas de final, após pressão feita pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a entidade.
O chefe do Executivo dos Estados Unidos declarou que telefonou pessoalmente para Infantino, a fim de questionar a punição ao jogador. Ele ainda fez ataques pessoais ao árbitro brasileiro Raphael Claus, responsável pela expulsão de Balogun.
O episódio ocasionou uma onda de críticas ao dirigente da Fifa. A Federação Alemã de Futebol (DFB) anunciou publicamente que se opõe à reeleição de Infantino no cargo.
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Desgaste político
A tendência é de que o cartola enfrente forte resistência entre as entidades europeias. Mas, o que poucos esperavam é que a insatisfação viesse até mesmo aqueles que teriam sido, em tese, beneficiados com as medidas tomadas pela Fifa durante o Mundial.
Em artigo publicado nesta semana no jornal The Guardian, o vice-presidente da Federação de Futebol dos Estados Unidos (US Soccer), Nathán Goldberg, fez duros ataques a Infantino.
No texto, o dirigente norte-americano disse que o presidente da Fifa “trabalhou para se aproximar” do presidente dos Estados Unidos “a qualquer custo”, para descobrir posteriormente que “se aproximar de Trump sempre sai pela culatra, manchando todo o esporte pelo caminho”.
Na visão de Goldberg, Infantino teria traído os valores inclusivos do futebol ao alinhar a Fifa com um projeto político descrito por ele como “abertamente enraizado na divisão, egoísmo e violência.”
“Como as ações de Infantino prejudicam o futebol de uma forma que não posso aceitar, e especialmente porque ele faz isso ao se inserir na política interna do meu próprio país, sinto-me compelido a condená-las publicamente”, afirmou.
Goldberg ainda criticou Infantino pelo cancelamento da suspensão de Balogun e também a homenagem feita a Trump pela entidade. Segundo ele, o presidente da Fifa teria criado e conferido sozinho “um ‘prêmio da paz’ a um homem que descaradamente se deleita com intimidação militar”.
“Nenhuma receita jamais apagará a mancha moral de abençoar as guerras de Trump em nome do futebol”, afirmou o dirigente, para quem Infantino “cruzou repetidamente a linha entre profissionalismo e humilhação.”
Ao fim do artigo, ele lamentou o fato de que o futebol caminha para um futuro “autocrático e hipercomercializado, em vez de uma força para o bem”, mas garantiu encontrar cada vez mais conforto “no fato de que outros começaram a se manifestar”.
