A desistência da Federação Italiana de Futebol (FIGC) em contratar o ex-meia Andrea Pirlo como técnico ganhou contornos de crise generalizada, ocasionando uma dança das cadeiras no alto comando da Squadra Azzurra.
Contrariados com a situação, o ídolo italiano Paolo Maldini e o brasileiro Leonardo pediram demissão de seus respectivos cargos de diretor e consultor da seleção italiana, 16 dias após terem sido contratados.
No lugar da dupla, que havia atuado também na gestão do Milan, assumiu Claudio Ranieri, ex-treinador da Roma. Já a seleção passará a ter como técnico Roberto Mancini, que havia comandado a Azzurra de 2018 a 2023.
A decisão da FIGC de descontratar Pirlo foi provocada pela parceria entre o ex-jogador, um dos protagonistas do Mundial de 2006 (o último conquistado pela Velha Bota), e a casa de apostas russa Fonbet, acordo ele firmou quando foi treinar o Dubai United, nos Emirados Árabes Unidos.
O clube, vale observar, pertence ao bilionário russo Sergey Lomakin, que investiu pesado para contratar o ídolo italiano como técnico.
A Fonbet não é licenciada na Itália, nação que possui uma das mais rígidas legislações para o setor de bets em toda a Europa, chegando a ponto de proibir todo tipo de publicidade das empresas da área, incluindo patrocínio de camisa a times de futebol ou propaganda em TV, rádio ou internet.
A lei não veta que clubes ou ex-atletas, como Pirlo, tenham parceria com plataformas, mesmo as que não possuam outorga para operar na Itália. Porém, as ações dessas parcerias devem ocorrer fora do país e ser voltadas a públicos do exterior.
Ainda que o acordo de Pirlo com a Fonbet não seja ilegal, a tendência é que ele resultaria numa crise de imagem para a seleção italiana, que já vem de uma sequência de três fracassos consecutivos, em sua tentativa de se classificar à Copa do Mundo.
Além de atuar em um ramo que enfrenta sérias restrições no país, a Fonbet está sediada na Rússia, nação que enfrenta embargo comercial imposto pelos Estados Unidos e a União Europeia, desde que a Guerra da Ucrânia foi deflagrada, em 2022.
As sanções afetam inclusive os pagamentos e investimentos feitos por pessoas físicas e jurídicas russas, o que poderia acarretar em questionamentos na mídia e até mesmo problemas legais para Pirlo, na medida em que manteve relações comerciais com uma empresa que opera a partir de um país sob sanção econômica.
Para se ter uma ideia, em 2018 isso serviu de pretexto para a prisão da herdeira e Huawei, Meng Wanzhou. A empresária chinesa foi detida no Canadá a pedido dos Estados Unidos, acusada, entre outras coisas, de violar um embargo comercial ao negociar com o Irã por meio da subsidiária Skycom.
Crise sem fim na FIGC
A optar pela dupla Ranieri e Mancini, a FIGC apela para uma solução caseira e por rostos já conhecidos, em sua tentativa de se livrar de uma crise que aparenta não ter fim.
O fracasso da Itália em mais uma Eliminatória Europeia para a Copa do Mundo provocou a renúncia de Gabriele Gravina da presidência da entidade.
Para seu lugar foi eleito Giovanni Malagò, ex-presidente do Comitê Olímpico Nacional da Itália (Coni) e do Comitê Organizador dos Jogos de Milão-Cortina d’Ampezzo 2026. O dirigente contou com apoio da maioria dos clubes da Serie A, cujo voto tem peso proporcional maior na eleição da FIGC.
A expectativa era de que ele modernizasse e profissionalizasse a gestão da entidade. A chegada de Maldini e Leonardo parecia indicar que a transformação viria.
Em 2018/2019, os dois ídolos foram fundamentais na restruturação financeira e esportiva do Milan, que havia se afundado em uma grave crise a partir de 2012, no apagar das luzes da “Era Silvio Berlusconni”.
No curto período em que estiveram à frente do clube, Maldini e Leonardo conseguiram construir os alicerces para o ressurgimento do Milan, que conquistaria a Seria A na temporada 2021/2022, dando fim a um jejum de 11 anos sem títulos.
Após a recusa a Pirlo e as saídas de Leonardo e Maldini, o novo presidente da FIGC acaba por recorrer ao mesmo técnico que comandou a seleção italiana durante a maior parte do tempo em que seu antecessor esteve no poder.
