No ano passado, a NBA anunciou seus novos acordos de mídia com ESPN/ABC, NBC e Amazon, por um período de 11 anos (2025/2026 a 2035/2036), que totalizam mais de US$ 70 bilhões. Com isso, se imaginava que todos os direitos da liga norte-americana de basquete estavam vendidos, certo? Errado. Não é bem assim. Estes valores e estas plataformas adquiriram apenas os direitos nacionais em suas respectivas janelas, em que elas têm exclusividade dos jogos em alcance nacional.
A verdade é que existe um segundo nível de negociação: os direitos locais. Trata-se de algo muito relevante na composição do orçamento anual de muitas franquias não só da NBA, mas também da MLB e da NHL. Para comparar com a realidade brasileira, seria o mesmo que dizer que Corinthians, Palmeiras e São Paulo venderam os seus direitos para uma plataforma de streaming apenas na Grande São Paulo, enquanto o acordo nacional é com uma outra plataforma.
É bom deixar claro que a prioridade é sempre dos acordos nacionais, ou seja, caso o jogo esteja sendo exibido por um dos parceiros nacionais em uma janela que prevê exclusividade, este jogo não pode ser disponibilizado pelo parceiro local. Mas, se o jogo estiver em uma plataforma nacional em uma janela sem exclusividade, os parceiros locais de ambos os times, não só o mandante, podem exibir o jogo em seus mercados locais.
Este modelo de negócio nasceu na TV por assinatura e aos poucos vai também migrando para plataformas de streaming. O assunto voltou à tona recentemente, justamente porque o DAZN, que já tinha tentado entrar no mercado norte-americano por meio de conteúdos de nicho (como o boxe), está fazendo uma nova tentativa, justamente buscando estes acordos locais. Os mais recentes foram com Indiana Pacers e Minnesota Timberwolves, além do atual campeão New York Knicks. Ainda existe uma expectativa de que outras franquias, como Cleveland Cavaliers, San Antonio Spurs e Memphis Grizzlies, também estejam perto de fechar acordo com a plataforma de streaming, com garantias financeiras mínimas entre US$ 8 milhões e US$ 20 milhões por temporada.
Estes acordos locais têm muitas variáveis e podem ser diferentes, a depender do mercado local de cada franquia. Por exemplo, o território de “Home Television” do Indiana Pacers abriga não só o estado de Indiana, mas também estados vizinhos, como Kentucky, Iowa, Illinois e Missouri. Já para as equipes de Nova York, o território de “Home Television” é apenas a Grande Nova York e Nova Jersey, ou seja, territorialmente bem menor.
Equipes menores acabam conseguindo ganhar visibilidade nestes acordos locais, uma vez que raramente seriam exibidas em uma janela nacional por atraírem menos audiência. Além de ser um bom negócio para as equipes, trata-se também de um excelente negócio para as plataformas de mídia, já que se pode fechar este tipo de acordo com várias equipes locais de diferentes esportes e fazer com que a plataforma ou o canal se tornem imprescindíveis para aquele mercado específico.
Hipoteticamente, uma plataforma de mídia que feche um acordo local com o Florida Panthers (NHL), o Miami Heat (NBA) e o Miami Marlins (MLB) deveria ser aquela que não pode faltar em nenhuma operadora de TV por assinatura no sul da Flórida, o que, em tese, ajudaria bastante o canal nas negociações com as operadoras. Este é um negócio gigante, porque são vários mercados locais relevantes, com vários times e diferentes esportes, o que pode mudar a realidade de uma plataforma de mídia em mercados específicos.
Brasil
Apesar disso parecer uma realidade apenas para mercados muito maduros, aqui no Brasil, guardadas as devidas proporções, já temos alguns exemplos de acordos similares. A Copa do Nordeste deste ano foi exibida pelo SBT na TV aberta apenas em algumas de suas afiliadas no Nordeste. A Band já teve os direitos da Série C do Brasileirão apenas para ser explorado em mercados específicos, como Campinas (SP) e região para jogos de Guarani e Ponte Preta, ou algumas equipes no Nordeste nas regiões metropolitanas em que essas equipes estivessem inseridas.
Não existe uma regra única que defina todos os esportes e seus direitos locais. As regras vêm de uma combinação de políticas da liga em questão, contratos das equipes, definições territoriais, acordos de distribuição e leis federais.
Segue abaixo um quadro que resume algumas destas regras:
| REGRA | COMO FUNCIONA |
| Território | Cada liga define qual é o território de suas equipes. Podem ser usados mercados de TV, regiões específicas, CEPs ou até mapas específicos de cada liga. Alguns territórios podem ser similares ou distintos entre NBA, MLB, NHL e outros esportes. |
| Exclusividade Local | Uma equipe pode negociar direitos exclusivos em seu território. O escopo de plataformas (TV, streaming, melhores momentos, etc.) pode variar a depender de cada contrato. |
| Prioridade Nacional | Jogos Nacionais na ESPN, TNT, ABC, NBC, Amazon, Apple, etc. são geridos por meio do acordo nacional centralizado das ligas. A possibilidade de transmissão local depende da exclusividade ou não da transmissão nacional. |
| Blackout | Produtos como o NBA League Pass precisam bloquear os jogos nos mercados locais para proteger o detentor dos direitos locais. |
| Direitos Digitais | Os direitos podem ser vendidos todos juntos (streaming e TV) ou separados. O time é que define a estratégia de negociação, não havendo uma regra universal. |
| Distribuição | Os canais negociam seus acordos de distribuição com plataformas de TV paga, telefonia ou plataformas de streaming. |
Este é, sim, um tema dos mais complexos, mas espero que, com esta coluna, possa ter ajudado um pouquinho na compreensão por parte dos apaixonados pelo mercado esportivo.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Evandro Figueira é vice-presidente de mídia da IMG na América Latina
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