Em 2017, quando comecei minha jornada na Ticket Sports, tínhamos 22 corridas de rua por final de semana em todo o Brasil.
Hoje, 9 anos depois, esse número passou para 60.
São 60 opções, 60 organizadores, 60 experiências diferentes todo fim de semana.
São corridas infinitas e quilômetros que cruzariam continentes. Mas, para além dos números gigantes, eu gostaria de trazer uma reflexão: será que temos corridas demais?
Eu não fiquei louca. Para nós, como tiqueteira, esse é um cenário maravilhoso. Mas, para quem precisa escolher onde investir seu dinheiro e seu domingo, talvez esse crescimento já comece a trazer um novo problema.
Para os organizadores então, nem se fala. Porque, quando existiam 22 provas, o desafio era convencer alguém a correr. Com 60, o desafio passa a ser convencer alguém a correr a sua prova.
Mas vamos deixar de lado um pouco as empresas e pensar nos participantes. Quanto mais corrida, mais dúvida. E aí é que está a grande questão: se o atleta tem tantas opções, o processo de decisão fica muito mais refinado. Percurso, confiança no organizador, experiência anterior, preço, kit, distância de casa, amigos que vão participar. Tudo tem um peso, uma importância.
O crescimento da demanda fez surgir mais corridas, mas será que o crescimento da oferta veio acompanhado da mesma evolução na experiência?
Hoje, depois de tantos anos acompanhando eventos, percebo algumas provas nascendo porque existe uma oportunidade de mercado, e não porque existe uma proposta. Em um mercado com 60 opções em um único fim de semana, cumprir o básico talvez já não seja suficiente para conquistar a escolha de alguém.
Talvez o problema não seja termos corridas demais. O que talvez tenhamos é corridas parecidas demais.
Mas como para tudo na vida existe um contraponto, coloco o meu aqui. Se hoje temos tudo isso de prova acontecendo, significa que mais cidades recebem eventos esportivos, mais pessoas encontram uma prova perto de casa e mais brasileiros têm a oportunidade de colocar um número de peito pela primeira vez.
Não é sobre isso no fim das contas? Sobre transformar vidas, tirar pessoas do sedentarismo e dar um objetivo para quem, talvez, nunca teve um?
Quanto mais a corrida se espalha, mais ela deixa de ser privilégio de determinados lugares e públicos.
Bastou uma hora para que eu mesma mudasse de opinião sobre o título que escolhi para esse texto. Então, talvez a pergunta correta seja: estamos preparados para fazer corridas melhores?
Um mercado maior naturalmente é mais competitivo, e competição não precisa significar que apenas os grandes sobreviverão. Pode significar espaço para provas menores, regionais, de bairro, de nicho, tradicionais, temáticas e para experiências completamente diferentes entre si.
A corrida de rua brasileira conquistou algo incrível nos últimos anos: escala. Agora, talvez o próximo passo seja transformar essa escala em qualidade, identidade e experiências que façam sentido. Porque crescer é importante. Mas, a partir de agora, talvez o que diferencie uma corrida da outra não seja mais o tamanho, e sim a capacidade de criar experiências que façam as pessoas quererem voltar, participar e fazer parte.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Gabriela Donatello é formada em Comunicação Social e pós-graduada em Gestão de Marketing. Atualmente, é gerente de marketing da Ticket Sports, com uma trajetória de oito anos dedicada ao universo dos eventos esportivos, atuando em diversas frentes do setor
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