De um modo geral, o senso comum tende a considerar que, para uma organização que está em dificuldades financeiras superar essa condição, bastaria centrar suas energias em aumentar suas fontes de faturamento. A premissa tem lá seu fundamento,
Mas a trajetória recente do futebol brasileiro serve para desmentir essa lógica, demonstrando de maneira prática que receitas recordes, quando não são bem direcionadas, ajudam a agravar ainda mais a crise.
Nunca antes na história os clubes das Séries A e B do Brasileirão faturaram tanto com patrocínios e contratos comerciais e de mídia. Mas nunca estiveram tão endividados quanto agora.
Em entrevista concedida à Máquina do Esporte, o presidente da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf), Caio Resende, comentou a respeito desse processo à primeira vista contraditório.
“O problema do futebol brasileiro não é dinheiro. Se fosse, teria sido solucionado nos últimos dois ou três anos, quando houve uma enxurrada de dinheiro no futebol brasileiro. Então, teve o dinheiro da liga [Futebol Forte União, o FFU], com a venda antecipada de direitos [comerciais e de mídia, que tiveram percentuais minotirtários negociados com a Sports Media Entertainment pelo período de 50 anos]. Houve a venda da SAFs [Sociedades Anônimas do Futebol], em que os proprietários aportaram muito dinheiro. Os clubes nunca tiveram tanta receita e nunca tiveram tantos endividados”, ponderou o executivo.
Na visão de Resende, o forte crescimento da dívida dos clubes, na sequência da rápida expansão das receitas, seria resultado da ausência de um sistema de regulação financeira.
“A gente tem um sistema de incentivos que premia o ‘mau comportamento’, entre aspas. O que se vislumbrou com essa entrada massiva de dinheiro do futebol brasileiro? A inflação de contratações e folha. Os clubes brasileiros nunca contrataram tanto e nunca pagaram salários tão altos. O clube virou um mero repassador de dinheiro. Ele recebia de um lado e pagava do outro lado contratações, comissões altíssimas para agentes e salários muito altos para jogadores”, explicou.
Dinheiro acabou
Segundo Resende, o grande problema do processo inflacionário que atingiu salários e contratações no futebol brasileiro, é que ele foi seguido por uma queda abrupta das receutas.
“Quando acaba o dinheiro que você antecipou, da sua venda de 50 anos de direitos. Quando, por exemplo, há agora uma restrição de bets. E quando você já vendeu o seu clube no formato de uma SAF, qual é a herança disso? Você vai ver as suas receitas diminuírem muito, seja porque o mercado de bets vai acabar ou vai se adaptar, agora com a Medida Provisória. O dinheiro antecipado, a maioria dos clubes já gastou inteiramente. Então, você vê suas receitas caírem. É um patamar inferior ao que os clubes vivenciaram nos últimos dois ou três anos. Mas a folha que você contratou está lá. O compromisso que você fez de pagar por atletas, os gastos de contratação estão lá”, afirmou.
Na opinião do dirigente, as complicações financeiras poderiam ter sido evitadas, caso os clubes houvessem sido submetidos a regras mais rígidas para o uso dos novos recursos.
“Não houve uma preocupação no Brasil, por exemplo, da liga que adiantou [LFU, atual FFU], em carimbar a destinação dos recursos. Quando a LaLiga fez uma venda antecipada de direitos [comerciais e de mídia, que tiveram percentual de 8,2% negociado com a CVC Capital Partners, em 2021], lá havia uma regra em você tinha que destinar no mínimo, se eu não me engano, 85% dos recursos para redução de endividamento ou para gasto em infraestrutura. Eram gastos que melhoravam o patrimônio líquido e a situação financeira do clube. Aqui no Brasil não houve essa preocupação”, analisou.
Para Resende, as novas regras de Fair Play Financeiro são uma tentativa de fazer os clubes utilizarem suas receitas de forma responsável.
“Vai ser necessário um ajuste no futebol brasileiro. A realidade de boa parte dos clubes é de uma estrutura de custos que não é condizente com as receitas. Então, vai ter que baixar essa estrutura de custos. E o instrumento pelo qual a imaginamos que essa mudança ocorra é o Fair Play Financeiro”, disse.
