A derrota histórica sofrida nesta semana por Donald Trump, do Partido Republicano, nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, deve ocasionar impactos que ultrapassam o universo da política.
A oposição do presidente norte-americano agora possui ampla maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, passando a contar com condições reais de fiscalizar e barrar atos do chefe do Executivo, que desfruta de popularidade tão baixa junto ao eleitorado (principal causa do sucesso dos democratas na atual disputa), que não é de se duvidar de que ele possa em breve ser apeado do cargo, com um processo de impeachment.
Ainda ocupando a cadeira de presidente dos Estados Unidos, Trump já não contará com aquele poder quase que ilimitado que lhe foi concedido nos primeiros meses de mandato, quando aproveitou para tocar terror em imigrantes, prender e perseguir adversários e promover todo tipo de negócio questionável com amigos bilionários, incluindo os donos da big techs e especuladores do mercado financeiro.
A política possui uma regra que não está escrita em lugar algum, mas que costuma ser infalível: derrotados nas urnas passam a ser evitados pelos antigos companheiros como se fossem portadores da mais terrível das doenças contagiosas ao toque humano.
Aqueles que apostaram todas as suas fichas no projeto de poder de um político em processo de derrocada costumam estar entre os que mais sofrem com o choque de realidade.
Muitos figurões do esporte fizeram questão de saltar no colo de Trump, quando ele retornou ao cargo em 2025, desde Dana White, do UFC, até os donos de franquias da NFL, que doaram fortunas imensas para a fracassada campanha do Partido Republicano.
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Porém, essas organizações têm a vantagem de dialogar com públicos que já assimilaram esse tipo de posicionamento. Pior situação enfrentará o presidente da Federação Internacional de Futebol (Fifa), Gianni Infantino, que passou os últimos dois anos adulando o presidente dos Estados Unidos e buscando todas as formas de beneficiá-lo pessoalmente, não apenas com afagos ao ego, mas também com aceno de ganhos financeiros.
FFE
Foi para favorecer Trump que Infantino teve a ideia de criar a subsidiária Fifa Forward Enterprise (FFE), que concentraria propriedades comerciais e de mídia dos torneios da entidade máxima do futebol (incluindo os da Copa do Mundo) e depois teria um percentual minoritário vendido a Joshua Kushner, irmão do genro do presidente norte-americano.
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A proposta, negociada às sombras da cartolagem internacional, provocou fúria de dirigentes das maiores confederações continentais do planeta – Uefa (Europa), AFC (Ásia) e Concacaf (Américas do Norte e Central) -, que cerraram fileiras na oposição ao mandatário da Fifa.
Na última reunião do Conselho da Fifa, realizada no mês passado em Zurique, na Suíça, Infantino ensaiou um pedido de desculpas que não foi bem digerido por uma parcela de seus opositores, além de propor a distribuição de uma bolada de US$ 6,35 bilhões (US$ 25 milhões para cada associação nacional), o que deve fazer brilhar os olhinhos dos dirigentes das federações menores e desprovidas de fontes de receitas.
O aumento de vagas para os países asiáticos nas futuras Copas do Mundo serviu para provocar uma baixa na oposição, com a declaração formal de apoio da AFC à reeleição de Infantino, feita pelo xeque Salman bin Ibrahim Al Khalifa, presidente da entidade e que já era aliado do atual mandatário da Fifa.
Eleição na Fifa
Resta saber se as federações asiáticas votarão fechadas ou se seguirão rumos distintos no 77º Congresso da Fifa, que será realizado em 18 de março do ano que vem, em Rabat, no Marrocos.
Vale lembrar que, nas últimas semanas, o nome do ex-treinador do Arsenal e atual chefe de desenvolvimento global da Fifa, Arsène Wenger, despontou nos bastidores como um dos principais cotados para enfrentar Infantino na eleição presidencial.
O ex-técnico desfruta de imenso prestígio na Ásia, por conta do período em que atuou no futebol japonês, nos anos iniciais da J. League.
Infantino é habilidoso e vem costurando apoios com cartolas de nações aliadas históricas dos Estados Unidos, como Catar e Arábia Saudita. Mas mesmo esses países hoje vivem momentos delicados em suas economias, por conta dos impactos da guerra iniciada por Trump e Israel contra o Irã, que resultou na destruição de boa parte da infraestrutura de produção e transporte de petróleo no Oeste Asiático.
Além disso, o principal aliado global de Infantino estará de mãos atadas no ano que vem e, mesmo com o cargo de presidente, terá pouca margem de manobra para interferir nos rumos da Fifa ou de qualquer outro organismo mundial.
Não se sabe ainda se, com a posse dos novos deputados e senadores em janeiro de 2027, o Congresso dos Estados Unidos não avançará com investigações sobre os negócios firmados por Trump e seus aliados.
Nem quais figurões do mundo esportivo serão encontrados nessas tramas. Até março, muitas reviravoltas podem ocorrer na política global do futebol. Sem contar que o grande problema para o cartola amigo de Trump talvez nem seja se reeleger, mas sim governar.
Bets
A proibição das bets é um tema que vai render ainda muito debate no Brasil nas próximas semanas. Após a audiência pública promovida no Supremo Tribunal Federal (STF) nesta terça-feira (3), a pedido do ministro Luiz Fux, relator das ações que questionam a regulamentação das apostas no país, diversas entidades emitiram posicionamento oficial sobre a questão.
O Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) defendeu que “uma nova escuta das organizações da sociedade civil poderá contribuir com dados e evidências atualizadas para a avaliação da Corte”. A entidade tem se posicionado, desde 2018, contra a liberação das bets.
“As bets não são um serviço de entretenimento como qualquer outro. Estamos falando de uma atividade que explora vulnerabilidades, estimula comportamentos compulsivos e pode comprometer a saúde e a subsistência das famílias. O Código de Defesa do Consumidor estabelece limites claros para a oferta de produtos e serviços perigosos. Na nossa avaliação, as bets ultrapassam esses limites. É por isso que defendemos que nunca deveriam ter ingressado no mercado de consumo brasileiro”, afirma Igor Britto, diretor executivo do Idec.
A forte presença de representantes de entidades esportivas e times de futebol na audiência desta semana chamou a atenção.
Uma das falas que mais repercutiram durante a reunião foi a do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que fustigou os cartolas presentes.
“Eu, com todo respeito, ouvi um representante de um time de futebol que acabou de falar que a briga dele são os clubes, o salário, como manter o time de futebol. A minha briga são as mulheres — 65% delas têm vergonha de procurar um serviço de saúde mesmo quando reconhecem que estão no vício”, afirmou o ministro, que ainda disse estar preocupado com os efeitos que a ludopatia acarreta aos serviços públicos de saúde e aos impactos do jogo na vida de torcedores, funcionários e até mesmo dirigentes de clubes.
Contraponto
Defensores da manutenção das bets seguem argumentando que a supressão do mercado regulado não extinguiu a prática do jogo no Brasil.
Bernardo Cavalcanti Freire, sócio-fundador do escritório de advocacia especializado em regulamentação Bessa, Cardia e Freire, e representante da Ponte Preta na audiência no STF, afirmou que o mecanismo de monitoramento escolhido pela Polícia Federal teria identificado 61 mil sites clandestinos em operação no país.
“Sem o mercado regulado, todo o consumidor acaba indo para as plataformas clandestinas, onde não há controle. Um menor de idade consegue acessar de forma simples. Há centenas de bets clandestinas à disposição no Instagram, e nelas é até possível utilizar o cartão de crédito, algo que era proibido no mercado legal. Enquanto não houver controle e educação, há essa migração automática”, afirmou.
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), por sua vez, repercutiu nesta quarta-feira o posicionamento do especialista Eric Brasil, da LCA Consultoria Econômica e representante da Associação Brasileira de Liberdade Econômica, que apresentou na audiência um estudo que contesta dados usados contra o setor de apostas.
Segundo a análise, não há elementos que permitam atribuir às bets a responsabilidade sobre o endividamento da população. O levantamento aponta três fatores estruturais que explicam esse cenário: taxas de juros excessivamente elevadas, ampla oferta e uso desordenado de linhas de crédito e baixa educação financeira.
Rodrigo Ferrari é jornalista da Máquina do Esporte desde 2022. Formado pela Universidade de São Paulo (USP), atua com política desde 2010
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