“Nunca vi nada assim antes.”
A frase é de Emma Hayes, técnica da seleção dos Estados Unidos, uma das treinadoras mais respeitadas do futebol feminino mundial. Ela não estava falando de uma Copa do Mundo. Estava falando da torcida brasileira em um amistoso preparatório entre Brasil e Estados Unidos, na Neo Química Arena, em São Paulo (SP), realizado em 6 de junho.
A pressão das 31.366 pessoas presentes no jogo surtiu efeito, e o Brasil venceu por 2 a 1. Mas o ótimo público do estádio paulistano pareceu até pequeno no segundo jogo entre as equipes, que aconteceu três dias depois, na Arena Castelão, em Fortaleza (CE). Foram 55.744 pessoas nas arquibancadas.
Somando-se os dois duelos do Fifa Series, Brasil x EUA jogaram para 87.110 torcedores. Foram apenas jogos preparatórios. A um ano da Copa.
Toda grande oportunidade de patrocínio no esporte segue o mesmo ciclo. Primeiro, um grupo pequeno de marcas enxerga o potencial antes dos demais. Depois, a modalidade explode, a concorrência chega, o preço sobe, e o espaço para construir algo genuíno desaparece. Quem chegou cedo, colheu. Quem chegou tarde, pagou caro para ocupar o mesmo espaço que já não tinha tanta diferenciação.
O futebol feminino está exatamente no ponto de inflexão desse ciclo. E, em julho de 2027, o Brasil será o palco da maior competição feminina da história.
A pergunta que fica para os responsáveis por marketing e patrocínio das marcas brasileiras é simples: você quer ser o que chegou cedo ou o que pagou para correr atrás?
Os números que o mercado ainda não processou
A Copa do Mundo Feminina de 2023, realizada na Austrália e Nova Zelândia, entrou para a história com dados que ainda não foram completamente absorvidos pelo mercado publicitário brasileiro.

Quase 2 milhões de torcedores estiveram presentes nos estádios, superando em 500 mil as projeções iniciais. A ocupação média dos estádios chegou a 84%. A competição gerou US$ 570 milhões em receitas, a primeira edição a atingir o equilíbrio financeiro na história da Fifa. O impacto econômico total na Austrália foi estimado em US$ 867 milhões.
Na TV, os números foram ainda mais impressionantes. Na China, 53,9 milhões de espectadores assistiram a um único jogo da fase de grupos. Na Grã-Bretanha, a final atingiu 13,2 milhões de telespectadores, o maior público da história para uma Copa do Mundo Feminina no país. Na Austrália, a semifinal envolvendo a seleção local foi a transmissão mais assistida da história da televisão no país.
Nessa mesma edição, a audiência brasileira se destacou e foi responsável por quase 36% das visualizações de conteúdo em vídeo consumido durante o torneio. Só perdeu para a China no percentual de horas somadas de vídeo consumido, com 22% do total. Isso significa que o mercado brasileiro está pronto para entregar tanto em alcance quanto em tempo de engajamento durante o torneio. E isso deve ser amplificado considerando-se o momento da seleção brasileira e o fato de sermos o país-sede.
Esses não são números de uma modalidade “em crescimento”. São números de uma modalidade que já cresceu, e que a maior parte das marcas brasileiras ainda está avaliando de camarote.
O que aconteceu na Neo Química Arena e na Arena Castelão confirma que a modalidade se estabeleceu no Brasil com força. O recorde anterior de público do futebol feminino no Nordeste era de 33.272 torcedores, registrado em 2024. O amistoso de junho de 2026 quebrou essa marca com folga. E o público que compareceu não foi por obrigação de pacote de ingressos: foi porque quis. Porque a modalidade criou pertencimento e forte atratividade.
No plano global, um estudo conjunto da Nielsen Sports e da Pepsico publicado em 2025 projeta que o futebol feminino entrará no Top 5 dos esportes mais consumidos do mundo até 2030, com uma base de fãs passando de 500 milhões para mais de 800 milhões de pessoas. Trata-se de uma expansão de 38% em menos de uma década.

Por que o custo-benefício nunca mais será o mesmo
Há uma janela que se abre antes de toda grande competição. Quem entra antes do torneio carrega a bandeira durante o ciclo inteiro. Quem entra depois paga o preço de um ativo que já foi precificado pelo mercado.
Com a Copa do Mundo Feminina chegando ao Brasil em pouco menos de um ano, essa janela é agora.
Mas a oportunidade vai além de patrocinar um evento. O futebol feminino no Brasil tem uma característica que poucas modalidades oferecem: a possibilidade de uma marca construir uma associação forte com a modalidade ao longo de um ano inteiro, com um tíquete de entrada significativamente menor do que o futebol masculino, para uma torcida que é crescente, fiel e ainda menos disputada.
No Brasileirão Feminino 2025, 164 marcas estiveram presentes nos uniformes das equipes, um crescimento de 24% em relação às 132 de 2024. E o dado mais relevante para quem pensa em posicionamento: 50% desses patrocínios foram exclusivos do feminino, sem qualquer relação com patrocinadores dos times masculinos dos mesmos clubes. Isso significa que metade das marcas presentes não chegou pelo futebol masculino. Chegou pelo feminino. Por escolha estratégica.
O futebol feminino está ganhando campo
Existe uma diferença fundamental entre patrocinar o futebol masculino e o futebol feminino que é pouco colocada na mesa das reuniões de patrocínio.
O futebol masculino brasileiro é um ativo gigantesco. Mas é um ativo saturado. A camisa de um grande clube pode ter até 12 patrocinadores. Os intervalos de transmissão disputam atenção com dezenas de marcas. O campo de ativação é tão ocupado que a diferenciação real entre patrocinadores está se tornando difícil. Sem falar nas polêmicas de bastidores e em todo o ruído que não tem nada a ver com futebol, mas pode contaminar a associação de qualquer marca que esteja no meio disso e eventualmente assustar novas marcas de entrarem.
O futebol feminino é diferente. A competição ainda é mais orgânica. A torcida se engaja com o jogo, com as jogadoras, com a identidade do clube, com o projeto. As marcas que estão ali aparecem de verdade. A ativação tem mais espaço para respirar.
Particularmente, acredito que a torcida do futebol feminino está mais disposta a reconhecer e retribuir as marcas que apoiam sua modalidade do que a maior parte da base de fãs no esporte brasileiro hoje. É uma torcida que foi invisível por décadas, que sabe o valor do que está sendo construído, e que não esquece quem acreditou antes dos holofotes chegarem.
Isso tem nome no mundo da publicidade: valor de marca (brand equity) por associação antecipada. E é um dos ativos mais difíceis de comprar quando a janela fecha.
Mas mais importante do que expor todos esses dados e trazer a minha visão, achei que era importante contar com a palavra direto da fonte, de quem está fortalecendo este ativo de dentro para fora e tem uma história que se mistura com a própria história da modalidade no país.
A Mônica Esperidião, diretora de estratégia da FSports, agência que detém a comercialização exclusiva dos direitos do futebol feminino da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), gentilmente aceitou meu convite para elencar os principais motivos que as marcas têm para investir na modalidade. O próximo capítulo da coluna de hoje foi escrito por ela.
LEIA MAIS: A um ano da Copa Feminina, Mônica Esperidião assume como diretora de estratégia da FSports
Muito além do propósito: Por que o futebol feminino é o negócio estratégico do momento
Sempre que participo de mesas-redondas ou dou uma palestra para falar sobre por que uma marca deveria investir no futebol feminino, inicio citando uma grande referência: Moya Dodd, advogada, ex-jogadora da seleção australiana e ex-membra do Comitê Executivo da Fifa. Ela afirma que uma marca tem três escolhas para entrar no futebol feminino: por alinhamento de valores com o esporte, pelo desejo de protagonizar essa transformação histórica ou, simplesmente, para não ficar de fora dessa jogada.
E dou continuidade às minhas intervenções, sempre com dados e casos que demonstram que o mercado já deveria ter passado da fase em que o alinhamento de propósito era o único argumento válido. Hoje, o futebol feminino se consolidou como um ativo de negócios independente, maduro e de alto retorno econômico.
Como agência exclusiva da CBF, que detém os direitos de comercialização do futebol feminino da entidade, acompanhamos diariamente esses indicadores comerciais por dentro do ecossistema.
Aceitando o convite do meu amigo Vitor Marini, quero sintetizar, para as empresas que buscam construir relevância e engajar o público com eficiência, as seis razões estratégicas para consolidar esse investimento o quanto antes, evitando, assim, cair no terceiro caminho citado por Moya Dodd.
1. Uma base de fãs consolidada, diversa e em constante expansão
O futebol feminino no Brasil atingiu 58 milhões de pessoas em 2025. Não se trata de um interesse passageiro, mas de um crescimento consistente, que somente nos últimos quatro anos ganhou 21 milhões de novos fãs, apresentando um avanço de 57%.
Dentre todos esses fãs, o perfil é bem equilibrado entre mulheres (52%) e homens (48%), que contam com um bom poder de compra, já que um terço desses torcedores têm renda superior a R$ 6.909.
2. Confiança, fidelidade e conversão
O torcedor do futebol feminino consome de forma consciente e costuma recompensar os parceiros comerciais do esporte. Dados do Ibope Repucom mostram que 78% dos fãs confiam em marcas envolvidas com patrocínio esportivo, e 77% priorizam essas empresas na hora da compra em comparação com concorrentes que não apoiam a categoria.
Além disso, 71% declaram maior fidelidade às marcas que patrocinam seus times ou atletas favoritas.
3. Audiência multiplataforma com entrega garantida
Hoje, todas as competições nacionais da CBF contam com transmissão garantida para a totalidade das partidas, e estamos coletando os dados do retorno de mídia deste ano, considerando-se essa cobertura completa, já que, no ano passado, segundo o Ibope Repucom, o retorno de mídia chegou a R$ 321,6 milhões somente para o Campeonato Brasileiro.
Já nos amistosos recentes entre Brasil e Estados Unidos, mais de 31 milhões de pessoas assistiram às transmissões nos canais do Grupo Globo, registrando média de 16,3 pontos na TV aberta, um recorde histórico para a seleção feminina em amistosos.
4. Território comercial exclusivo e livre de saturação
Em linha com o que o Vitor já sinalizou, o futebol feminino oferece uma clara vantagem competitiva, com um ambiente em que as marcas têm espaço e liberdade para gerar um impacto real.
Esse cenário já se reflete no Campeonato Brasileiro de 2026, que conta com gigantes como Uber, Amazon, Hyundai e Itambé, que estão protagonizando uma nova era com contratos de longo prazo (de 2 a 5 anos) e valores alinhados à real valorização da categoria no mercado nacional.
5. Retorno financeiro validado pelo mercado
O investimento na modalidade traz eficiência e segurança financeira. Mapeamentos indicam que 86% das marcas que investiram em patrocínios ligados ao futebol feminino relataram resultados que atingiram ou superaram suas expectativas iniciais.
Em termos globais, os investimentos em patrocínio no esporte feminino crescem a um ritmo 50% mais veloz do que nas principais ligas masculinas, apontando para uma valorização acelerada e contínua do ativo.
6. Comunidades digitais qualificadas e realmente engajadas
As buscas no Google relacionadas ao futebol feminino multiplicaram-se por dez na última década, provando que o público está atento e interessado na modalidade. No acumulado de janeiro a junho de 2026, as redes oficiais da CBF e o ecossistema @brasileiras ultrapassaram 86,6 milhões de visualizações orgânicas e quase 5 milhões de interações, um feito ainda mais expressivo ao considerarmos que canais como o @copadobrasil_fem e o próprio @brasileiras foram construídos do zero.
Esses dados comprovam um ciclo virtuoso de interesse e consumo de conteúdo, com engajamento real, assegurando às marcas um canal direto, orgânico e altamente qualificado de diálogo com o consumidor.
Por fim, fica o chamado para os líderes de marketing: o futebol feminino não é mais uma promessa de futuro, é uma realidade de agora. A questão mudou: qual o tamanho do protagonismo que sua marca quer ter? Quem demorar a agir perderá o “timing” de criar laços autênticos com uma comunidade vibrante.
Em 2018, ouvi a citação de Moya Dodd ao responder à pergunta de um gestor de marketing: “Como convenço meu chefe a entrar no futebol feminino?”. Hoje, me atrevo a dizer, depois de apresentar todas essas razões, que quem ainda precisa ser convencido já está atrasado para o jogo.
A oportunidade que a Retize está viabilizando
De fato não faltam dados e razões para entender que o momento é propício e único para as marcas se posicionarem no território do futebol feminino, com propósito e consistência. Além do ativo oficial das competições muito bem descrito pela Mônica, trazemos a oportunidade para que as marcas sigam essa conversa ao longo de toda a jornada dos fãs da modalidade: antes, durante e depois dos jogos.
A Retize está lançando um produto de patrocínio digital aos clubes focado nas audiências do futebol feminino brasileiro. Uma oportunidade para marcas se associarem à modalidade usando inteligência de dados, conversando com a torcida em todo passo do funil de relacionamento, com presença nos canais digitais oficiais dos principais clubes femininos do país e com ativações personalizadas para cada momento da jornada de um potencial cliente.
A proposta é simples: em vez de comprar uma exposição pontual e esperar que a torcida associe sua marca à modalidade, você constrói essa associação de forma consistente, segmentada e mensurável, ao longo de um ciclo que vai crescendo junto aos calendários de 2026 e 2027 da modalidade.
São mais de 10 milhões de fãs de esporte identificados na plataforma. Segmentação por comportamento, frequência de presença em jogos, preferência de clube e perfil de consumo. Mensuração ponta a ponta. Tudo isso com dados reais de fãs e “opt-in” para serem impactados por ativações personalizadas.
A Copa do Mundo Feminina começará em junho de 2027 e será no Brasil. Mas a melhor Copa do Mundo para as marcas começa antes. Começa agora. Sua marca garantiu a vaga ou não passará das Eliminatórias?
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Vitor Marini é profissional de marketing com mais de uma década de experiência liderando projetos de mídia digital e dados para grandes anunciantes do país, como Samsung e Ford, entre outros. Atualmente, é CEO da Retize, a primeira sports media network (rede de mídia esportiva, em tradução livre) do país, que ajuda os clubes esportivos a transformarem as interações digitais dos fãs em receita no mercado publicitário e também auxilia na conexão das marcas aos seus clientes por meio do esporte e dos games
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