No mês passado, publiquei no InfoMoney uma análise sobre a revolução silenciosa que vem transformando a indústria do futebol, um movimento menos visível ao grande público, mas decisivo para o futuro do esporte mais popular do país e responsável por movimentar milhões. De lá para cá, a relevância do tema só se intensificou, especialmente diante do encerramento da temporada de 2025 e das mudanças estruturais em curso nos bastidores da indústria. É a partir desse contexto, e da necessidade de aprofundar essa reflexão, que inicio a minha primeira coluna do ano.
Com a temporada oficialmente encerrada, o mercado que ocupa o centro das atenções voltou-se, como de costume, para a reorganização de elencos e comissões técnicas. Jogadores mudaram de clube, treinadores deixaram seus cargos, estruturas foram revistas e projetos esportivos entraram em fase de reavaliação. As manchetes seguiram um padrão conhecido: quem chega, quem sai, quem assume.
Mas, enquanto os holofotes permanecem concentrados nessas movimentações mais visíveis, outra dinâmica acontece em paralelo, muitas vezes longe do noticiário diário. É a dança das cadeiras entre agentes, executivos, investidores, ex-atletas e gestores corporativos que passam a ocupar posições estratégicas no comando dos clubes. São eles que definem projetos de longo prazo, atraem investimentos, desenham elencos e conectam o futebol ao mercado. É essa camada de profissionais que, na prática, vem redefinindo o futebol global.
Essa tendência, já consolidada em diferentes ligas internacionais, chegou de forma mais clara ao futebol brasileiro. As movimentações recentes demonstram que os clubes passaram a buscar profissionais capazes de pensar estrategicamente, atuar com ética e compreender o futebol como um ecossistema interconectado.
O cenário é reflexo de como o futebol passou a operar, definitivamente, como um grande negócio. A consolidação das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) nas Séries A e B, a entrada de fundos de investimento, o avanço de estruturas multiclube e a evolução das exigências de compliance e sustentabilidade financeira elevaram o nível de complexidade da gestão esportiva.
Nesse ambiente, o que diferencia um profissional não é apenas o cargo que ocupa, mas a trajetória que o levou até ali, a amplitude da sua visão e a capacidade de integrar diferentes áreas de conhecimento em torno de um mesmo objetivo. O futebol passou a valorizar carreiras que atravessam direito, intermediação, finanças, gestão, educação e mídia.
O ex-atleta continua tendo espaço nas estruturas do futebol, mas esse espaço deixou de ser automático. A vivência de vestiário permanece como um diferencial importante, porém deixou de ser critério único. O futuro do futebol tende a favorecer quem enxerga além das quatro linhas.
Hoje, o empresário pode se tornar diretor-executivo; o advogado, gestor de clube; o comentarista, executivo técnico; e o dirigente pode migrar para o mercado de intermediação ou investimento. A bagagem construída em diferentes frentes passou a ser vista como ativo estratégico, não como desvio de rota.
Profissionais oriundos da intermediação, por exemplo, vêm sendo chamados para ocupar funções executivas centrais. Eles trazem o diferencial de conhecer contratos, mercados e dinâmicas de poder em diferentes ligas. Ao mesmo tempo, cresce o número de executivos que vêm da gestão empresarial, da administração e da economia para assumir funções esportivas. O resultado é um ecossistema mais profissional, global e competitivo, no qual versatilidade e networking se tornaram diferenciais decisivos.
Essa revolução silenciosa pode ser compreendida a partir de cinco trajetórias que simbolizam o novo perfil de profissionais que ajudam a redesenhar o futebol mundial. São carreiras que atravessaram mais de uma área do jogo e que ajudam a explicar como o futebol está sendo gerido fora das quatro linhas.
Cinco trajetórias que ajudam a explicar o novo momento do futebol
1. Erkut Sögüt
Jurista de formação, Erkut Sögüt construiu uma carreira sólida no Direito Esportivo e na representação de atletas. Após atuar em negociações de grande porte no futebol europeu, passou a liderar projetos de educação, consultoria e conteúdo ligados à indústria do esporte. Em 2025, assumiu a função de diretor-geral de operações de futebol (managing director of soccer operations) do DC United, da MLS, tornando-se responsável pela estruturação esportiva do clube. Sua trajetória simboliza a valorização de perfis capazes de integrar conhecimento jurídico, leitura de mercado e gestão esportiva em ambientes altamente profissionalizados.
2. Carlos Bucero
Com uma carreira construída nos bastidores do futebol espanhol, Carlos Bucero participou de negociações relevantes no Real Madrid antes de consolidar sua atuação como intermediário. Em 2024, assumiu a direção-geral de futebol do Atlético de Madrid, em um contexto de reestruturação administrativa. No clube, coordena futebol masculino, feminino e categorias de base, além da expansão internacional do grupo. Sua trajetória exemplifica a migração de profissionais da intermediação para cargos executivos centrais.
3. Tiago Pinto
Sem histórico como atleta profissional, Tiago Pinto construiu sua carreira a partir da gestão de pessoas e processos. No Benfica, liderou departamentos e consolidou modelos vencedores antes de assumir a direção de futebol profissional. Posteriormente, atuou como diretor-geral da Roma e, em 2024, assumiu o comando das operações de futebol do Bournemouth, inserido em uma estrutura multiclube da Premier League. Seu percurso reforça a valorização de perfis com formação administrativa e visão sistêmica.
4. Deco
Ídolo dentro de campo, Deco ampliou sua atuação após encerrar a carreira como jogador. Fundou uma agência de representação com forte presença internacional antes de assumir, em 2023, a direção de futebol do Barcelona. Sua trajetória combina vivência esportiva, capacidade de negociação e leitura estratégica, atributos essenciais em um clube que atravessa um processo complexo de reconstrução institucional e financeira.
5. Fábio Mello
No contexto brasileiro, escolho Fábio Mello como meu parceiro em inúmeros projetos por acreditar que seu perfil representa o profissional que atravessou diferentes dimensões do futebol e consegue unir as múltiplas competências adquiridas em benefício do desenvolvimento da própria carreira, assim como da indústria. Ex-atleta com longa carreira, agente credenciado pela Fifa, gestor e educador, ele construiu uma atuação marcada pela formação de pessoas e pela profissionalização da indústria. À frente da FMS Gestão Esportiva e da FMS Educação e Cultura, Fábio conecta prática, mercado e ensino, contribuindo para o desenvolvimento de uma nova geração de gestores e atletas mais preparados para o futebol contemporâneo.
Para enriquecer essa leitura sobre a transformação do perfil dos profissionais que hoje ocupam posições estratégicas no futebol, questionei Fábio sobre como ele enxerga esse movimento. Segundo ele, o futebol vive um momento em que a experiência prática segue sendo fundamental, mas já não é suficiente isoladamente.
“O jogo ficou mais complexo. Hoje, quem toma decisão precisa entender de gente, de negócio, de mercado e de educação. A vivência de campo ajuda, mas sem formação, sem visão estratégica e sem capacidade de integrar diferentes áreas, o profissional fica limitado. O futebol deixou de ser um ambiente apenas de execução e passou a exigir pensamento estrutural”, explicou.
Para ele, a profissionalização da indústria passa, necessariamente, pela formação de líderes capazes de transitar entre o esporte e o mundo corporativo, exatamente o perfil que destaco neste texto e que começa a se consolidar nos clubes brasileiros e internacionais.
Reflexão central
Se, nos próximos meses, os holofotes voltarem a se concentrar apenas nas movimentações de elencos e comissões técnicas, uma parte essencial da história ficará fora do enquadramento. No futebol moderno, as decisões mais estruturantes nem sempre aparecem na foto da apresentação de reforços.
A revolução silenciosa acontece nos bastidores, conduzida por executivos qualificados, com formação híbrida, capazes de integrar pessoas, negócios e cultura. É nesse espaço, longe das quatro linhas, que o futebol finalmente vem sendo, de fato, redefinido.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Ana Teresa Ratti possui mais de 20 anos de experiência corporativa, é mestra em Administração, e trabalha atualmente com gestão esportiva, sendo cofundadora da Vesta Gestão Esportiva
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