Não seria exagero afirmar que não existe um dia de paz no Corinthians. E, desde a noite desta terça-feira (21), nem mesmo Paz (com letra maiúscula) há no Parque São Jorge.
Com uma dívida bruta que beira os R$ 2,8 bilhões (a líquida é em torno de 2,5 bilhões, segundo dados do último Relatório Convocados/Outfield), o clube reconheceu nesta semana que possui pendências a serem regularizadas no parcelamento milionário firmado com a Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD), órgão ligado à Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
O momento atual do Timão é de tormenta dentro e fora de campo. A sucessão de maus resultados da equipe custou o cargo de Marcelo Paz como executivo de futebol.
“O Sport Club Corinthians Paulista informa que, após reunião realizada entre o presidente Osmar Stabile e o Executivo de Futebol Marcelo Paz, as partes decidiram, em comum acordo, pelo fim do ciclo de trabalho do profissional junto ao Clube. O Corinthians agradece os serviços prestados e deseja sucesso na sequência de sua trajetória profissional”, informou publicação feita no perfil oficial do Timão no Instagram.
A nota motivou o seguinte comentário de um seguidor da página: “Pensei que tinham chegado a um acordo para os dois saírem”.
Ex-presidente do Fortaleza, responsável por estruturar o projeto que levou o clube cearense à Série A do Brasileirão e a disputar competições internacionais como a Copa Sul-Americana, Paz assumiu o cargo no Corinthians no fim de 2025, substituindo Fabinho Soldado.
Durante sua gestão, o Timão conquistou a Supercopa Rei de 2026, derrotando o Flamengo na decisão.
Nos últimos tempos, porém, ele vinha sendo fortemente contestado pela torcida, por conta da eliminações em torneios como Copa do Brasil e Copa Libertadores, além da péssima campanha na Série A do Brasileirão, com o time rondando a zona de rebaixamento.
No último dia 15, as principais organizadas do Corinthians estiveram no Parque São Jorge para pedir a saída imediata de Paz e o afastamento técnico do atacante holandês Memphis Depay. Não havia, portanto, clima para a permanência do executivo.
Crise nas finanças
De um modo geral, torcedores costumam cobrar dirigentes por conta de resultados esportivos. No caso do protesto das organizadas do Timão, porém, a questão financeira ocupou um espaço central na pauta de reivindicações.
“A promessa de superávit defendida pela diretoria contrasta com a percepção de grande parte da torcida, que vê o Corinthians caminhando para encerrar mais uma temporada com déficit. O cenário amplia os questionamentos sobre planejamento, transparência e responsabilidade na condução administrativa desse modelo associativo”, afirma a nota divulgada pela torcida Gaviões da Fiel, a maior do clube.
Números dos balanços auditados mostram que o Corinthians apresenta um patrimônio líquido negativo de R$ 774 milhões, valor que pode superar R$ 1 bilhão, considerando-se a métricas atualizadas.
Significa que, se entregasse aos credores todos os bens que possui (incluindo propriedades físicas e direitos comerciais ou de imagem), o valor obtido não seria suficiente para saldar a dívida.
Esse caos financeiro atinge diretamente o fluxo de caixa do Timão, resultando em atrasos recorrentes nas contas.
No caso envolvendo a CNRD, o clube atrasou o pagamento da sexta parcela consecutiva, no valor de R$ 8 milhões, de um acordo coletivo firmado para quitar dívidas acumuladas com jogadores, clubes e intermediários.
A parcela anterior, vencida em junho, também está em aberto, resultando em transfer ban de seis meses, que segue em vigor, impedindo a equipe de registrar novos atletas.
Na negociação firmada perante a CNRD, o Corinthians se comprometeu a quitar, de maneira parcelada e ao logo de seis anos, passivos que atingem R$ 76 milhões.
Revanche
O Cuiabá aproveitou esse momento de, vamos dizer, fragilidade do Corinthians para buscar sua revanche, por conta do calote sofrido na transferência do volante Raniele, acertada em dezembro de 2023 e concluída em fevereiro do ano seguinte.
O time mato-grossense é um dos principais credores desse acordo coletivo firmado pelo Timão perante a CNRD, com um total de receber de R$ 18 milhões.
O Dourado solicitou formalmente ao órgão da CBF que o plano de parcelamento seja cancelado, de modo a que o Corinthians perca os benefícios do acordo e volte a pagar juros cheios sobre cada débito.
O Cuiabá pede ainda que o time paulista seja punido com o prazo máximo de transfer ban, ficando impedido de registrar novas contratações durante dois anos.
A sanção incluiria ainda confisco de repasses e premiações feitas pela CBF, além da cassação do certificado de clube formador do Corinthians.
Vale lembrar que, em 2024, ano em que deixou de pagar o Cuiabá, o Corinthians chegou a rondar a zona de rebaixamento do Brasileirão, mas optou por investir em contratações de peso como as de Memphis, André Ramalho, Héctor Hernández, Talles Magno, Charles e José Martínez.
Com esse movimento, o Timão conseguiu se recuperar na tabela, ao mesmo tempo em que o Cuiabá caiu de desempenho e acabou sendo rebaixado.
À época, o presidente do Cuiabá, Cristiano Dresch, referiu-se à prática adotada por alguns grandes clubes, de contratar atletas com salários milionários enquanto deviam às equipes menores, como um “golpe no futebol brasileiro”.
O que diz o Corinthians
A diretoria do Corinthians emitiu nota à imprensa, para comentar sobre os atrasos nos pagamentos do acordo firmado perante a CNRD. Confira o texto na íntegra:
O Sport Club Corinthians Paulista informa que está ciente da situação envolvendo o acordo firmado junto à Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) e segue trabalhando para regularizar a questão.
O Clube tem se empenhado na busca de soluções que permitam o cumprimento de suas obrigações financeiras, dentro do processo de reestruturação atualmente conduzido pela direção.
O Corinthians reforça que o tema é tratado como prioridade e que continuará adotando todas as medidas necessárias para solucioná-lo.
Polêmica das bets
A oferta de serviços e de publicidade de bets está proibida no Brasil desde o último dia 5 de outubro. Ainda assim, nesta terça-feira (21), o Boca Juniors eliminou o Vasco pela Copa Sul-Americana, no Estádio do Maracanã, ostentando a logomarca da Betsson com destaque em seu uniforme.
Apesar de as autoridades brasileiras não haverem tomado qualquer medida concreta no sentido de barrar essa propaganda em solo nacional (pois, em tese, leis do país não teriam poder para interferir em acordos firmados por pessoas jurídicas no exterior), alguns juristas entendem que clubes estrangeiros, quando vêm atuar aqui, não estão isentos dos efeitos da Medida Provisória (MP) assinada pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“A MP não distingue clubes brasileiros de estrangeiros: a vedação vale para qualquer publicidade de apostas exibida no país. A circunstância de o contrato de patrocínio ter sido firmado no exterior não altera essa conclusão. O que importa juridicamente é que a marca foi exibida em território brasileiro e vista pelo público brasileiro. Pela própria MP, esse tipo de exposição é considerado publicidade abusiva, o que atrai as sanções do Código de Defesa do Consumidor, sobretudo multas administrativas”, explicou Eduardo Carlezzo, advogado especialista em direito desportivo e sócio do Carlezzo Advogados.
Já Bernardo Freire Cavalcanti, sócio do Betlaw, escritório de advocacia especializado na indústria de bets, acredita que a proibição em vigor não elimina simplesmente uma publicidade.
“Ela exporta insegurança jurídica para contratos internacionais, obriga a Conmebol a redesenhar suas entregas comerciais e cria um conflito entre uma decisão unilateral do Brasil e relações comerciais celebradas legitimamente em outros países”, avaliou.
Investidora de dona da CazéTV faz parceria bilionária com NFL
A General Atlantic, que é uma das sócias da LiveMode (dona da CazéTV), acaba de firmar parceria com a 32 Equity, braço de investimentos da NFL, para a criação de uma joint venture voltada ao mercado esportivo global.
Essa nova empresa atuará com o objetivo de investir e comprar participações em empresas ligadas à mídia esportiva, tecnologia, direitos de transmissão, engajamento de fãs, venda de ingressos e produtos de consumo.
A NFL atuará como sócia-gestora do fundo, podendo gerenciar também o dinheiro de investidores externos de mercado.
Um dado curioso é que os lucros obtidos nessa joint venture com a General Atlantic serão contabilizados pela NFL como rendimentos de private equity e investimento de capital.
Ou seja, esse dinheiro não entrará na divisão obrigatória de receitas com o sindicato de jogadores (o chamado salary cap), indo integralmente para os bolsos dos donos das franquias da liga.
Rodrigo Ferrari é jornalista da Máquina do Esporte desde 2022. Formado pela Universidade de São Paulo (USP), atua com política desde 2010
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