Vendeu-se uma ilusão cara no processo de profissionalização do futebol brasileiro: a de que o capital privado, por si só, entregaria o rigor da gestão empresarial e a conquista imediata de títulos. O problema não está em exigir gestão profissional e competitividade, mas em imaginar que ambas produzirão resultados no mesmo horizonte de tempo.
Pretender que um clube funcione com o rigor de uma grande empresa e, ao mesmo tempo, satisfaça a ansiedade da torcida a cada rodada é ignorar o tempo necessário para que decisões responsáveis produzam efeitos. A cada quarta e domingo, o ambiente é submetido a um teste de estresse em que a vitória pode esconder problemas estruturais, enquanto a derrota é tratada como uma crise existencial. A governança, porém, opera em outra lógica. Exige método, limites de gastos, avaliação de riscos, definição de responsabilidades e transparência.
Governança não é sinônimo de lentidão, falta de ambição ou imunidade à cobrança. Tampouco deve servir como escudo para justificar a incompetência. Uma gestão profissional precisa medir resultados, explicar decisões e corrigir erros. O que ela não pode fazer é confundir reação impulsiva com capacidade de resposta.
Na prática, a diferença entre governança e improviso aparece quando o resultado esportivo contraria o planejamento. Uma diretoria pode estabelecer critérios para a formação do elenco, definir limites para a folha salarial e anunciar um projeto de médio prazo. Mas, depois de duas derrotas, a pressão das redes sociais pode transformar uma decisão estratégica em uma emergência artificial. Quando a administração rasga o planejamento para dar uma “resposta rápida”, abandona a responsabilidade. O clube passa a tomar decisões para sobreviver à próxima manchete dos jornalistas e produtores de conteúdo, não para construir sua próxima década.
O ponto mais dramático dessa equação está na postura da própria torcida. A cobrança é legítima. O clube também pertence à cultura, à memória e à identidade dos seus torcedores. O problema surge quando o imediatismo transforma cada derrota em emergência e cada contratação cara na única demonstração de ambição. A pressão da arquibancada pode se converter em uma força de curto prazo contra o futuro que ela própria deseja proteger. Ao exigir investimentos milionários sem considerar sua sustentabilidade, parte da torcida pode acabar defendendo a quebra das regras e contribuindo para o consumo do patrimônio que jura proteger.
Isso não significa que a torcida deva aceitar qualquer desempenho. O torcedor tem o direito (e a responsabilidade) de exigir transparência, competência e resultados. O que ele não pode exigir é que a organização do clube seja sacrificada sempre que o placar contrariar suas expectativas. A relação entre torcida e gestão também depende da qualidade da comunicação. Um planejamento mal explicado parece desculpa; um processo sem metas parece abandono; uma decisão sem transparência parece incompetência.
Fazer a coisa certa cobra seu preço no curto prazo. Significa dizer “não” a vaidades, recusar negócios duvidosos, estabelecer limites para a folha salarial, sustentar decisões impopulares diante das vaias e bancar o tempo necessário para a reconstrução de uma equipe. Não existe atalho mágico. O processo é difícil de sustentar depois de uma derrota, mas é justamente nesses momentos que a qualidade da gestão se revela.
Reputação é consequência, não maquiagem, e forma-se na repetição de comportamentos confiáveis. A marca se fortalece não apenas quando o time vence, mas também quando a instituição sabe explicar suas escolhas nos momentos em que vencer não foi possível. O verdadeiro teste de maturidade de uma gestão não acontece na festa de um título, mas quando a equipe perde e o ambiente se deteriora. A solução mais exigida pela torcida é justamente aquela que pode comprometer a sustentabilidade do clube.
Governança e reputação caminham juntas porque obedecem à mesma regra de ouro: levam anos para serem construídas e poucas semanas de irresponsabilidade para serem destruídas. Quem não tiver a espinha dorsal para proteger os processos contra a urgência do domingo continuará entregando a sobrevivência do clube em troca do aplauso curto da próxima rodada.
Vinicius Lordello é diretor de inteligência da Máquina do Esporte, especialista em Gestão de Marcas, Reputação e Crises no Esporte, e professor do curso de Administração na ESPM e também da CBF Academy. Foi executivo de comunicação e conteúdo do Santos (2018), do Cruzeiro (2021/2022, na primeira transição para SAF do Brasil) e do Coritiba SAF (2024/2025). Tem dupla graduação (Ciências Sociais e Direito); pós-graduações em Jornalismo Esportivo, Gestão Financeira Estratégica e ESG; MBA em Gestão e Marketing Esportivo; e Mestrado em Gestão de Reputação no Esporte
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