Anunciado com grande entusiasmo na última sexta-feira (21), o futuro Centro de Treinamento (CT) das categorias de base do Santos pode até empolgar uma parte expressiva da torcida alvinegra, mas está longe de ser uma unanimidade na Baixada Santista, no Litoral de São Paulo.
O projeto é o centro de uma polêmica ambiental maior, que envolve a ocupação da Área Continental de São Vicente (SP).
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A região, que leva esse nome por estar separada da parte da insular da primeira cidade brasileira, abriga atualmente 20 bairros e uma população de aproximadamente 150 mil habitantes, possuindo características geográficas para lá de complexas, que ajudam a tornar o projeto do novo CT bastante problemático do ponto de vista ambiental.
Diferentemente da Zona Insular, com sua paisagem marcada pelas construções verticais e pelo alto índice de urbanização, a Área Continental se caracteriza pela ocupação horizontal e pela forte presença da vegetação nativa.
Uma boa parte dessa região está ou inserida nos domínios dos Parques Estaduais da Serra do Mar e Xixová-Japuí ou nos entornos de ambos. Áreas de vegetação nativa localizadas ao redor das reservas ambientais legais são conhecidas como zonas de amortecimento e possuem regras específicas para ocupação e realização de atividades humanas.
Essas normas servem para garantir que a região funcione como uma espécie escudo protetor da reserva, evitando que ela sofra danos externos.
As regras costumam incluir restrições ao desmatamento, a construções e a determinadas atividades econômicas, que não podem ser desenvolvidas no local.
Expansão urbana
Apesar dessas características complexas, a Área Continental é que a mais cresce demograficamente em São Vicente.
Localizada a 25 quilômetros do Porto de Santos, o maior do Brasil, e cortada pela Rodovia Padre Manoel da Nóbrega, uma das mais importantes da Baixada, ligando o Litoral Sul paulista ao Vale do Ribeira, a região se tornou o principal foco dos planos de expansão econômica do município, levados adiante pelo prefeito Kayo Amado (PODE).
Isso inclui mudanças na lei de zoneamento urbano, aprovadas em abril deste ano, que converteram as antigas Zonas de Preservação e Desenvolvimento Sustentável (ZPDS) em Zonas de Qualificação Industrial (ZI).
O objetivo declarado da mudança da norma seria integrar economicamente a região ao Porto de Santos, sem agredir o patrimônio ecológico local, com a instalação de complexos logísticos empresariais fechados.
Críticos do projeto alegam, porém, que a iniciativa abre brecha para que a Área Continental possa ser ocupada de maneira desenfreada pelos depósitos de contêineres a céu aberto, conhecidos como pátios de retroporto e que são muito presentes nas marginais da rodovia entre Santos e Cubatão, região que hoje está saturada, sem condições de receber novos empreendimentos dessa natureza.
O projeto do futuro CT do Santos insere-se, portanto, nesse plano maior de expansão econômica de São Vicente e que envolve ainda a instalação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), cujas obras alcançaram a Ponte dos Barreiros, que interliga a parte insular da cidade à região onde a nova estrutura do Peixe será construída.
Ministério Público
Nesta semana, o advogado Rui Elizeu de Matos Rezende encaminhou ao Ministério Público Estadual (MPE) uma denúncia, solicitando a instauração de inquérito para apurar as negociações envolvendo o novo CT do Peixe.
Na peça, o profissional questiona a suposta participação do prefeito Kayo Amado nas negociações que resultaram na aquisição da área pelo Peixe.
“Pairam fortes indícios de irregularidades fiscais e administrativas na conduta do Poder Executivo, posto que, sendo a transação de natureza eminentemente privada (entre a Saint-Gobain e o Santos FC), a prefeitura não justificou a natureza jurídica nem os limites do ‘apoio’ e dos ‘estudos prévios’ encomendados”, diz a notícia de fato encaminhada ao MPE.
Segundo a denúncia de Rezende, durante uma entrevista ao vivo concedida a um canal do YouTube há cerca de duas semanas, Amado teria comentado sobre detalhes da negociação, chegando a afirmar “que conduzia as tratativas em absoluto ‘segredo’, pois não esperava que ocorresse ‘vazamento’ do fato, que tal chegasse ao conhecimento público”.
Procurada, a Prefeitura de São Vicente afirmou que “a aquisição da área pelo Santos FC decorre de uma negociação realizada entre particulares, da qual o município não é parte e sobre a qual não praticou nenhum ato formal”.
Dívida da Saint-Gobain
A Saint-Gobain, que era dona do terreno de 700 mil m² que abrigará o CT da base do Santos (e repassou a propriedade ao Santos, numa operação classificada como venda, mas que ocorre sem custos financeiros para o clube), possui uma relação antiga com São Vicente e que envolve uma fábrica de vidros que funcionou durante 86 anos na área central da cidade.
Tudo começou em 1937, com a inauguração da S/A Indústrias Victry, que, dez anos mais tarde seria comprada pela Vidrobrás e, posteriormente, repassada à Companhia Vidro Plano Santa Marina, antes de ser totalmente assumida pela multinacional francesa, que é dona das marcas Placo, Brasilit e Quartzolit.
A fábrica encerrou as atividades em 2023, deixando um passivo tributário milionário com o fisco de São Vicente. Uma reportagem do jornal A Tribuna, de Santos, publicada naquele ano, informava que os débitos (inscritos na dívida ativa do município) ultrapassavam R$ 114 milhões. A estimativa é de que o montante atualmente beire os R$ 150 milhões.
Na denúncia de Rezende, ele questiona se poderia ter ocorrido algum tipo de compensação à Saint-Gobain, na forma de “uma possível operação de dação em pagamento ou renúncia fiscal disfarçada, sem a devida autorização legislativa ou obediência aos ditames da Lei de Responsabilidade Fiscal”.
A Prefeitura de São Vicente contestou a hipótese. “Não houve, em nenhuma hipótese, compensação ou perdão de dívida vinculado ao negócio: os débitos que recaíam sobre a área foram integralmente quitados, e os demais débitos da empresa seguem em cobrança e discussão judicial”, afirmou.
Despacho
Na noite desta terça-feira (25), o promotor Rodrigo Fernando Dacal, de São Vicente, proferiu despacho solicitando ao Santos, à Saint-Gobain e à Prefeitura de São Vicente, informações preliminares quanto aos fatos noticiados na denúncia de Rezende. As partes terão prazo de dez dias úteis para responder aos questionamentos.
A Prefeitura de São Vicente informou à reportagem “que não foi notificada de qualquer denúncia perante o Ministério Público e não tem ciência de sua existência”.
“Caso venha a ser oficiada, prestará integralmente todas as informações solicitadas”, disse, por meio de nota.
À reportagem, a prefeitura afirmou ainda que, no “âmbito de suas atribuições, cabe à administração municipal prestar as informações pertinentes à legislação urbanística vigente e fiscalizar a observância da legislação ambiental aplicável”.
“Nesse sentido, até a presente data, não foi expedido nenhum alvará, licença ou autorização para obras. O Estudo de Impacto Ambiental (EIA/Rima) está em andamento, custeado pelos particulares e sem qualquer custo para o Município, e nada poderá ser construído antes de sua conclusão e do atendimento integral de todas as exigências”, explicou.
A prefeitura também informou que o “zoneamento em vigor já permite a instalação de clubes e centros esportivos no local, e a parcela de vegetação protegida existente no terreno será preservada”.
“Os estudos preliminares indicam uma ocupação de, no máximo, 30% da área, com preservação dos 70% restantes. Vale ressaltar que a região passará por um processo de transformação com a implantação do VLT e de quatro novas estações na Área Continental”, disse a nota.
Saint-Gobain não se manifesta
A Saint-Gobain foi procurada pela reportagem, mas, até o fechamento desta matéria, não havia se manifestado quanto à dívida ou às negociações que resultaram na venda do terreno ao Santos. Também não comentou a respeito dos possíveis impactos ambientais que o futuro CT poderá acarretar.
Vale lembrar que a empresa foi uma das principais patrocinadoras do São Paulo Climate Change Week 2026.
Realizado na capital paulista no início deste mês, o evento reuniu empresas, investidores, governos, startups e sociedade civil com o objetivo declarado de transformar metas globais de sustentabilidade em projetos práticos e investimentos reais nos territórios.
O que diz o Santos
Procurado, o Santos explicou que ainda não tem condições de fornecer detalhes sobre o projeto, especialmente informar quanto da área de 700 mil m² será ocupado pelas estruturas do futuro CT, pois aguarda ainda a conclusão do EIA/Rima e demais estudos relacionados à obra. Confira a nota do clube na íntegra:
O Santos Futebol Clube terá condições de definir o quanto da área poderá ser efetivamente utilizado para a construção do CT após a conclusão do Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), dos levantamentos topográficos, planialtimétricos e dos demais estudos técnicos necessários ao processo de licenciamento.
O Clube está colaborando, em conjunto com a Prefeitura de São Vicente, e conduzindo todas as etapas do projeto de forma responsável e em conformidade com a legislação ambiental.
O Santos FC somente terá um projeto definitivo após a consolidação dos estudos técnicos e a obtenção das autorizações dos órgãos competentes, incluindo a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo).
Com relação à operação financeira, o terreno foi adquirido pelo Santos, oferecendo, como contrapartida, a cessão de propriedades comerciais e espaços de publicidade à empresa.
Condomínio Forte União
O CSA, que tem se mostrado nos últimos tempos uma das principais pedras no sapato da gestão do Condomínio Forte União (CFU), encaminhou na última semana uma notificação extrajudicial questionando as vinculações do CEO Gabriel Lima com a ODDZ Network, do ex-jogador Ronaldo Fenômeno.
O clube alagoano sustenta que poderia haver conflito de interesse entre o cargo ocupado por Lima no CFU e sua condição de sócio fundador e membro do conselho da holding responsável por controlar empresas que atuam na intermediação de patrocínios, produção audiovisual e agenciamento de atletas.
Um dos exemplos citados é a Octagon Latam, agência do grupo de Ronaldo Fenômeno, que gerencia promoções de marcas globais como Ambev, Red Bull e Mastercard, além de gerenciar atletas de clubes que são integrantes da liga, caso por exemplo do meio-campista Rodrigo Garro, do Corinthians.
“Marcas dessa natureza são, por definição, o universo de potenciais interessados nas propriedades comerciais que o condomínio existe para explorar, e o mercado em que se formam os preços desses ativos é um só. Tem-se, então, um mesmo profissional que, de um lado, conhece o inventário, os preços praticados, os pisos de negociação e as tratativas em curso do lado vendedor e que, de outro, é sócio e administrador de grupo que assessora anunciantes na aquisição de ativos dessa espécie. É o conflito em sua forma mais clássica: a proximidade simultânea dos dois lados da mesa”, diz um trecho da notificação extrajudicial protocolada pelo CSA.
Vale que, com base em uma denúncia apresentada pela equipe alagoana, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) impôs uma medida preventiva que impede a investidora Sports Media Entertainment S.A. de criar empecilhos para a saída dos clubes do Futebol Forte União (FFU).
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Para conter o movimento de debandada após essa decisão, o bloco decidiu debater mudanças em suas regras internas de governança, o que pode resultar numa redução no poder de participação da investidora nas decisões internas do grupo de clubes.
Ainda na semana passada, a Sports Media obteve um êxito na ação civil pública movida pelo Sindicato das Associações de Futebol Profissional (Sinafut) contra a emissão de debêntures de R$ 950 milhões, realizada pela investidora no ano passado e que usou com garantia direitos de arena dos clubes do FFU.
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O juiz Fernando Mello Batista da Silva, da 24ª Vara Cível de Brasília, questionou a legitimidade da autoria do Sinafut no processo, chegando a comentar sobre uma “questionável intromissão” da entidade sindical no caso.
Em nota, o Sinafut afirmou ter recebido o despacho com naturalidade e que “não houve indeferimento nem julgamento de mérito” do processo.
Rodrigo Ferrari é jornalista da Máquina do Esporte desde 2022. Formado pela Universidade de São Paulo (USP), atua com política desde 2010
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