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Evandro Figueira, especial para a Máquina do Esporte

Evandro Figueira

6 min de leitura

Análise

Esporte e streaming: Um caso de amor

Plataformas de streaming devem investir US$ 14,2 bilhões em direitos esportivos em 2026, o que mostra que se trata de um segmento caro, mas que dá muito retorno

Evandro Figueira, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

12/03/2026 06h25

Paramount+ transmitirá o UFC com exclusividade no Brasil de 2026 a 2032 - Divulgação

⚡ Máquina Fast
  • O esporte garante assinaturas mais longas nas plataformas de streaming, ao contrário das séries que podem ser consumidas rapidamente.
  • Plataformas investem bilhões em direitos esportivos devido ao retorno financeiro e fidelização que o conteúdo ao vivo proporciona.
  • Conteúdo esportivo representa mais de 90% da receita de streaming da Disney, mostrando sua importância estratégica no mercado.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

As primeiras plataformas de streaming que surgiram no mercado chegaram com um catálogo de conteúdo mais focado no entretenimento, ou seja, séries, filmes, documentários e até alguns shows musicais faziam parte da oferta. O conteúdo era baseado em material de arquivo, material antigo que performava bem em canais da TV paga e que poderiam incentivar uma assinatura do serviço.

Naquele momento, o grande mote de venda era o que chamávamos de “TV Everywhere” (“TV em todos os lugares”, em tradução livre), em que você poderia assistir ao conteúdo em qualquer plataforma (telefone, tablet, computador), a qualquer momento e em qualquer lugar. A flexibilidade de também assistir ao conteúdo quando o assinante desejasse, sem a obrigatoriedade de estar na frente da TV na hora programada para a exibição de determinado conteúdo, era um outro incentivo.

De lá para cá, muita coisa mudou. Recentemente, em uma conversa com a minha filha, ela estava brava porque a série que está assistindo lança um episódio por semana, fazendo com que ela não possa maratoná-la. Expliquei a ela que o intuito é justamente assegurar que o cliente continue com a assinatura por mais tempo, garantindo a receita recorrente para aquela plataforma. Mas, mesmo assim, uma série tem apenas 8 ou 10 episódios por temporada, o que não garante um ano todo de assinatura.

Alguém um pouco menos ansioso até pode esperar o lançamento de todos os episódios, assinar a plataforma por um mês, assisti-la inteira de uma vez e cancelar. Por isso, o trabalho do tal do algoritmo é tão importante, sugerindo àquele assinante conteúdo relevante para que, depois que ele termine uma série, já encontre alguma outra de seu interesse que justifique a assinatura por mais tempo.

Este é, hoje, um dos maiores desafios das plataformas de streaming: segurar o usuário em sua plataforma, evitando que ele seja um “assinante turista”, ou seja, aquele que troca mensalmente de plataforma para assistir apenas ao conteúdo que lhe interessa e depois cancelar o serviço.

O esporte

Aos poucos, o esporte, que estava apenas nos canais especializados da TV paga, além de uma ou outra modalidade disponível na TV aberta, foi ganhando espaço também no streaming. O motivo? As plataformas começaram a perceber que o esporte traz muitos benefícios para o modelo de negócio do streaming.

O primeiro é o “appointment viewing” (“agendamento de visita”, em tradução livre), que é importante, mas também muito desafiador, pois o esporte continua sendo o único conteúdo que faz com que as pessoas queiram ver o jogo/evento no momento em que ele está acontecendo. Ninguém quer ver a final de um campeonato duas horas ou dois dias depois que ela aconteceu. Todos querem ver ao vivo.

Então, o benefício é que a plataforma garante uma grande quantidade de assinantes para determinado evento, mas o desafio é que ela tenha uma infraestrutura robusta para garantir que todos os interessados naquele evento consigam assistir ao conteúdo sem travar, com uma experiência similar à da TV convencional.

O segundo fator é que o conteúdo esportivo normalmente tem uma temporada mais longa do que uma série, o que faz com que o assinante permaneça por mais tempo com sua assinatura ativa. Um fã de futebol manterá a assinatura ao longo dos 10 meses de uma competição como o Campeonato Brasileiro ou a Conmebol Libertadores para garantir que consiga acompanhar todos os jogos do seu time favorito até o final.

Isso gera valor para as plataformas de streaming. Ninguém assina uma plataforma, assiste a dois ou três jogos e cancela a assinatura. A grande maioria que assina permanece durante todo o campeonato. É por isso também que a busca destas plataformas é por conteúdo mais perene, mais longo.

Mesmo a relevância de uma Copa do Mundo ou de um Grand Slam de tênis não trazem o mais importante para o streaming, que é a constância e a longevidade do conteúdo. Ambos são eventos relevantes, mas de curta duração. Portanto, até podem garantir uma assinatura, mas não uma permanência duradoura.

Por conta desta importância toda, não é à toa que o conteúdo esportivo acabou virando uma parte importante e em alguns casos até primordial na equação do modelo de negócio do streaming. No Brasil, o Grupo Disney consolidou todo o seu conteúdo em um único aplicativo, com o esporte (conteúdos da ESPN) disponível apenas no pacote mais premium. A HBO Max, por sua vez, tem jogos do Campeonato Paulista e seu principal produto esportivo, a Uefa Champions League.

Já o Amazon Prime Video tem jogos da Copa do Brasil, do Campeonato Brasileiro e da NBA, enquanto o Paramount+ tem Conmebol Libertadores, Conmebol Sul-Americana e recentemente adquiriu os direitos do UFC.

Todos estes conteúdos esportivos entregam para suas respectivas plataformas consistência de programação ao longo do ano, fator extremamente importante na avaliação de compra e negociação.

Investimento pesado

No início do mês passado, a Máquina do Esporte publicou uma matéria sobre o investimento de mais de US$ 14 bilhões que será feito pelas plataformas de streaming apenas em direitos esportivos em 2026, com a Amazon na liderança e sendo responsável por cerca de 27% deste valor. Aqui, vale lembrar que a Amazon tem como seu principal produto o e-commerce e usa o conteúdo esportivo para que o cliente permaneça fiel à sua plataforma e em contato permanente com a marca para que, no momento de uma compra, o primeiro destino da pesquisa seja o seu principal pilar de negócio.

LEIA MAIS: Plataformas de streaming devem investir US$ 14,2 bilhões em direitos esportivos em 2026

A matéria mostra exatamente o peso do esporte no negócio. A Disney anunciou que, em 2025, sua receita total do streaming foi de US$ 5,3 bilhões. Só a divisão esportiva gerou US$ 4,91 bilhões em receitas à companhia, ou seja, pouco mais de 90% do valor total foi alcançado pelo conteúdo esportivo.

O resumo é claro: o esporte é caro, mas dá retorno. E não é pouco.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Evandro Figueira é vice-presidente de mídia da IMG na América Latina

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