A maior Copa do Mundo da Fifa da história também pode ser renomeada. Em vez de um torneio de futebol, a competição que se encerrou neste domingo (19) com a consagração da Espanha pode tranquilamente ser batizada de Primeira Copa do Mundo de Soccer.
As transformações provocadas pela Fifa nas regras do jogo para adequar o futebol ao gosto do norte-americano acabaram por modificar de forma substancial a dinâmica do esporte. No final das contas, o que vivenciamos foi uma experiência totalmente nova ao longo de quase 40 dias.
A união entre a Fifa, futebol e mercado norte-americano causa, mais uma vez, um ponto de ruptura para a indústria esportiva. Em 1994, quando os Estados Unidos receberam o Mundial, o mundo do futebol foi apresentado para o turismo esportivo.
Por imposição dos norte-americanos, a Fifa encerrou o modelo de logística que norteava sua competição havia muitos anos. Em vez de o primeiro colocado de cada grupo da Copa continuar na mesma cidade disputando os seus jogos, os norte-americanos mostravam que era preciso rodar o torcedor por todo o país para aumentar os ganhos com viagens, hospedagem e alimentação.
Desde aquele Mundial que os times viajam por todo o país-sede, gerando um incremento no turismo local de forma substancial.
Um novo jeito de ganhar mais
Assim como há 32 anos, o Mundial de 2026 trouxe para a Fifa um novo jeito de ganhar ainda mais dinheiro. E muito dinheiro! Se, em 1994, o turismo era a bola da vez, agora é o engajamento do fã com diversas opções de entretenimento e consumo que vão para além do jogo.
A mudança é o primeiro fruto da parceria entre Fifa e Fanatics, assinada na edição deste ano e que muda radicalmente a relação do torcedor com o evento. Inspirada na cultura de colecionáveis que alçou a empresa de licenciamento ao estrelato, a Fifa decidiu aceitar as propostas de coleções de experiências inventadas pelos norte-americanos.
A começar pelo jogo dividido em quatro tempos, que amplia a possibilidade de entrega comercial na mídia e abre mais uma janela para consumo nos estádios, a Fifa preparou uma série de mudanças que muda, também, a configuração do futebol.
A pausa para a hidratação reordena o jogo a cada parada. Isso pode tornar o placar da partida mais imprevisível, mas fere duramente o conceito de um jogo dividido em dois tempos de 45 minutos cada. Tanto que, na Copa, o que mais se ouvia nos estádios eram vaias para o momento de “hidratação” dos times.
Além disso, a Fifa mudou totalmente a experiência do fã em 2026. Por meio de um aplicativo integrado à venda de ingressos, a entidade bombardeava o torcedor a todo instante com proposta de venda de produtos atrelados à experiência no jogo.
Futuro modelo da Copa é incerto
Apesar de toda a nova dinâmica do jogo, a Fifa não tem certeza sobre o que poderá mudar daqui para a frente. A Europa está desgastada com Gianni Infantino, presidente da entidade e que tem dado cada vez menos bola para as exigências do Velho Continente. É bem provável que o atual mandatário da bola sofra um movimento de oposição no próximo ano nas eleições da entidade, com futuro incerto.
Esse cenário pode dificultar a preparação do Brasil para a Copa do Mundo feminina, que abrigaremos no ano que vem. Sem um direcionamento claro sobre a permanência de Infantino ou mesmo sobre a manutenção de suas ideias, a Copa pode virar uma bomba-relógio para a Fifa.
Esse tema, porém, só ganha força a partir do final do ano, quando se intensificam os preparativos para o Mundial.
Até lá saberemos se vivenciaremos uma Copa do Mundo de Futebol ou de Soccer.
Erich Beting é fundador e CEO da Máquina do Esporte, além de consultor, professor e palestrante sobre marketing esportivo
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