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Alvaro Cotta, especial para a Máquina do Esporte

Alvaro Cotta

12 min de leitura

Análise

NBA na Europa: Um panorama geral

Verdadeiro desafio do projeto é como transformar uma marca esportiva global em uma competição regionalmente relevante, economicamente sustentável e culturalmente legítima

Alvaro Cotta, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

21/10/2026 06h15

NBA planeja liga europeia com 16 equipes a partir de 2027 - Reprodução

⚡ Máquina Fast
  • Clubes da Euroliga rejeitaram proposta da NBA e aprovaram expansão para 24 equipes com novo modelo de franquias.
  • A NBA Europa projeta investimentos bilionários e expansão, mas enfrenta desafios econômicos, culturais e estruturais na Europa.
  • A viabilidade do projeto depende de equilíbrio entre investimento financeiro e adaptação cultural e esportiva ao basquete europeu.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

O projeto da NBA Europa continua agitando o mercado esportivo no Velho Continente com possíveis impactos no basquete mundial. Os acontecimentos das últimas semanas não confirmaram uma aproximação entre a NBA e a Euroliga. Os clubes da liga europeia rejeitaram uma proposta inicial da liga norte-americana.

Notícias apontam que, nesta mesma reunião, os clubes europeus aprovaram por unanimidade um plano de expansão para um ciclo de 10 anos com ampliação de 20 para 24 equipes, migração para o modelo de franquias, valorização dos times e uma projeção de crescimento expressivo das receitas. Diante desse cenário, decidi fazer uma análise sobre os pontos críticos dessa situação.

Conceito

A arquitetura da NBA Europa prevê 16 participantes, sendo 12 franquias e 4 classificados por mérito esportivo. A expectativa do lançamento oficial é para 2027, porém veículos de imprensa na Europa indicam um possível adiamento para 2028, mantendo uma atividade preparatória em 2027.

A Euroliga possui 20 clubes, sendo 13 permanentes com licença A; entre 5 e 6 times de licença provisória (3 a 5 anos), conforme critérios de competitividade e estrutura; uma vaga vai para o campeão da EuroCup, a divisão de acesso; e, por último, uma vaga via convite por conta de interesses comerciais e promocionais (a última foi usada com Dubai).

Modelo de negócios

A distribuição das receitas da Euroliga estabelece dois grupos principais:

  • Direitos de transmissão: os clubes licenciados retém 65% das receitas geradas em seus respectivos mercados e os 35% restantes são distribuídos igualmente entre todos os clubes licenciados.
  • Outras receitas comerciais: 25% são distribuídos igualitariamente entre todos os clubes e 75% combinando desempenho esportivo, engajamento dos torcedores (público nos ginásios, audiência televisiva e interação digital) e resultados históricos.

A distribuição das receitas da NBA, por sua vez, tem um sistema de compartilhamento entre clubes e atletas, mas também busca equilibrar as franquias:

  • Receitas e a divisão com os jogadores: a receita total gerada pela liga (Basketball-Related Income (BRI)) é dividida entre clubes e atletas pelo Acordo Coletivo de Trabalho. Os jogadores ficam com um percentual entre 49% e 51% na forma de salários e benefícios. O restante vai para as equipes.
  • Receitas centralizadas: a maior parte das receitas é arrecadada de forma centralizada e dividida igualmente entre as 30 equipes, incluindo-se os acordos de transmissão nacional (US$ 76 bilhões por 11 anos), as parcerias e os patrocínios de grande porte, os licenciamentos e os direitos digitais.
  • Receitas locais: as franquias gerenciam esses negócios individualmente. São acordos de televisão e rádios locais, bilheteria, dias de jogo, hospitalidade (camarotes e lounges), estacionamento e concessões dentro das arenas. Aqui há uma disparidade entre arenas com alto faturamento (Golden State Warriors e New York Knicks) e equipes de mercados menores.
  • Sistema de compartilhamento: como as receitas locais variam drasticamente, a NBA opera um fundo de compartilhamento para apoiar franquias dos mercados menores. As equipes com receitas elevadas contribuem com uma porcentagem de seus ganhos para um fundo central. Esse fundo, complementado por 50% da arrecadação da “luxury tax”, transfere milhões de dólares anualmente para equipes com menor receita.
  • “Luxury tax”: as equipes que ultrapassam o teto salarial (“salary cap”) estipulado para a temporada pagam uma penalidade financeira calculada pelo valor excedente. Metade do montante arrecadado com essa taxa é destinada ao sistema de compartilhamento de receitas para as franquias dos mercados menores. A outra metade é retida para distribuição coletiva ou despesas gerais da própria liga.

Força econômica

A força da NBA é incomparável quando se analisa o cenário econômico. Em 2025/2026, a liga norte-americana faturou algo próximo de US$ 14 bilhões e o valor médio de uma franquia atingiu cerca de US$ 5 bilhões. Isso é mais que todos os times da Euroliga somados.

O faturamento da Euroliga, na mesma temporada, chegou a US$ 140 milhões, enquanto suas equipes têm orçamento anual médio de US$ 30 milhões, sendo o maior próximo de US$ 100 milhões.

Na última sexta-feira (16), o novo plano aprovado pelos clubes da Euroliga projeta um valor futuro de mercado de € 5,4 bilhões para os clubes licenciados e € 7,98 bilhões para a liga. A meta estipula para o décimo ano uma receita anual de € 648 milhões na Euroliga.

Notícias reportam que houve 15 ofertas de compra de novas franquias, totalizando € 1,2 bilhão. Na outra ponta, o mercado sinaliza que a NBA recebeu consultas ou propostas de US$ 500 milhões a US$ 1 bilhão por franquia para a nova competição NBA Europa, enquanto a própria liga prepara investimentos de aproximadamente US$ 10 bilhões em dez anos.

Atletas e qualidade competitiva

As equipes da NBA contratam seus jogadores mediante o Draft, ou seja, jovens talentos estreantes na liga, ou via negociações de troca com outras franquias, ou contratos diretos com atletas sem vínculo esportivo. Na Euroliga, os clubes seguem o sistema da Federação Internacional de Basquete (Fiba), em que os jogadores são registrados desde a sua formação. Muitos atletas vêm da base do próprio clube, outros são contratados de outras equipes mediante transferência nacional ou internacional.

O modelo da NBA Europa não está claro. Os atletas serão “sócios” dos donos das franquias como nos EUA ou serão jogadores contratados como funciona no modelo europeu? Há, todavia, um outro ponto. Haverá atletas suficientes de qualidade para atender as três ligas? Caso não haja um acordo entre a NBA Europa e a Euroliga, o mercado precisará de pelo menos mais 300 atletas de primeiro nível para uma nova competição, ou para repor os times que perderem seus atletas.

Essa situação pode gerar uma ruptura significativa nas transações entre atletas e equipes. O problema central pode não ser a falta de talento suficiente, mas o custo de atraí-lo e retê-lo. A média de salário de um jogador da Euroliga fica próxima de US$ 600 mil, enquanto na NBA ultrapassa os US$ 5 milhões.

Arenas e economia imobiliária

A Europa possui boas arenas em algumas cidades, porém esse é um pilar sensível nos negócios da NBA. Há uma distância significativa entre o mercado norte-americano e o europeu, considerando-se a modernidade das instalações norte-americanas e a capacidade de monetização e geração de receitas com camarotes, hospitalidade, alimentos e bebidas, naming rights, datas e eventos não relacionados aos jogos.

Enquanto nos EUA as franquias esportivas frequentemente são beneficiadas com aprovação de impostos municipais específicos para subsidiar a construção de novas arenas, essa dinâmica não é certa nas gestões públicas das cidades europeias. No Velho Continente, as reformas e as novas arenas enfrentam regimes locais de licenciamento, planejamento urbano, sustentabilidade, concessões e propriedade. Esse desafio será maior ainda para as equipes classificadas por mérito esportivo para a NBA Europa, onde os padrões mínimos de arena trarão uma complexidade imediata para um investimento imobiliário irrecuperável.

Cultura e legitimidade

Esta é uma variável de difícil controle e previsibilidade. Como a Europa receberá um modelo da cultura esportiva norte-americana? Esse contraste é robusto e aflora uma diferença entre os “valores” norte-americanos e europeus. Associações com grandes marcas do futebol poderão acelerar a aquisição de audiência e patrocínios da NBA Europa, mas não transferirão automaticamente a lealdade dos fãs.

As rivalidades entre as torcidas e a paixão pelo basquete foram construídas por anos de tradição no continente. Há territórios onde o basquete é maior ou tem a mesma relevância que o próprio futebol, como a Sérvia, em que as equipes (Partizan e Crvena Zvezda) estão no Top 5 de média de público na Euroliga, junto do Panathinaikos, da Grécia, e do Zalgiris Kaunas, da Lituânia, com mais de 15 mil fãs por jogo.

A Europa é heterogênea: Londres, Atenas, Istambul, Berlim e Madri diferem profundamente. Nesta realidade, a NBA Europa precisará adaptar a estratégia, o calendário, o idioma, os preços, os rituais e a identidade de acordo com cada território, visando a atrair e conquistar uma base de fãs, mas sem tratá-los como um consumidor casual. Aliás, não encontrei nenhuma pesquisa sobre a opinião do fã de basquete na Europa sobre esses movimentos.

Risco reputacional

A NBA tem conduzido as negociações com potenciais investidores e clubes interessados com cautela e muita responsabilidade. Apesar dos estudos indicarem um potencial atrativo para o projeto NBA Europa, o risco de um insucesso pode ser danoso institucionalmente e custar muito caro. Na NBA África, a Basketball Africa League (BAL) continua operando com prejuízo anual significativo e as arenas apresentam um público aquém do projetado.

Durante as conversas na Europa, alguns clubes demonstraram maior entusiasmo com o projeto, como o Real Madrid. O valor global da marca NBA, porém, pressiona para um impacto positivo imediato com perspectivas de sucesso para os investidores e para os fãs.

Recentemente, a pressão dos torcedores da comunidade do futebol europeu deu provas da sua força ao rejeitar e impedir o avanço do projeto da Superliga Europeia de futebol. Não houve nenhum sinal dos fãs para uma rejeição à NBA Europa, mas será fundamental que o projeto compreenda e considere a cultura europeia na implantação de uma nova liga no continente.

Calendário e ligas nacionais

Na Europa, a Euroliga consegue coexistir com os campeonatos nacionais, copas e janelas de seleções. O histórico da NBA apresenta uma outra situação, em que a temporada segue normalmente seu calendário, impedindo a presença das grandes estrelas em outras competições da Fiba.

A NBA Europa será um evento continental com franquias de diferentes países. Como será tratado o calendário de jogos, considerando-se as competições nacionais? É difícil imaginar um Real Madrid fora da Liga ACB da Espanha. Ou Panathinaikos e Olympiacos fora da Liga Grega de Basquete (GBL). Ainda nesse contexto, a parceria ou o apoio da Fiba à NBA Europa incluirá uma solução para as janelas dos jogos das seleções?

Patrocínio, hospitalidade e propriedade comercial

Poucas entidades no mundo dominam essa atividade como a NBA. A construção da marca fez dela uma força hegemônica no mundo do basquete. A escala econômica do mercado norte-americano e a influência comportamental e cultural em outros países posicionou a NBA como uma marca aspiracional, admirada por grandes empresas internacionais.

Essa excelência é um diferencial nos planos de negócios que apontaram um potencial pouco explorado pelo basquete europeu. Mesmo que a NBA Europa implemente um programa comercial híbrido, com conceitos norte-americanos e europeus, a eficiência da liga norte-americana provavelmente resultará em uma matriz comercial mais vantajosa que o resultado atual da Euroliga.

Comparação econômica

Analisando o Produto Interno Bruto (PIB) per capita em paridade ao poder de compra (PPC) da população é possível comparar a produção ajustada a preços. Apesar de não calcular a renda disponível para gastos com entretenimento ou eventos esportivos, esse comparativo traz uma dimensão do cenário econômico.

Dados de 2025 do Banco Mundial apontam para um PIB per capita PPC nos EUA de US$ 90 mil; na Alemanha, de US$ 75,4 mil; no Reino Unido, de US$ 64,6 mil; na França, de US$ 64 mil; na Itália, de US$ 62,8 mil; na Espanha, de US$ 59,9 mil; na Grécia, de US$ 45,3 mil; e na Turquia, de US$ 45,3 mil.

Os EUA superam a Espanha em aproximadamente 50% nesse indicador. Ou seja, a projeção de receitas deverá considerar os diferentes mercados para sustentar os investimentos necessários em arenas, infraestrutura, marketing e atletas. O retorno sobre o investimento (ROI) das futuras franquias do projeto NBA Europa terá de equilibrar os valores aportados com o potencial dos negócios conforme cada mercado.

Considerações finais

Um acordo entre NBA Europa e Euroliga pode ser economicamente atraente, mas não necessariamente viável nas condições de governança atuais. A presença de clubes como Real Madrid, Barcelona, Olympiacos e Panathinaikos influenciaria a legitimidade percebida da competição, porém suas decisões futuras não são presumidas.

O sucesso da NBA Europa dependerá menos da capacidade de investir bilhões de dólares e mais da capacidade de transformar esse investimento em valor esportivo, cultural e econômico para o basquete europeu. Por isso, o verdadeiro desafio do projeto é como transformar uma marca esportiva global em uma competição regionalmente relevante, economicamente sustentável e culturalmente legítima.

Então, fica a pergunta: o basquete europeu precisa de uma nova liga ou precisa de um novo modelo de negócios? São duas coisas diferentes, e talvez a resposta seja o verdadeiro centro dessa disputa.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Alvaro Cotta é diretor de marketing e comercial da Liga Nacional de Basquete (LNB)

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