Acho que, por conta do meu histórico e conhecimento em assessoria de imprensa, sempre fui muito curiosa por histórias dos personagens nos bastidores dos eventos em que estou inserida. Meu olhar é um pouco diferente. Enquanto a maioria joga os holofotes para os atletas, gosto de conhecer a trajetória de quem sustenta esse ambiente, principalmente as mulheres, porque, como sempre estiveram em menor número ali, acabavam se destacando, ironicamente.
É nesse lugar que entra Lívia Villas Boas, CEO da Staff Images e da Staff Images Woman.
Há uma diferença sutil entre registrar o esporte e construir valor a partir dele. Nem sempre ela está no clique. Às vezes, está no olhar de quem entende que, para além do jogo, existe uma narrativa comercial e institucional em disputa.
Recentemente, no Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro (RJ), durante o evento que celebrou os 15 anos de parceria entre o Governo do Estado do Rio de Janeiro e a World Surf League (WSL), essa leitura ficou evidente. As imagens produzidas, com pranchas ocupando escadarias históricas e o campeão mundial de surfe Italo Ferreira inserido em um cenário improvável, não são apenas esteticamente impactantes. Elas simbolizam um posicionamento.

Quando a arte encontra o esporte, o resultado pode ir além da performance e virar ativo. Lívia entendeu isso cedo. Fundadora da Staff Images, criada em 2013, ela partiu de uma lacuna clara: patrocinadores não tinham imagens de qualidade para comunicar seus investimentos.
“Eu via marca fazendo ‘print’ da transmissão para postar no LinkedIn. Aquilo me incomodava”, lembrou.
A resposta foi construir um modelo de negócio orientado à entrega, e não à cobertura da performance em si. Um detalhe que muda tudo. A partir dali, a agência cresceu junto ao entendimento de que imagem também é métrica de retorno. Vieram clientes, competições, estádios. Vieram também movimentos estratégicos, como a entrada na Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) em 2018, e na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 2021, e a consolidação como fornecedora para grandes propriedades do futebol.
Nada disso, porém, aconteceu de forma linear.
“Persistência absurda. Acho que essa é a minha maior marca”, resumiu Lívia.
“Atualmente, são mais de 360 mil imagens entregues desde 2018 para competições, patrocinadores e autoridades só da Confederação Sul-Americana”, completou.
A história da Conmebol ajuda a explicar. Foram meses de e-mails sem resposta, abordagens indiretas e conexões construídas em campo, até que uma oportunidade apareceu e foi convertida.
“Tentei por um caminho, não consegui, fui por outro. Eu estava de férias, meu pai morava lá em Natal, e a pessoa que o Alejandro Domínguez me indicou para falar, depois que consegui ser a única a tirar uma foto do time operacional dele pós-final entre Flamengo e Independiente pela Sul-Americana no Maracanã em 2017, me mandou um e-mail: ‘manda um orçamento agora’. Aí, eu peguei um guardanapo na praia, fiz um orçamento, mandei para o Rio de Janeiro para o pessoal colocar em uma apresentação e enviei. E a gente começou a trabalhar com a confederação em 2018”, contou Lívia.
O mesmo padrão se repetiu na relação com a WSL, que começou ainda no pós-Copa do Mundo de 2014, com uma decisão quase intuitiva de ir atrás de um novo mercado e assegurar boas entregas para Ivan Martinho, hoje presidente da liga na América Latina (e, assim como eu, colunista aqui da Máquina do Esporte), mas que antes atuava no futebol. Não por acaso, a parceria segue até hoje. A Staff Images também é a agência oficial do Allianz Parque.
Mas talvez o movimento mais relevante tenha vindo em 2021.
Após perdas pessoais durante a pandemia, Lívia redesenhou seu próprio negócio. Criou a Staff Images Woman, voltada exclusivamente para o futebol feminino e para mulheres fotógrafas. Não era apenas uma expansão, mas uma correção de mercado.
O projeto nasceu estruturado e com uma proposta clara: não replicar o modelo masculino, mas construir uma linguagem própria e abrir novas oportunidades de mercado para fotógrafas mulheres. O primeiro passo foi simbólico e estratégico. Um “media day” inédito no futebol feminino brasileiro, no time feminino do Santos, com produção pensada exclusivamente para as atletas. Na semana seguinte, veio o contrato com a CBF.
Hoje, além das competições nacionais e continentais de mulheres, Lívia é a fotógrafa oficial da seleção brasileira feminina.
“Temos mais de 20 mulheres trabalhando conosco direta ou indiretamente no Brasil e na América do Sul. É muito gratificante viajar e encontrar essas profissionais sedentas por trabalhar, aprender e realizar seus sonhos. Me sinto muito feliz em poder ser ferramental. Além disso, tenho a preocupação em trocar informações e orientá-las a respeito de equipamentos e posicionamento nesse concorrido mercado dominado por homens”, comentou.
O ponto aqui não é apenas representatividade. É a entrega em si.
Ao longo da conversa, ela voltou repetidamente a um conceito: retorno para patrocinadores. Direitos de transmissão, ativações e conteúdo disputam atenção nesse ecossistema em que a imagem deixou de ser acessório. Virou peça central.
E, nesse contexto, sair do óbvio não é escolha estética. É estratégia.
As fotos do Palácio Guanabara ajudam a ilustrar. A ideia surgiu em tempo real, a partir de um briefing rápido e de repertório acumulado.
“Vem da cultura que você tem, da bagagem de tantos anos. Sou fotógrafa há 19 anos”, explicou.
O resultado não é só bonito, é relevante. Em um mercado cada vez mais orientado por conteúdo, profissionais que conseguem traduzir contexto em imagem ganham espaço. E, mais do que isso, ajudam a redefinir o papel da fotografia esportiva.
Não se trata apenas de capturar o momento decisivo. Trata-se de construir significado para as marcas e para as propriedades nas quais elas investem.
Lívia entendeu isso antes de muita gente. E, como ela mesma diria, não foi por acaso, foi por insistência. E competência.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Raiana Monteiro é jornalista e atual coordenadora de conteúdo do Fifa+, a plataforma de streaming da Fifa. Na carreira, já atuou como coordenadora de comunicação de esportes olímpicos do Flamengo, diretora de relações públicas do Vasco e ainda teve passagens pelo Grupo Globo e pela agência In Press Media Guide
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