A ciência esportiva nunca soube tanto sobre o corpo humano. Hoje, um atleta de alta performance pode ser praticamente mapeado por inteiro.
Nos músculos, medimos carga acumulada, marcadores bioquímicos de fadiga, força isométrica, aceleração, desaceleração, saltos e mudanças de direção. Coletes com GPS, acelerômetros, plataformas de força, eletromiografia e câmeras identificam assimetrias, padrões de movimento e sinais antecipados de perda de rendimento.
No tronco e na coluna, registramos a posição em campo, a distância total percorrida, os deslocamentos em alta intensidade, o número de sprints e a repetição desses esforços. No sangue, acompanhamos cortisol, testosterona, hidratação e glicemia. Nos membros inferiores, avaliamos velocidade máxima, biomecânica da corrida, padrão de passada, pressão plantar e tempo de contato com o solo.
O coração também está sob permanente observação e aqui vale uma ressalva. Não é só o coração dos atletas que é impactado; quem torce também deveria ter um medidor em casa para cada pico de euforia nas vitórias e para os efeitos avassaladores de uma derrota. Aqui entram os eletrocardiogramas, sensores vestíveis e oxímetros que monitoram frequência e variabilidade cardíaca, ritmo em repouso, saturação de oxigênio e possíveis alterações na atividade do coração.
O sono e a alimentação, bem como a recuperação e a percepção subjetiva de esforço, também passaram a fazer parte da análise. Fora do campo, aplicativos e relógios inteligentes acompanham horários, deslocamentos, nutrição e qualidade do descanso.
Como se não bastasse esse arsenal de soluções para medições, dentro da competição, câmeras e sistemas de inteligência artificial (IA) analisam posicionamento tático, movimentação sem a bola, eficiência em jogadas ensaiadas e padrões de comportamento em que a tecnologia aplicada consegue observar, comparar e até prever uma lesão ou uma queda de performance antes mesmo que o atleta perceba o problema.
Em resumo, podemos medir quase tudo que acontece dentro de um corpo em movimento, entretanto ainda não conseguimos medir a distância entre saber que chegou a hora de parar e a capacidade de refletir e emocionalmente aceitar que o fim está por vir ou já chegou.
Não existe um sensor capaz de identificar o medo de deixar de ser necessário. Não há exame de sangue que revele o vazio provocado pelo último jogo e não há nenhum algoritmo que consiga calcular o impacto de acordar pela primeira vez sem um treinamento, uma convocação, uma viagem ou uma competição pela frente e, não menos importante, aquele frio na barriga que move o atleta na direção de fazer acontecer e resolver dentro das quatro linhas, sejam elas quais forem.
Existe uma máxima recorrente no esporte segundo a qual os atletas morrem duas vezes. A segunda morte é a biológica, comum a todos nós. A primeira acontece quando termina a carreira profissional. Evidentemente, não se trata de uma morte literal, mas do desaparecimento de uma identidade construída durante décadas, encerrando-se assim não apenas uma profissão, mas uma maneira de existir, de pertencer e de ser reconhecido.
Para a maioria das pessoas, a profissão ocupa uma parte importante da vida. Seja essa pessoa um engenheiro ou um gari, cada profissão tem a sua enorme importância na vida de todos nós.
E vale destacar que, para o atleta de alta performance, o espaço dedicado ao esporte frequentemente é quase pela vida inteira. Desde muito jovem, ele aprende a comer, dormir, viajar, relacionar-se, suportar a dor e administrar as emoções em função da competição, com o corpo se tornando ferramenta de trabalho e com a parte principal da rotina sendo determinada por objetivos. A identidade é diariamente confirmada pelos resultados, pelo placar do jogo e se a imprensa e/ou a torcida julgam se foi suficientemente bom.
Mas quando tudo isso termina, o silêncio pode ser ensurdecedor.
Tom Brady
Tom Brady talvez seja um dos exemplos mais simbólicos dessa dificuldade. Depois de conquistar sete títulos do Super Bowl e construir uma das carreiras mais vitoriosas da história do esporte, ele anunciou sua aposentadoria em fevereiro de 2022. Apenas 40 dias depois, no entanto, decidiu voltar.
Ao explicar aquela escolha, Brady reconheceu que sua decisão não era “100 a zero”, mas algo próximo de “55% sim e 45% não” e ele não estava apenas decidindo se seu braço ainda tinha força suficiente para lançar uma bola, mas tentando descobrir se conseguiria viver sem ser o quarterback que passou mais de duas décadas construindo um sonho pessoal e servindo de inspiração para milhares de futuros jogadores e fãs espalhados pelo mundo.
O corpo de Brady podia ser avaliado e era possível medir sua força, mobilidade, capacidade cardiovascular, velocidade de reação e recuperação. O que não podia ser quantificado era o peso psicológico de abandonar o campo, o vestiário, a liderança, a preparação semanal e a versão de si mesmo que ele literalmente havia construído.
Seu retorno mostrou que nem mesmo um dos atletas mais disciplinados, racionais e preparados da história consegue transformar o fim em uma equação simples. Ainda havia família, idade, desgaste e novos projetos sendo constantemente avaliados e, ao mesmo tempo, a competição e a sensação de ainda ser capaz de mais um passe para touchdown. Brady encerraria definitivamente a carreira somente em fevereiro de 2023 e, entre a primeira despedida e a última, viveu publicamente uma ambivalência que muitos atletas enfrentam em silêncio.
Novak Djokovic
Hoje, temos um caso emblemático de um dos maiores do esporte, o sérvio Novak Djokovic. O tenista parece agora se aproximar dessa mesma fronteira aos 39 anos, depois de conquistar 24 títulos de Grand Slam. Mesmo ainda perseguindo o 25º, número que o colocaria sozinho em um território estatístico jamais alcançado, ele parece realmente estar disputando duas grandes batalhas ao vivo e que todos nós podemos, até de forma angustiada, observar.
Seu adversário mais difícil já não está necessariamente do outro lado da rede, mas na distância crescente entre aquilo que sua mente ainda exige e aquilo que seu corpo consegue entregar.
A derrota para o argentino Mariano Navone na primeira rodada do US Open 2026 tornou esse conflito particularmente visível. Foram 4 horas e 36 minutos de partida, com vômitos, cãibras e limitações nas costas e nos ombros. Djokovic, que durante toda a carreira transformou sofrimento em combustível, afirmou depois do jogo que havia detestado praticamente cada momento em quadra. Questionado sobre a possibilidade de resolver seus problemas físicos, respondeu apenas que estava tentando. Foi sua primeira derrota na estreia de um Grand Slam desde 2006.
Como já dito aqui, nessa partida, praticamente tudo poderia ser medido: frequência cardíaca, perda de líquidos, nível de fadiga, velocidade dos golpes, distância percorrida, quantidade de mudanças de direção, tempo de reação, padrão biomecânico e redução progressiva da potência. Mas o que nenhum desses indicadores é capaz de explicar é por que alguém que já conquistou praticamente tudo ainda se submete a tamanho sofrimento.
Djokovic ainda não anunciou sua aposentadoria e talvez continue competindo por algum tempo. Aqui, porém, a questão é mais profunda: já não é somente quando parar, mas sim refletir sobre como alguém que construiu a própria grandeza recusando limites poderá aceitar que, em algum momento, deve reconhecer esse limite e que isso será um gesto de sabedoria e não necessariamente de rendição.
Essa é uma das contradições mais duras da alta performance. Durante toda a carreira, o atleta é treinado para não acreditar no cansaço, desafiar diagnósticos, superar dores e provar que os outros estão errados. Essa obstinação é exatamente o que o conduz ao topo, mas a qualidade que constrói uma trajetória extraordinária também pode tornar seu encerramento muito mais difícil, e essa é a parte que mais dói na chamada “segunda morte”.
Para parar, o atleta precisa aceitar justamente aquilo que passou a vida aprendendo a combater: a irreversibilidade do tempo. Do ponto de vista psicológico, quanto mais concentrada estiver a identidade na figura do atleta, maior tende a ser a dificuldade da transição. O fim pode significar a perda simultânea de rotina, propósito, convivência, reconhecimento, estrutura social e sensação de competência.
Estudos sobre aposentadoria esportiva identificam a mudança radical de identidade, a perda das redes de relacionamento e a ausência de uma nova direção profissional como alguns dos elementos centrais desse período. E realmente isso não se trata de simplesmente encontrar uma nova ocupação, mas sim de reconstruir a resposta para uma pergunta elementar: quem sou eu quando já não posso fazer aquilo que me tornou quem sou?
Há também uma espécie de abstinência emocional e são raras as atividades humanas que oferecem uma combinação tão intensa de risco, concentração, exposição pública, reconhecimento e recompensa imediata quanto o esporte de elite. Talvez dê para comparar apenas com a tentativa de ser empreendedor no Brasil, mais especificamente no esporte, navegando no oceano da maior carga tributária do planeta. Mas isso é papo para outra coluna.
O problema não é apenas sentir falta dos aplausos, da intensidade e do fato de se sentir vivo, mas olhar uma vida inteira dedicada para algo que durou apenas 20 ou 30 anos, talvez. Por isso, a aposentadoria não deveria começar a ser discutida somente quando os sensores indicam que o corpo está falhando. Preparar a cabeça para a mudança de ciclo de um atleta não significa antecipar sua decadência; na verdade, significa construir outras dimensões de identidade enquanto ele ainda compete.
Família, educação, negócios, causas sociais, amizades e novos interesses não são distrações da performance. São pontes que poderão ajudá-lo a atravessar o vazio quando o placar deixar de existir.
Talvez o verdadeiro avanço da ciência esportiva não esteja apenas em prolongar carreiras, mas em preparar seres humanos para o momento em que essas carreiras inevitavelmente terminarão, porque o corpo pode indicar quando já não consegue competir, mas é a mente que precisa compreender que podemos medir tudo, menos o impacto de parar.
Hoje, seguramente, Novak Djokovic precisa medir o preço psicológico de uma carreira extraordinária diante de um adversário que ninguém consegue vencer.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Reginaldo Diniz é cofundador e CEO do Grupo End to End
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