A transformação dos clubes brasileiros em Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) inaugurou uma era paradoxal no futebol nacional. Se, por um lado, trouxe profissionalização, injeção de capital e crescimento expressivo das receitas, por outro, introduziu um risco até então inimaginável para instituições centenárias: a possibilidade real de falência. Pela primeira vez na história, clubes com tradições seculares enfrentam a ameaça concreta de extinção por decisões empresariais equivocadas ou por interesses alheios à sua essência.
Neste cenário de modernização com alto risco, os torcedores emergem não apenas como “a alma do clube”, mas como o mecanismo de proteção mais robusto contra más gestões e decisões predatórias. Experiências internacionais consolidadas e crises recentes no Brasil demonstram que, sem a voz organizada da torcida integrada à governança, a transformação em SAF pode degenerar em um processo de descaracterização e colapso financeiro.
Mecanismos internacionais de inclusão do torcedor
O Brasil não precisa reinventar a roda, pois há modelos de sucesso global que apontam caminhos concretos e testados para integrar o torcedor à governança corporativa do futebol. Eis alguns exemplos:
1. Conselhos consultivos de torcedores (Fan Advisory Boards)
Criado pelo Seattle Sounders, da MLS, e aprimorado pela Premier League, este modelo estabelece fóruns formais com representantes eleitos democraticamente pela torcida. Esses conselhos mantêm um diálogo estruturado e periódico com a alta direção do clube, discutindo desde a visão estratégica de longo prazo até questões operacionais como planos comerciais e operações dos estádios em dias de jogos (matchday). Funcionam como um sistema de freios e contrapesos contra decisões tomadas à revelia da base de fãs.
2. Oficial de ligação com o torcedor (Supporter Liaison Officer (SLO))
A Uefa tornou obrigatória esta figura para clubes participantes de suas competições. O SLO atua como uma ponte profissional permanente entre a diretoria e os diversos setores da torcida. Mais do que um ouvidor, este profissional garante um fluxo contínuo e bidirecional de informações, prevenindo desencontros de comunicação que podem escalar para crises institucionais.
3. Associações de torcedores (Supporters’ Trusts)
Originadas na Inglaterra dos anos 1990, estas organizações independentes e juridicamente constituídas possuem um histórico comprovado de intervenções decisivas. Já expuseram acordos financeiros obscuros, bloquearam vendas prejudiciais e, em casos extremos, mobilizaram recursos para salvar clubes à beira da falência. São a principal força organizada para preservar a identidade, as tradições e a transparência nos processos decisórios.
4. Regulamentação externa e veto democrático
O projeto do governo britânico representa o estágio mais avançado desta evolução, criando um órgão regulador independente com poderes reais. Este regulador não apenas fiscaliza a saúde financeira das agremiações, mas pode exigir consultas democráticas obrigatórias à torcida antes de decisões críticas como aumentos abusivos de ingressos ou mudanças radicais na identidade do clube.
Conclusão: O torcedor como garantia de sustentabilidade
Podemos concluir que a profissionalização do futebol brasileiro via SAFs é um caminho sem volta, mas seus riscos são tangíveis e imediatos. Incluir formalmente o torcedor na governança corporativa não representa um gesto romântico ou simbólico, mas se trata de uma estratégia inteligente de gestão de risco e valorização do ativo mais importante de um clube: a sua torcida.
A voz organizada da torcida constitui a principal salvaguarda institucional contra as ameaças de proprietários despreparados ou mal-intencionados, decisões financeiras temerárias e de curto prazo, e a erosão gradual da identidade e da tradição clubísticas em nome de interesses comerciais.
Para evitar futuros colapsos, os clubes brasileiros, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o próprio Governo Federal precisam olhar para os exemplos internacionais consolidados.
A criação de associações de torcedores com poder real, a instituição de conselhos consultivos com assento em diretorias e a regulamentação federal do setor com a voz do torcedor no centro não são medidas opcionais ou secundárias. São, antes, condições fundamentais para que a transformação em SAF preserve a alma dos clubes brasileiros, protegendo-os simultaneamente dos vícios das gestões amadoras do passado e dos excessos corporativos desenfreados do futuro.
Quando verdadeiramente ouvido e integrado às estruturas decisórias, o torcedor transforma-se no maior agente de sustentabilidade, identidade e sucesso duradouro de uma Sociedade Anônima do Futebol.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Romulo Macedo é mestre em Gestão da Experiência do Consumidor e especialista em Gestão Esportiva, com papéis relevantes em diversos eventos esportivos mundiais
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