Poucas horas depois do encerramento do Vivo Rio Pro apresentado por Corona Cero, embarquei para os Estados Unidos com a sensação de dever cumprido após mais uma edição histórica do evento. Era hora, finalmente, de fazer algo raro: viajar sem compromissos profissionais. Pelo menos era essa a intenção.
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Na prática, quem trabalha há tantos anos com esporte dificilmente consegue desligar esse olhar. O torcedor viajava feliz para acompanhar mais uma Copa do Mundo. Mas o executivo, o professor e o organizador de eventos insistiam em observar tudo aquilo que normalmente passa despercebido.
Minha curiosidade era enorme. Queria entender como seria a receptividade do maior mercado esportivo do mundo ao evento de maior audiência do planeta.
A primeira parada foi Houston, sede do confronto entre Brasil e Japão, válido pela 2ª fase do Mundial. Confesso que imaginava desembarcar em uma cidade completamente tomada pela Copa. A primeira surpresa apareceu ainda no aeroporto. As referências ao torneio eram discretas, quase imperceptíveis para um olhar menos atento. Poucas placas sinalizavam que o maior evento esportivo do planeta acontecia ali.
No hotel, bandeiras de diferentes países decoravam a recepção, mas muitos funcionários pareciam pouco informados sobre a dimensão da competição. Já nos restaurantes e no principal shopping da cidade, um dia antes do jogo, o cenário era curioso: grupos de brasileiros uniformizados começavam a ocupar os espaços, mas o ambiente ainda parecia seguir sua rotina habitual.
Conheço bem os Estados Unidos. Já morei por lá, frequento diversas cidades há muitos anos e já acompanhei grandes eventos esportivos norte-americanos. Poucas experiências mobilizam tanto uma cidade quanto um Super Bowl ou uma decisão da NBA. Nesses momentos, aeroportos, hotéis, vitrines, bares e restaurantes parecem respirar o evento, e a cidade inteira participa da festa. Em Houston, a Copa parecia acontecer principalmente onde estavam seus torcedores.
Essa percepção se repetiu em outras conversas. Muitos brasileiros que escolheram Orlando como base para acompanhar os jogos relataram exatamente a mesma sensação. Como a cidade não sediava partidas, praticamente não havia referências ao torneio. Alguns chegaram a comentar que diversos moradores sequer sabiam quais seleções estavam jogando naquela semana. Era como se a Copa estivesse acontecendo em outro país.
Depois, segui para Nova York, talvez a cidade norte-americana que melhor conheço, e ali a expectativa era diferente. Eu já imaginava que seria praticamente impossível um verdadeiro “take over”. Isso porque Nova York simplesmente tem vida própria, é uma cidade que nunca dorme, onde negócios, cultura, turismo, gastronomia, Broadway, Wall Street e centenas de atrações disputam atenção diariamente. As pessoas caminham apressadas, seguem suas rotinas e dificilmente permitem que um único acontecimento monopolize sua agenda, com raras exceções.
Poucas semanas antes, a cidade havia sido completamente tomada pela conquista do New York Knicks na NBA, um título esperado havia décadas. E, na mesma semana da minha visita, preparava-se para celebrar o 4 de Julho, uma das datas mais importantes do calendário norte-americano. Nesse contexto, a Copa dividia espaço com acontecimentos profundamente enraizados na cultura local.
Também estive no American Dream, complexo de entretenimento localizado ao lado do MetLife Stadium (Nova York/Nova Jersey Stadium durante a Copa, por conta das regras da Fifa), palco do confronto entre Brasil e Noruega e da grande final da Copa. Ali, encontrei uma ativação elegante da Hisense, patrocinadora oficial do torneio, com grandes telões transmitindo os jogos. Nas tradicionais farmácias norte- americanas, destino quase obrigatório dos brasileiros em viagem, apenas uma pequena gôndola reunia produtos licenciados da competição. Mais uma vez, a Copa estava presente, mas de forma bastante discreta.
Operacional
Se, por um lado, o chamado “efeito país da Copa” pareceu mais contido do que em outras edições, por outro a execução operacional foi absolutamente impressionante. Como organizador de eventos, foi impossível não admirar o nível de excelência entregue dentro das arenas.
Os estádios são espetaculares. A entrada e a saída dos torcedores acontecem com uma fluidez impressionante. As filas são organizadas, a oferta de alimentos e bebidas é ampla, as concessões funcionam com enorme eficiência e até mesmo a compra de produtos oficiais ocorre de forma organizada. Tudo parece cuidadosamente desenhado para reduzir atritos e maximizar a experiência do público.
Mas talvez o aspecto que mais tenha me surpreendido tenha sido a maneira como os norte-americanos conseguiram incorporar sua enorme tradição em entretenimento ao produto Copa do Mundo.
Os sistemas de som e os gigantescos telões transformam a hora que antecede a partida em um verdadeiro espetáculo. Contagens regressivas cinematográficas, atrações musicais inspiradas na cultura local, vídeos produzidos especialmente para cada confronto e uma interação permanente com o público criam uma atmosfera de expectativa crescente. É uma forma muito norte-americana de produzir entretenimento e curiosamente funcionou muito bem.
Em nenhum momento tive a sensação de que o futebol havia sido descaracterizado. Pelo contrário: parecia uma combinação bastante equilibrada entre a tradição da Fifa e décadas de experiência dos Estados Unidos em transformar eventos esportivos em experiências memoráveis.
Conclusão
Como torcedor, deixei a Copa com a frustração natural de ver nossa seleção se despedir cedo da competição, mas como alguém que dedica a vida a estudar, organizar e ensinar sobre grandes eventos esportivos, voltei com um caderno cheio de anotações e uma convicção ainda mais forte.
Penso que ainda não foi dessa vez que os Estados Unidos transformaram a Copa em um acontecimento nacional, mas, em compensação, transformaram a experiência do torcedor em algo que talvez nunca tenha sido tão bem executado. Quando a maior competição do planeta encontra a maior indústria do esporte do mundo, ambos evoluem. A Fifa aprende novas formas de entreter, operar e gerar valor, e o país dá mais um passo importante para incorporar o futebol de maneira protagonista ao seu extraordinário ecossistema esportivo.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Ivan Martinho é presidente da World Surf League (WSL) na América Latina
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