Na semana passada, o Governo Federal anunciou uma restrição da atuação das casas de apostas no mercado brasileiro. O propósito aqui não é discutir nenhum posicionamento, a favor ou contra, mas sim apresentar um ponto adicional que, além de impactar as plataformas de mídia, indiretamente pode afetar ainda mais os clubes.
A presença das marcas de apostas ao redor do esporte não está limitada apenas ao patrocínio direto aos clubes. Este é um segmento que vem investindo pesado também em presença nas arenas e na mídia. Enquanto em outras categorias de patrocínio as marcas buscam exclusividade, no segmento de apostas é possível ver mais de quatro marcas presentes em diferentes arenas e pelo menos duas nos pacotes comerciais das plataformas de mídia. Ou seja, enquanto nos segmentos de banco, montadora e cerveja, por exemplo, encontra-se apenas uma marca associada ao evento ou à transmissão do evento, no segmento das bets isso parece não ser um problema, o que torna a presença delas mais frequente e até maciça em alguns casos.
Vamos lembrar que as plataformas de mídia, sejam elas canais lineares tradicionais ou streaming, montam os seus planos de negócio para comprar um determinado direito, baseadas na expectativa de receita que terão ao dividir o inventário comercial para aquele determinado produto em, por exemplo, cinco ou seis cotas diferentes. Além da quantidade de cotas, os departamentos comerciais avaliam quais segmentos poderiam ter interesse por aquele determinado produto e, baseados em experiências anteriores, estimar quanto cada segmento estaria disposto a pagar por aquele pacote comercial.
Acredito que todos concordem que desde a regulamentação da bets, ocorrida em 2023, todas as plataformas de mídia colocam no seu planejamento comercial de forma conservadora pelo menos uma cota para o segmento de apostas. Digo conservadora pelo fato de que, hoje, na grande maioria dos produtos, vemos mais de uma marca do segmento.
Então, podemos afirmar, sem medo de errar, que todas as plataformas de mídia que compraram qualquer direito para 2026 ou 2027 tinham no seu planejamento uma cota vendida para (pelo menos) uma marca de apostas. Agora, com a proibição, a conta não fecha mais.
Alguém pode até dizer que as plataformas de mídia podem buscar outros segmentos para compensar, mas sabemos que este não é um processo fácil e nenhuma outra categoria paga tão bem. E, pensando mais a longo prazo, quando estas mesmas plataformas tiverem que fazer propostas por direitos de transmissão de torneios locais, como Paulistão, Brasileirão, Libertadores ou Copa do Brasil, o impacto desta proibição será sentido na redução proporcional de cada uma delas.
E ainda vale lembrar que o dinheiro proveniente dos direitos de transmissão é o que é repassado aos clubes como prêmios (caso da Copa do Brasil e da Libertadores) ou diretamente como cota de direitos (Brasileirão). Ou seja, a redução do valor dos direitos leva à redução do valor recebido pelos clubes.
O mesmo racional se aplica na estratégia de patrocínio de uma determinada competição. A Copa do Brasil, hoje, tem a presença de pelo menos quatro marcas de apostas (Betano, Betnacional, Superbet e BETesporte) nas placas e tapetes de publicidade. A Libertadores tem apenas uma (Sportingbet), mas o orçamento destas competições está baseado nas cotas vendidas/disponíveis e é deste orçamento que sai a premiação para os clubes, ou seja, mais uma vez, menos dinheiro entrando, premiações menores, clubes recebendo menos.
Em resumo, o impacto da restrição às casas de apostas vai muito além dos patrocínios nas camisas. Trata-se de um efeito cascata que mexe com toda a engrenagem financeira do esporte no país, fazendo com que a conta do futebol brasileiro fique substancialmente mais difícil de fechar.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Evandro Figueira é vice-presidente da IMG na América Latina
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