O futebol evoluiu. Hoje, há uma indústria altamente estruturada dedicada à preparação dos atletas, com metodologias, tecnologia, equipes multidisciplinares e acompanhamento constante. No entanto, também há um vazio importante nesse processo: quem prepara os pais para exercerem seu papel essencial nesse ambiente cada vez mais complexo e na intrínseca responsabilidade de formação e desenvolvimento de seres humanos, crianças e adolescentes, que buscam atuar em alguma modalidade esportiva?
Já abordei por aqui diferentes dimensões da formação esportiva. Quando tratei dos portões fechados pela Federação Paulista de Futebol (FPF) em jogos de crianças de 11 anos por conta do mau comportamento dos pais nas arquibancadas, chamei a atenção para o fato de que os pais frequentemente têm colocado excessiva intensidade na jornada esportiva dos filhos. O episódio que ocasionou a punição evidenciou que a formação dos atletas é essencial, mas a dos pais também.
Em outro momento, ao falar da “rede invisível” que sustenta a performance esportiva, destaquei que nenhuma carreira se sustenta apenas com talento; ela depende de um ecossistema. E, ao discutir a relação entre esporte e escola, reforcei que a formação humana precisa caminhar junto à esportiva.
Em todas essas reflexões, há um elemento em comum: a presença e a responsabilidade dos pais. Eles não são coadjuvantes na formação do atleta; são parte estruturante do processo. Estão nas decisões do dia a dia, na gestão das expectativas, no suporte emocional e, muitas vezes, na relação com clubes, treinadores e o próprio mercado. E, quando mal posicionados, ainda que com boa intenção, podem se tornar um fator de risco para o desenvolvimento esportivo e humano.
O desafio é que, enquanto o futebol investe cada vez mais na preparação dos atletas, pouco se investe na preparação de quem está ao lado deles todos os dias.
Recentemente, tive a oportunidade de participar do podcast do canal “Pais de Atleta”, uma iniciativa que busca justamente apoiar e orientar famílias nesse processo. A experiência reforçou uma percepção importante: os pais querem acertar, mas, frequentemente, não têm referência, espaço de troca ou acesso a informações estruturadas para isso.
Talvez este seja, hoje, um dos pontos mais urgentes no processo de formação esportiva focada no rendimento. Se reconhecemos que o ambiente importa, que a rede de apoio sustenta a performance e que a educação é fundamental, então é inevitável olhar para os pais como agentes centrais desse sistema, e não como elementos periféricos e, algumas vezes, indesejados.
Formar atletas não é apenas desenvolver performance; é desenvolver pessoas. E, se quisermos de fato levar a sério a formação humana no esporte, precisaremos ampliar o olhar para além dos campos, pistas e quadras, incluindo, de forma mais intencional, quem está presente em todas as etapas dessa jornada: os pais.
Diante desse contexto, surgem iniciativas comprometidas como o canal “Pais de Atleta”, fundado por Laura De Michelli, César Augusto (que também é pai de atleta) e João Gabriel Stavro. Eles vêm desenvolvendo um trabalho importante, e, por isso, pedi que compartilhassem suas visões sobre o tema.
Ana Teresa Ratti (ATR): Qual é a missão do canal Pais de Atleta criado por vocês?
Pais de Atleta (PDA): O Pais de Atleta é um hub de informação dentro do esporte que tem como missão ajudar pais a exercerem melhor o seu papel dentro da jornada esportiva dos filhos. Ao longo dos últimos dois anos, a partir da construção do canal e de uma relação próxima com a comunidade, o Pais de Atleta tem escutado de forma ativa as principais dúvidas, inseguranças e desafios vividos por famílias de atletas de diferentes idades, modalidades e fases, seja no esporte recreativo, seja em trajetórias mais competitivas, até o alto rendimento.
Esse diagnóstico não é apenas percepção. Em pesquisas conduzidas com a comunidade, os principais relatos se concentram em dois eixos críticos: os desafios emocionais envolvidos no apoio aos filhos no dia a dia e a insegurança na tomada de decisões ao longo da jornada esportiva. A partir disso, o canal conecta esses pais a profissionais relevantes do mercado esportivo.
Hoje, existe um nível de profissionalização cada vez maior voltado para o atleta, mas ainda pouca estrutura voltada para a família. Isso gera um descompasso, porque os pais seguem sendo uma das maiores influências nesse processo, muitas vezes sem referências claras ou orientação suficiente. Nosso papel é justamente reduzir essa lacuna: organizar informações que hoje estão dispersas, conectar os pais a especialistas e ajudar a transformar essa participação em algo mais consciente, equilibrado e construtivo.
ATR: O que é a “Comunidade Pais de Atleta” criada por vocês?
PDA: A Comunidade Pais de Atleta nasceu de algo muito simples: a gente acredita que, para realmente ajudar os pais, é preciso estar perto deles. Não dá pra falar sobre a jornada de um atleta sem ouvir quem vive isso todos os dias.
Com o tempo, ficou claro que muitos pais querem participar mais, entender melhor o caminho dos filhos no esporte, trocar experiências, mas não encontram um espaço aberto, seguro e sem julgamento para isso. E foi aí que surgiu a comunidade.
Hoje, ela reúne pais de todo o Brasil, de diferentes modalidades, com filhos em fases completamente diferentes, desde quem está começando agora até famílias de atletas de alto rendimento, inclusive medalhistas olímpicos. Essa mistura é o que faz tudo ser mais rico: sempre tem alguém passando pelo que você está vivendo agora ou que já passou e pode ajudar.
E é também nesse espaço que o César deixa de ser só jornalista e aparece como ele é na prática: pai de atleta. Com dúvidas, desafios e aprendizados, igual a todo mundo. Isso muda a dinâmica, aproxima e cria um ambiente de confiança de verdade. No fim, não é sobre resposta pronta. É sobre troca.
ATR: Na visão de vocês, qual é, hoje, o maior despreparo (maior demanda) dos pais no processo de formação dos filhos atletas?
PDA: Mais do que falta de informação, o maior desafio está na ausência de direcionamento. Os pais buscam conteúdo e querem fazer o melhor pelos filhos, mas acabam consumindo informações fragmentadas, muitas vezes desconectadas da realidade que vivem. Isso gera insegurança e decisões pouco consistentes ao longo da jornada.
Na prática, isso aparece em dois pontos principais: na forma como se posicionam emocionalmente no dia a dia e na forma como tomam decisões mais estruturais, especialmente quando o esporte começa a se apresentar como uma possibilidade mais séria dentro da vida do filho.
Ou seja, o desafio não é apenas acessar informação, mas entender como transformar essa informação em atitude, presença e decisão ao longo do caminho.
ATR: Em que momento da jornada esportiva os pais mais precisam de orientação? E por quê?
PDA: O ponto mais crítico é a transição entre o esporte como atividade e o esporte como uma possibilidade mais competitiva ou até profissional. É quando a rotina começa a se intensificar, as expectativas aumentam e surgem decisões mais frequentes sobre treinos, competições, relação com treinadores, equilíbrio com a escola e projeções de futuro.
Nesse momento, o impacto dos pais cresce muito, mas sem necessariamente vir acompanhado de mais preparo. É aí que a orientação faz mais diferença, porque ajuda a evitar decisões impulsivas, reduz ruídos no processo e contribui para a construção de um caminho mais consistente.
Ao mesmo tempo, a necessidade de orientação não começa apenas nessa fase. Ela se torna mais evidente nesse ponto, mas o ambiente criado pela família desde o início influencia toda a relação da criança e do adolescente com o esporte.
César Augusto (CA), cofundador e pai de atleta: Gosto muito de uma frase, e ela cabe muito bem aqui: “desde sempre e para sempre”. No início, os pais ajudarão na construção da base, o que é superimportante. Viverão, ao lado do filho, a paixão pelo esporte. De maneiras diferentes, claro, mas precisam se apaixonar “em conjunto”.
Depois, os pais serão sempre o porto seguro. Mesmo quando o filho crescer e se profissionalizar, o abraço dos pais será a bateria do filho. Os pais terão sempre o superpoder de lembrar ao atleta quem ele é e por que está ali. O pai precisa se preparar para cada um desses momentos. Até porque, bem sabemos, não é um caminho só com flores.
ATR: Se vocês pudessem dar um único conselho para pais de atletas, qual seria?
PDA: Não tentem carregar essa jornada sozinhos. Na jornada esportiva, ninguém precisa saber tudo desde o começo nem conduzir tudo sozinho. O mais importante é estar disposto a aprender, ajustar, pedir ajuda e evoluir junto do filho. O que a gente mais vê são pais e mães que querem acertar. E isso, por si só, já é um ponto de partida muito valioso.
O desafio é que, muitas vezes, essa vontade de acertar vem acompanhada de dúvidas, pressão e responsabilidade, sem orientação suficiente. Por isso, nosso conselho seria: busquem repertório. Porque formar um atleta não é só desenvolver performance; é também construir ambiente, relação, equilíbrio e sustentação ao longo do caminho.
CA: Sou pai de atleta e, por isso, me sinto à vontade para falar. Não pense, em nenhum momento, que você sabe tudo. Não sabe. Aprenda sempre, estude. Você pode ser o principal apoiador do seu filho, mas também pode ser o maior obstáculo na busca pela realização do sonho dele.
ATR: As “dores” dos pais mudam conforme a fase da jornada?
PDA: Mudam bastante, e isso ficou cada vez mais claro conforme a comunidade cresceu. Na nossa base, a maior concentração de famílias tem atletas entre 10 e 18 anos, a fase em que o esporte deixa de ser só atividade e começa a pedir decisões mais estruturadas. Mas temos também famílias com crianças a partir de 6 anos e jovens adultos acima de 21.
Nas fases iniciais, a dor é mais emocional: como incentivar sem pressionar, como lidar com frustrações, como equilibrar com a escola. Quando o esporte se torna mais competitivo, as dúvidas se tornam mais práticas e estratégicas: gestão de carreira, contratos, relação com clubes, captação de recursos.
O que é consistente em todas as fases é a sensação de estar sozinho nesse processo. É isso que estamos trabalhando para mudar.
ATR: Essas “dores” variam de modalidade para modalidade?
PDA: Temos na comunidade famílias de mais de 20 modalidades, como futebol, vôlei, basquete, natação, judô, ginástica rítmica, artes marciais, ciclismo e tênis, entre muitas outras. E o que mais impressiona é o quanto as dores se parecem: o medo de não estar fazendo o suficiente, a dúvida sobre quando é hora de intensificar, a insegurança sobre contratos, o equilíbrio com a escola. Tudo isso aparece, independentemente do esporte.
Cada modalidade tem suas especificidades de mercado e de estrutura, claro. Mas as questões que envolvem o papel da família são muito mais parecidas do que diferentes. E isso reforça algo que percebemos desde o início: a lacuna não é de uma modalidade, mas do esporte como um todo.
ATR: O que vocês diriam para um clube ou federação que queira melhorar a relação com as famílias?
PDA: Que comece ouvindo. Antes de criar regras ou protocolos, entenda o que a família vive e sente. Muitos clubes lidam com os pais de forma reativa, estabelecem limites depois que o problema acontece. O caso dos portões fechados pela Federação Paulista é um exemplo clássico.
Mas o que vemos é que a maioria dos pais quer cooperar. Eles precisam de clareza sobre o papel deles, de espaço para tirar dúvidas e de referências. Quando isso existe, o nível de atrito cai muito.
Ricardo Bojanich, técnico internacional de basquete e diretor nacional de minibasquete da Confederação Argentina de Basquete, afirma no livro “Vamos Jogar Juntos? O papel da família no desenvolvimento esportivo de crianças e adolescentes”, publicado pela Universidade de São Paulo (USP), que a educação esportiva de uma criança é uma tarefa compartilhada entre família, clube e profissional. Não funciona se cada um atuar isoladamente. Se um clube ou federação quisesse dar um primeiro passo concreto, diríamos: tenha um canal estruturado.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Ana Teresa Ratti possui mais de 20 anos de experiência corporativa, é mestra em Administração, e trabalha atualmente com gestão esportiva, sendo cofundadora da Vesta Gestão Esportiva
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