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Ana Teresa Ratti, especial para a Máquina do Esporte

Ana Teresa Ratti

7 min de leitura

Análise

Reforma Tributária: O fator externo com impacto direto na carreira dos atletas

Mudanças legais e econômicas podem alterar a base financeira que sustenta a carreira, influenciar decisões contratuais e comprometer o planejamento de longo prazo se não forem devidamente consideradas

Ana Teresa Ratti, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

16/03/2026 06h15

Rodrigo Terra e Fabio Catta Preta são do escritório Petry Terra Advogados, especialista em planejamento fiscal e estruturação patrimonial - Divulgação

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  • A Reforma Tributária impacta diretamente a renda líquida dos atletas, alterando a tributação sobre contratos de imagem, patrocínio e a organização societária.
  • Atletas que não revisarem suas estruturas fiscais e patrimoniais correm riscos de aumento da carga tributária, problemas contratuais e fiscais durante uma carreira curta.
  • A reforma cria oportunidades para organização financeira eficiente, exigindo revisão técnica, simulação de cenários tributários e alinhamento estratégico para o longo prazo.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Falo constantemente sobre a necessidade de analisar cenários antes de definir objetivos e planos de ação no futebol. Essa lógica vale para qualquer profissão, mas, por atuar diretamente no planejamento de carreira de atletas, acabo trazendo essa perspectiva com frequência para esse contexto.

Uma ferramenta que considero especialmente útil é a matriz SWOT, utilizada para analisar forças e fraquezas internas, além de oportunidades e ameaças externas, permitindo um olhar simultâneo para dentro, identificando pontos fortes e fracos, e para fora, mapeando ameaças e oportunidades.

Não é raro que eu seja questionada sobre como fatores externos podem impactar a vida de um atleta. Ainda é comum encontrar a crença de que basta focar exclusivamente no desempenho dentro de campo e “o resto virá com o tempo”. O problema é que, no futebol, o tempo é curto.

Com sorte, um atleta tem cerca de 15 anos em alto rendimento. Isso significa que a janela para estruturar a vida financeira, profissional e pessoal (inclusive para o pós-carreira, que chega cedo) é curta.

Nesse contexto, a recente Reforma Tributária surge como um excelente exemplo de como um “fator externo” da matriz SWOT de um atleta pode impactar significativamente sua trajetória.

Mudanças legais e econômicas podem alterar a base financeira que sustenta a carreira, influenciar decisões contratuais e comprometer o planejamento de longo prazo se não forem devidamente consideradas. A Reforma Tributária se encaixa neste cenário.

Por isso ressalto sempre: conhecimento não é apenas informação, é poder de decisão. É o que permite conduzir a própria trajetória na direção escolhida, e não simplesmente reagir às circunstâncias.

Na prática, a Reforma Tributária ocorreu independentemente da vontade dos atletas. Trata-se de um elemento externo inevitável, mas cujos impactos podem ser mitigados e, eventualmente, até transformados em oportunidades, por meio de análise, planejamento e suporte especializado.

Esse ponto conecta-se a outra pauta que defendo com frequência: a rede de apoio do atleta precisa ser profissionalizada e alinhada aos seus objetivos de carreira. Só assim ela deixa de ser apenas suporte e passa a funcionar como uma verdadeira alavanca estratégica.

Dando um passo além no entendimento sobre os impactos desta reforma e simulando o racional recomendado para atletas que pensam sua jornada com visão estratégica e profissionalizada, conversei com os advogados tributaristas Rodrigo Terra e Fabio Catta Preta, do escritório Petry Terra Advogados, especialista em planejamento fiscal e estruturação patrimonial.

Com ampla experiência na assessoria a pessoas físicas e jurídicas, incluindo profissionais do esporte, Rodrigo (sócio-fundador do Petry Terra Advogados, advogado e contador, especialista em Direito Tributário e planejamento tributário internacional, foi convidado pelo Congresso Nacional para contribuir com as discussões sobre Reforma Tributária) e Fabio (sócio do Petry Terra Advogados, advogado especialista em tributação de pessoas físicas e jurídicas, também foi convidado pelo Congresso Nacional para contribuir com as discussões sobre Reforma Tributária) explicaram como as mudanças no sistema tributário podem afetar não apenas a renda imediata dos atletas, mas também decisões contratuais, organização patrimonial e o planejamento de longo prazo.

Ana Teresa Ratti (ATR): Quais são os principais impactos da Reforma Tributária na renda líquida dos atletas profissionais e na forma como seus contratos e estruturas de recebimento tendem a ser organizados a partir de agora?

Rodrigo Terra (RT) e Fabio Catta Preta (FCP): A Reforma Tributária tem dois eixos centrais. No consumo, diversos tributos atualmente existentes (como ISS, PIS e Cofins, por exemplo) serão substituídos pela CBS e pelo IBS, com alíquota combinada estimada entre 25% e 28%. Na renda, lucros e dividendos, antes isentos, passam a ser tributados, com alíquota que pode chegar a 10%.

Para o atleta, o impacto é direto. Grande parte da sua receita não está apenas no salário, mas em contratos de imagem, patrocínio e exploração de marca, muitas vezes estruturados por meio de pessoa jurídica. A tributação sobre prestação de serviços e comercialização de direitos que, hoje, em muitas estruturas, gira entre aproximadamente 6% e 9% da receita pode, em termos nominais, alcançar patamares próximos de 28% após a entrada em vigor da Reforma (isso comparando-se apenas os tributos que serão substituídos), o que representa um impacto potencialmente relevante na margem dessas operações.

Isso altera a lógica de organização contratual e societária. A divisão entre salário, imagem e lucros, o regime tributário escolhido e a estrutura patrimonial passam a influenciar de forma ainda mais decisiva a renda líquida.

ATR: Quais riscos um atleta corre ao não revisar sua estrutura fiscal e patrimonial diante dessas mudanças, especialmente considerando que a carreira esportiva é curta e concentrada em poucos anos de alta renda?

RT e FCP: O impacto final é sempre econômico, mas os riscos se manifestam por diferentes vias.

O primeiro é o aumento direto da carga tributária. Com a tributação de dividendos já instituída e a reformulação da tributação sobre consumo, estruturas antes eficientes podem se tornar mais onerosas, reduzindo a renda líquida.

O segundo é contratual. Muitos contratos foram firmados sob determinada lógica fiscal. Se a legislação muda e não há mecanismos de ajuste, o impacto recai integralmente sobre o atleta.

O terceiro é fiscal. A utilização de pessoa jurídica para exploração de direitos de imagem continua sendo um tema sensível para a Receita Federal, e estruturas pouco ajustadas podem gerar questionamentos e contingências relevantes.

Por fim, há o risco de planejamento inadequado. A forma de distribuir lucros, reinvestir resultados e organizar ativos precisa ser revisada para evitar perda de eficiência ao longo da carreira.

ATR: Além dos desafios, a Reforma Tributária pode gerar oportunidades para uma organização financeira mais eficiente da carreira e do patrimônio dos atletas? Que medidas preventivas ou estratégicas vocês consideram prioritárias neste momento?

RT e FCP: Sim. Mudanças estruturais no sistema tributário criam riscos para quem não se adapta, mas oportunidades para quem se antecipa (temos diversos exemplos ao longo da história para exemplificar esta afirmação).

A reforma exige uma revisão estratégica da organização financeira do atleta. Não apenas da estrutura societária, mas da forma como renda, investimentos e planejamento sucessório se conectam.

A nova tributação de dividendos e a mudança na lógica dos tributos sobre consumo reforçam a necessidade de integrar planejamento fiscal, estratégia de investimento e proteção patrimonial.

Neste momento, consideramos prioritárias três medidas: revisão técnica da estrutura vigente e dos contratos com os clubes e patrocinadores; simulação de cenários tributários conforme diferentes modelos de remuneração; e alinhamento entre estratégia fiscal e organização patrimonial de longo prazo.

A Reforma exige ajustes, mas também permite que a carreira seja estruturada com maior racionalidade, previsibilidade e profissionalismo.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Ana Teresa Ratti possui mais de 20 anos de experiência corporativa, é mestra em Administração, e trabalha atualmente com gestão esportiva, sendo cofundadora da Vesta Gestão Esportiva

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