O sarrafo, definitivamente, subiu. No futebol brasileiro, a gestão profissional deixou de ser diferencial competitivo e virou obrigação. E, talvez, essa seja uma das maiores transformações estruturais pelas quais o futebol brasileiro está passando neste momento.
Nesse contexto, desde 1º de janeiro de 2026, está em vigor o Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF) do futebol brasileiro, mais conhecido como Fair Play Financeiro. Inspirado em modelos regulatórios internacionais, mas construído a partir das peculiaridades do mercado brasileiro a partir de um Grupo de Trabalho (GT) composto pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), consultores especializados, clubes e federações, o sistema estabelece regras para solvência, equilíbrio operacional, controle de custos e endividamento dos clubes. Não se trata, portanto, de um transplante acrítico de modelos estrangeiros, mas de uma construção adaptada que leva em conta o histórico de informalidade, as dívidas acumuladas ao longo de décadas e uma cultura de gestão que, por muito tempo, tratou o desequilíbrio financeiro como o preço a ser pago pelo sucesso esportivo.
É nesse novo ambiente que surge a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf). A Anresf é o órgão responsável pelo monitoramento, fiscalização, julgamento e aplicação das normas do Sistema de Sustentabilidade Financeira. A agência possui autonomia técnica em relação à própria CBF e conta com membros voluntários e uma estrutura especializada para analisar justamente aquilo que, durante muito tempo, ficou restrito aos departamentos financeiros e aos conselhos dos clubes: a sustentabilidade econômica das operações.
Em termos concretos, a Anresf passa a acompanhar os clubes, ter conhecimento se eles estão pagando suas obrigações, se seus gastos são compatíveis com suas receitas, se o endividamento está sob controle e se existe equilíbrio entre aquilo que se pretende gastar e aquilo que efetivamente se consegue gerar.
Definitivamente, isso muda o jogo.
Mas a mudança vai além. Eis que o futebol brasileiro começa a reconhecer, de maneira mais objetiva, que não existe desempenho esportivo sem sustentabilidade financeira. Durante muito tempo, contratar acima da capacidade de pagamento foi tratado como ousadia, como aposta calculada, quase como uma virtude de dirigentes “arrojados”. O SSF retira esse verniz, uma vez que gastar mais do que se arrecada deixa de ser uma estratégia para se tornar um risco regulatório concreto, com consequências que vão muito além do próximo balanço. E isso vale também para a governança.
É justamente por esse motivo que o sistema exige uma série de informações, demonstrações financeiras auditadas, orçamentos e dados capazes de permitir o acompanhamento da situação econômica dos clubes. A intenção é reduzir a assimetria de informações e permitir que a realidade financeira da instituição seja efetivamente conhecida e fiscalizada.
Em outras palavras, a governança deixa de ser apenas uma boa prática recomendável e passa a ser parte da estrutura necessária para participar de um ambiente esportivo cada vez mais regulado.
Há, porém, outro efeito que merece destaque: o papel do SSF como instrumento de isonomia competitiva.
Durante anos, o futebol brasileiro conviveu com uma espécie de paradoxo. A responsabilidade financeira podia significar, no curto prazo, uma desvantagem esportiva. Quem gastava mais podia montar um elenco melhor. Quem atrasava pagamentos podia ganhar tempo. Quem acumulava dívidas podia continuar investindo (ou melhor, gastando de forma desordenada e irresponsável) no futebol. E, não raro, esses clubes acabavam colhendo resultados esportivos, enquanto o clube vizinho, mais disciplinado, via seus concorrentes disputarem títulos com um caixa que, no papel, não deveria existir.
Nessa toada, o novo sistema busca alterar justamente essa lógica. A mensagem é simples e direta: não é razoável obter vantagem esportiva por meio de uma gestão financeiramente irresponsável. Por isso, as regras não devem ser vistas apenas como mecanismos de punição. Elas podem, e devem, funcionar como instrumentos de equilíbrio do próprio campeonato, corrigindo, ainda que paulatinamente, uma distorção que sempre favoreceu quem menos respeitava as próprias contas.
Na prática, essa transformação já começou. A agência iniciou efetivamente seu trabalho em 2026 e os primeiros procedimentos já demonstram que o sistema deixou de ser uma promessa para se tornar parte da realidade regulatória dos clubes.
As situações narradas na imprensa são diferentes entre si e devem ser analisadas individualmente, mas o conjunto dos casos revela que o descumprimento das regras de sustentabilidade financeira passou a produzir consequências concretas.
As sanções previstas são proporcionais à gravidade das infrações e podem incluir advertências, multas, retenção de receitas, restrições em registros de atletas, perda de pontos, rebaixamento e até consequências relacionadas à própria licença esportiva. Entretanto, para o torcedor, essas consequências não são abstrações jurídicas distantes da arquibancada, pois impactam diretamente a capacidade do seu clube de competir de forma perene e sustentável e, em última instância, de vencer.
É natural que o novo sistema também desperte questionamentos e que alguns enxerguem nele um risco de excesso regulatório. O ponto, porém, é outro. O custo de não regular sempre foi maior do que o custo de regular. São décadas de dívidas acumuladas, muitas vezes sem consequências efetivas, e o resultado dessa inércia pode ser observado nos mais de 20 clubes das Séries A e B do Brasileirão com débitos atualmente reconhecidos pela própria agência.
Hoje, não há mais espaço para se dissociar a gestão do resultado esportivo. Como está no título da coluna, o sarrafo subiu. A sustentabilidade financeira deixou de ser uma preocupação paralela à atividade esportiva e passou a ser uma de suas condições de existência.
A gestão do futebol está mudando. Ainda bem.
PS: Esta coluna foi escrita em parceria com Gustavo Delbin.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Mariana Chamelette é advogada, formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, especialista em Direito Desportivo e em Governança e Compliance no Futebol. Atualmente, ocupa os cargos de vice-presidente do Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) do Futebol de São Paulo, conselheira do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo (IBDD) e secretária-geral da Comissão Especial do Direito dos Jogos, Apostas e do Jogo Responsável da OAB/SP
Gustavo Delbin é advogado, presidente da Comissão de Direito Desportivo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em São Paulo e vice-presidente de Registro, Transferência, Filiação e Licenciamento da Federação Paulista de Futebol (FPF), além de presidente do Comitê de Governança Ambiental, Social e Corporativa (ESG) da entidade. Mestre em Direito Desportivo e Mestrando em Economia e Gestão Esportiva, também é ex-presidente e conselheiro do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo (IBDD)
Conheça nossos colunistas