A Federação Internacional de Futebol (FIFA) anunciou o encerramento de uma parceria histórica de mais de 60 anos com a editora italiana Panini, responsável pela produção dos álbuns oficiais de figurinhas da Copa do Mundo desde a edição de 1970, no México. A entidade máxima do futebol mundial firmou um novo contrato multimilionário com a Fanatics, empresa norte-americana focada em licenciamento esportivo e comércio eletrônico. A mudança redefine o futuro dos colecionáveis e sinaliza uma transição para modelos de negócio que integram produtos físicos a experiências digitais e inovações tecnológicas.
O movimento ocorre em um cenário de transformação no engajamento dos torcedores, onde o consumo passivo é substituído pela busca de recompensas imediatas. Esse comportamento é frequentemente observado no crescimento das plataformas de apostas durante a Copa do Mundo, que utilizam mecanismos psicológicos parecidos com os dos álbuns de figurinhas para manter o interesse do público. A entrada da Fanatics no mercado de colecionáveis deve acelerar essa convergência, buscando atrair as novas gerações por meio de formatos que misturam a diversão com a competição.
Historicamente, a Panini construiu um império baseado na organização emocional do esporte. Como descrito em documentos sobre a trajetória da marca, o álbum permitiu que os torcedores “tocassem o torneio antes mesmo de compreendê-lo”. A filosofia do “Tenho. Preciso. Troco” estabeleceu um sistema de troca social e satisfação imediata que, em muitos aspectos, espelha o mercado de entretenimento em que a Stake Brasil se posiciona. A transição comercial para a Fanatics inclui, além do aspecto financeiro, uma proposta social que prevê a distribuição de mais de 150 milhões de dólares (aproximadamente R$ 793 milhões) em colecionáveis gratuitos para crianças ao redor do globo.
Apesar da mudança na titularidade dos direitos a partir de 2030, a Panini ainda é a responsável pelas edições de 2026 e 2030. O álbum Copa do Mundo de 2026, lançado recentemente em São Paulo, é considerado o maior da história, refletindo o aumento do número de seleções participantes, que saltou de 32 para 48. Ao todo, a coleção conta com 980 cromos (termo técnico para figurinhas), sendo 68 especiais. O custo para completar o álbum na versão mais básica é estimado em pouco mais de R$ 1.000,00, considerando o valor de R$ 7,00 por cada envelope com sete figurinhas.
Mas a atração exercida pelas figurinhas não é meramente nostálgica, e sim baseada em processos neurobiológicos complexos. Estudos realizados pelo Dr. Francisco Zamorano e sua equipe, publicados na revista Radiology, indicam que a visualização de triunfos do time do coração ativa circuitos de recompensa no cérebro, enquanto as perdas suprimem áreas ligadas ao controle cognitivo. Segundo Zamorano, “o sistema de recompensa é ativado por explosões de dopamina quando o indivíduo obtém o que deseja”, o que explica a euforia ao encontrar uma figurinha rara no álbum Copa do Mundo.
O circuito de recompensa e a dopamina
O cérebro humano processa a abertura de um pacote de figurinhas de maneira muito parecida à conferência do resultado de uma aposta esportiva. Ambos os comportamentos dependem do sistema de dopamina mesolímbico, que é acionado pela incerteza e pela expectativa de um prêmio. Quando o colecionador rasga o envelope e encontra um cromo de destaque, ocorre uma liberação de dopamina no núcleo accumbens, proporcionando uma sensação imediata de prazer.
Essa ativação cerebral é idêntica à encontrada em usuários de simuladores que utilizam hardware de alta performance e software baseado em física real. De acordo com Jim Leo, especialista em treinamento de performance, o uso de simuladores demanda tomadas de decisão rápidas e processamento visual intenso, o que estimula a neuroplasticidade, capacidade do cérebro de se reorganizar e formar novas conexões neurais. A adaptação a erros em um ambiente simulado é um indicador chave de como o cérebro processa recompensas e punições em milissegundos.
O Dr. Ranko Rajović, membro do comitê da MENSA para crianças superdotadas, afirma que a atividade de colecionar figurinhas é benéfica para o desenvolvimento intelectual infantil por estimular a seriação (habilidade de classificar objetos em uma ordem lógica, como números ou categorias) e a classificação mental. No entanto, o mecanismo que gera aprendizado em crianças é o mesmo que, em adultos, pode levar a comportamentos compulsivos. A busca pelo cromo que falta ativa o córtex pré-frontal, mas a descarga de prazer ao encontrá-lo é controlada por áreas mais primitivas do cérebro, ligadas à sobrevivência e ao instinto.
Paralelos entre a prática de colecionar e os jogos de azar
A ciência indica que a presença de estímulos sensoriais pode promover escolhas mais arriscadas. Uma pesquisa publicada no Journal of Neuroscience demonstrou que sinais audiovisuais (luzes e sons) executados junto à vitória aumentam a propensão humana ao risco. No contexto das figurinhas, o design brilhante dos cromos especiais e o som do papel sendo rasgado funcionam como esses gatilhos sensoriais.
Mariya Cherkasova, uma das autoras do estudo, observou que tais estímulos afetam a dinâmica das pupilas e o estado de alerta global do indivíduo. Em plataformas digitais, isso é ampliado pelo uso de dark patterns, as táticas de design de interface criadas para manipular o comportamento do usuário e induzi-lo a ações que ele não pretendia tomar. Notificações personalizadas, disponibilidade 24 horas e a facilidade de compra de “pacotinhos virtuais” criam um ambiente de fricção reduzida que mantém o cérebro em um estado constante de busca por gratificação.
A transição da Fifa para a Fanatics sugere um foco maior nessas experiências digitais. Enquanto a Panini se baseava no colecionismo físico, a Fanatics possui know-how em integrar tecnologias como NFTs (tokens não-fiscais que comprovam a propriedade de um item digital único) e gamificação ao mercado esportivo. Essa mudança pode transformar o álbum Copa do Mundo em uma plataforma de engajamento contínuo, onde a linha entre colecionar, jogar e apostar se torna cada vez mais tênue.
Benefícios cognitivos e saúde mental
Apesar dos riscos de comportamento compulsivo, o engajamento com o esporte através de figurinhas ou simuladores oferece benefícios para a saúde quando praticado de forma equilibrada. Jocelyn Solis-Moreira, em artigo para a Popular Science, destaca que torcer por uma equipe melhora o senso de comunidade e pode atuar como um catalisador para a atividade física. Psicólogos apontam que ver atletas em alta performance motiva crianças e adultos a se exercitarem, emulando seus ídolos.
No caso dos simuladores, os benefícios são ainda mais diretos. A prática exige coordenação motora fina, memória de trabalho e pensamento estratégico. Jim Leo ressalta que “correr contra competidores humanos reais é revelador”, pois força o cérebro a lidar com a pressão e a gerenciar o estresse, habilidades que são transferíveis para a vida profissional e acadêmica. A neuroplasticidade envolvida na correção de uma manobra em um simulador é similar ao aprendizado de um instrumento musical: o erro é o combustível para a criação de novas rotas neurais.
O estudo de Zamorano reforça que essas experiências moldam os circuitos cerebrais desde cedo. “As sociedades que negligenciam o desenvolvimento precoce não evitam o fanatismo; elas herdam seus danos”, afirma o pesquisador. Ele explica que a qualidade do cuidado e o aprendizado social na infância determinam como o equilíbrio entre valorização e controle será exercido na vida adulta. Proteger a infância e promover o colecionismo de forma educativa, como as trocas de figurinhas em escolas, ajuda a treinar o cérebro para lidar com a frustração e a recompensa de maneira saudável.
Além da atividade cerebral, o corpo experimenta o que o psicólogo Eric Zillmer define como eustress (um tipo de estresse positivo que gera entusiasmo e foco, em oposição ao distress ou estresse nocivo). Durante momentos de tensão, como uma cobrança de pênalti, os níveis de adrenalina e cortisol oscilam, preparando o organismo para uma resposta de “luta ou fuga”. No entanto, a resolução bem-sucedida dessa tensão promove um alívio terapêutico. “Sabemos, por estudos sobre mindfulness (atenção plena) e ioga, que viver a vida no presente é muito terapêutico para a saúde”, afirma Zillmer. O esporte, ao demandar atenção total ao “aqui e agora”, funciona como um catalisador de bem-estar psicológico.
A saúde física também é influenciada pelo fenômeno da identificação coletiva. Psicólogos apontam que o senso de pertencimento a uma comunidade de torcedores atua como um amortecedor contra a alienação e a solidão. Dados indicam que o apoio social derivado de grupos esportivos reduz a incidência de depressão e ansiedade. Adicionalmente, a visualização de atletas em alta performance estimula o que a pesquisadora Jocelyn Solis-Moreira identifica como motivação para o exercício. O engajamento com ídolos como Lionel Messi ou Kylian Mbappé incentiva crianças e adultos a emularem movimentos físicos, transformando o consumo passivo em estímulo para a prática esportiva real.
Contudo, a ciência alerta para os riscos do fanatismo extremo. O Dr. Zamorano ressalta que os circuitos neurais que regem a paixão pelo futebol são os mesmos envolvidos em divisões políticas. A pesquisa sugere que a qualidade do aprendizado social e do cuidado na infância molda o equilíbrio entre valorização e controle no cérebro adulto. Como já observado, Zamorano adverte que sociedades que ignoram o desenvolvimento infantil precoce acabam herdando os danos do fanatismo que poderiam ter prevenido. Portanto, a torcida saudável depende de um córtex pré-frontal capaz de mediar as explosões dopaminérgicas do sistema de recompensa. Em última análise, o impacto do esporte no organismo é multifacetado: fortalece laços sociais, melhora a saúde mental por meio da redução da solidão e treina o cérebro para lidar com a alternância entre estresse e gratificação. Quando praticado de forma equilibrada, o ato de torcer não é apenas um passatempo, mas uma atividade de regulação emocional e estímulo à neuroplasticidade.
O futuro dos colecionáveis
O álbum da Copa do Mundo de 2026, com suas 112 páginas e versões que variam entre R$ 24,90 e R$ 79,90, é o ápice de um modelo de negócios que a Panini refinou por décadas. No entanto, o mercado já observa a transição para 2031, quando a Fanatics assumirá a exclusividade global sobre cartões colecionáveis, adesivos e jogos de cartas da FIFA. A mudança não é apenas uma troca de fornecedor, mas a implementação de um ecossistema integrado que visa unificar o ato de comprar, apostar e colecionar em uma única experiência imersiva para mais de 100 milhões de fãs.
A proposta da Fanatics, que utilizará a marca Topps para o desenvolvimento dos produtos, traz inovações que pretendem estreitar ainda mais a relação física entre o fã e o espetáculo. Uma das principais novidades é a introdução do programa de “patches” de camisas de jogadores, pequenos fragmentos de uniformes reais usados em partidas oficiais que serão inseridos dentro dos cartões colecionáveis. Inédita no âmbito das seleções nacionais, a iniciativa adiciona uma camada de escassez e autenticidade que promete valorizar o mercado de colecionadores, tornando cada item uma peça única da história do futebol mundial.
A ponte para esse novo modelo começará a ser construída já no torneio de 2026. Embora a Panini mantenha a produção do álbum para as próximas duas edições, a Fanatics já terá uma presença operacional marcante. O evento “Fanatics Fest NYC”, agendado para julho de 2026, servirá de palco para as conferências de imprensa oficiais pré-jogo da grande Final da Copa do Mundo. Essa estratégia visa integrar conteúdos exclusivos e experiências de varejo personalizadas, permitindo que o torcedor interaja com a marca em múltiplas plataformas, desde os estádios até os festivais de torcedores (Fan Festivals).
Além do viés tecnológico e comercial, o acordo firmado possui um pilar de responsabilidade social ambicioso. A Fanatics comprometeu-se a distribuir mais de 150 milhões de dólares (cerca de R$ 793 milhões) em itens colecionáveis gratuitos para jovens em todas as regiões do mundo ao longo da parceria. O objetivo é fomentar o futebol juvenil globalmente e garantir que o encantamento de colecionar permaneça acessível às novas gerações, independentemente de sua condição socioeconômica.
Dessa forma, a transição sinaliza que o futuro dos colecionáveis não abandonará o aspecto tátil que definiu a paixão pelo futebol desde 1970, mas o expandirá. Através de um modelo “one-stop shop”, a FIFA e a Fanatics planejam oferecer um destino único onde o fã poderá comprar equipamentos, colecionar itens físicos e digitais e conectar-se com os momentos mais marcantes do esporte, mantendo viva a chama da dopamina e do prazer social que as figurinhas sempre proporcionaram.
