Os primeiros registros da produção da camisa da seleção da Espanha por uma empresa especializada remonta ao ano de 1935, quando Blas Pardo, ex-goleiro do Atlético de Madrid, fundou a loja de artigos esportivos Deportes Condor e aproveitou suas conexões no meio do futebol para firmar uma parceria com a Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF).
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Com isso, de 1935 até meados de 1981, os uniformes da “La Roja” foram fabricados quase exclusivamente pela Deportes Condor. Em uma época amadora e pouco comercial do futebol, a loja, que existe até hoje e fica na cidade de Madri, seguia o padrão da época e não estampava o logotipo nas camisas da seleção espanhola.

No entanto, quando a Adidas assumiu pela primeira vez o fornecimento de material esportivo da equipe, em 1982, isso mudou, e a empresa alemã inseriu o tradicional símbolo “Trefoil” nos uniformes da seleção para o Mundial do mesmo ano, disputado na própria Espanha.

Já em 1984, a francesa Le Coq Sportif assumiu o lugar da Adidas e passou a produzir os uniformes da Espanha, em um acordo que envolveu as Copas do Mundo de 1986 e 1990. A partir de 1991, porém, a marca das três listras voltou a ser parceira da RFEF e segue até hoje como fornecedora de material esportivo da seleção espanhola, que ainda se tornou um dos principais ativos estratégicos da empresa alemã no futebol nas últimas décadas.

Apesar disso, a relação entre RFEF e Adidas quase foi rompida em 2019, quando a entidade máxima do futebol espanhol, sob a presidência de Luis Rubiales, anunciou que revogaria unilateralmente o contrato com a marca.
Para o lugar da empresa alemã, a RFEF procurou a gigante do fast-fashion Inditex, dona da Zara, para ser a sua nova fornecedora de material esportivo. A empresa, no entanto, recusou a oferta alegando falta de expertise técnica para estruturar linhas de performance esportiva.
A Adidas, sustentada pelas garantias legais do contrato vigente com a RFEF até 2026, reagiu com a ameaça de entrar na Justiça e exigir multas estimadas entre € 70 milhões e € 200 milhões em caso de quebra unilateral do contrato por parte da entidade. Diante desse risco financeiro, a Federação Espanhola recuou e, no fim de 2019, assinou a renovação da parceria com a marca alemã até dezembro de 2030.
Impacto do título de 2010
O principal momento de retorno comercial do uniforme da Espanha para a Adidas aconteceu entre 2008 e 2012, período mais vitorioso da história da “La Roja” em campo. Neste intervalo de quatro anos, a seleção espanhola conquistou as Euros de 2008 e 2012, assim como a Copa do Mundo de 2010, disputada na África do Sul.

O título inédito do Mundial ainda foi o principal responsável por elevar o nível global de consumo dos uniformes da seleção ibérica. De acordo com uma publicação da agência de notícias EFE, de julho de 2010, a Adidas tinha vendido mais de 500 mil camisas da “La Roja” antes mesmo das semifinais do Mundial. Esse número ainda correspondia a quase o dobro do volume de uniformes da Espanha comercializados pela marca alemã em 2008, quando os espanhóis conquistaram a Euro.
Esse volume exigiu uma operação logística complexa da Adidas para preparar e distribuir rapidamente lotes adicionais das camisas da Espanha após o Mundial, já que muitos torcedores queriam a versão com a estrela de campeã acima do escudo espanhol.
Design
Sucesso em 1994
Esteticamente, o design das camisas da Espanha tem sido historicamente uma vitrine do país para o mundo, gerando tanto sucessos comerciais quanto crises institucionais. O modelo geométrico criado pela Adidas para os espanhóis jogarem a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, marcou época pela disrupção visual e se tornou um dos itens mais procurados no mercado de colecionadores.

Polêmica em 2018
Por outro lado, houve uma associação política ao design do uniforme titular da Espanha para a Copa do Mundo de 2018 que gerou problemas. Isso porque o grafismo lateral da camisa, formado por diamantes sobrepostos em amarelo, vermelho e azul, criava nas lentes das transmissões televisivas a ilusão de ótica da cor roxa.
Essa mistura replicou as cores da bandeira da Segunda República Espanhola, um dos símbolos proibidos durante a ditadura de Francisco Franco no país. O fato gerou uma ebulição política imediata, impulsionada ainda pela crise constitucional ligada ao separatismo da Catalunha na época, o que fez a Adidas emitir comunicados oficiais para desmentir qualquer intencionalidade ideológica ou associação ao movimento republicano na concepção do produto.

Cultura do streetwear
Nos últimos anos, a estratégia das marcas esportivas, o que envolve a parceria da RFEF com a Adidas, buscou ir além do universo do futebol e reposicionar os uniformes como itens da cultura streetwear. Aproveitando-se do movimento conhecido como “Blockcore”, que emergiu a partir das redes sociais e se tornou tendência ao mesclar o uso de camisas de futebol retrô combinadas com alfaiataria, jeans e tênis casuais, a indústria começou um processo de vender a nostalgia das Copas do Mundo.
Essa operação ficou evidente com o lançamento de linhas retrô de camisas históricas de clubes e seleções parceiras da Adidas. Uniformes espanhóis dos anos 1990, como as camisas da Copa de 1994 e da Euro de 1996, foram relançados. As novas peças trazem uma modelagem mais larga, tendência no universo da moda urbana, e características voltadas para o uso estético e não necessariamente para a prática esportiva.
Nesse sentido, o uniforme reserva da Espanha para a Copa do Mundo de 2026 também busca se conectar com a cultura do streetwear. Carregando o “Trefoil” da linha Adidas Originals e uma estética dos anos 1990, o modelo conta com uma estampa inspirada na história literária do país, com detalhes que representam grafismos encontrados em manuscritos clássicos e uma cor base mais clara que busca simular a página de um livro. Por outro lado, a marca manteve a tradição do uniforme vermelho, amarelo e azul na linha titular da “La Roja” para o Mundial deste ano.
