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Avanço da guerra no Oriente Médio ameaça colapsar investimentos no esporte global

Conflito EUA/Israel x Irã afetou produção de petróleo na região e resultou em bombardeios em países como Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes

Gianni Infantino, presidente da Fifa (à dir.): proximidade cada vez maior com Arábia Saudita - Divulgação/Fifa

Gianni Infantino, presidente da Fifa (à dir.), está cada vez mais próximo da Arábia Saudita - Divulgação / Fifa

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  • Conflito no Oriente Médio eleva preços globais do petróleo e impacta economias dependentes dos petrodólares.
  • Países árabes diversificam economias investindo pesado em esportes, com destaque para Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes.
  • Guerra ameaça turismo e infraestrutura petrolífera, principal base financeira dos investimentos árabes no esporte.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

O avanço do conflito Estados Unidos/Israel x Irã, no Oriente Médio, acendeu o alerta para uma possível guerra generalizada, envolvendo grandes potências globais.

Por enquanto, ainda não é possível antever como será o desenrolar dessa disputa bélica, nem quanto tempo ela irá durar. Mas os impactos econômicos já se fazem sentir em todo o mundo, especialmente com a disparada dos preços dos combustíveis em países como os Estados Unidos.

A resposta iraniana ao assassinato de seu líder supremo, o aiatolá Ali Khamanei, pelo ataque de mísseis desferido pelos israelenses e norte-americanos, resultou no fechamento do estreito de Ormuz, rota marítima estratégica por onde circula de 20% a 30% de todo o petróleo consumido no planeta.

Diversos países da região, que atualmente são aliados dos Estados Unidos, têm sofrido bombardeiros atribuídos ao Irã.

Entre eles, Emirados Árabes Unidos, Catar e Arábia Saudita, nações (especialmente a última) que têm sido as grandes propulsoras do esporte global, na última década.

Investimentos crescentes

Os investimentos dos países árabes no esporte, especialmente no futebol, são antigos, mas inicialmente seguiam uma lógica distinta da atual.

Nas décadas de 1980 e 1990, os reinos da região utilizavam as imensas fortunas obtidas com a venda de petróleo para atrair grandes nomes do futebol mundial, só que em fim de carreira, buscando atrair holofotes e prestígio para as competições locais.

Foi assim, por exemplo, que o ex-ponta-esquerda santista Pepe tornou-se treinador do Al-Sadd, do Catar, e o meia Roberto Rivellino foi jogar no Al-Hilal, da Arábia Saudita.

No caso dos jogadores brasileiros renomados, atuar nos países árabes representava uma opção apenas para quem já estava prestes a pendurar as chuteiras e sem grandes perspectivas de firmar um bom contrato na Europa ou mesmo por aqui. Foi o caminho trilhado por nomes como Bebeto, Paulo Nunes, Denilson e Marcelinho Carioca, no início deste século.

Todos acabaram se afastando momentaneamente do estrelato, em troca das salários elevados (para os padrões da época) oferecidos pelos times sauditas. A partir da última década, porém, tudo mudou, sobretudo depois que Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes passaram a diversificar e ampliar de forma expressiva os investimentos na área.

Petrodólares

Desde o advento dos motores a combustão interna, a partir da 2ª Revolução Industrial, o petróleo passou a ocupar o centro da economia global.

Mais do que as máquinas propriamente ditas, essa matéria-prima tornou-se a responsável por fazer as engrenagens do planeta funcionarem.

No caso do Oriente Médio, estar localizado acima de uma das maiores reservas de petróleo conhecidas do mundo representou, ao mesmo tempo, uma bênção e uma maldição.

Por um lado, isso permitiu aos países da região acumularem imensas fortunas. Por outro lado, essa área do globo é constantemente abalada por conflitos bélicos fomentados pelos interesses das grandes potências, sem contar que a riqueza gerada pelo petróleo costuma se concentrar nas mãos de poucas dinastias, que comandam de maneira ditatorial a política local.

O petróleo é valioso, move montanhas, mas tem o inconveniente incontornável de ser finito. Em décadas recentes, a forte expansão econômica de países como Índia e sobretudo China fez com que os grandes produtores de dessa matéria-prima faturassem somas impensáveis, ao mesmo tempo em que a situação pressionou como nunca a capacidade das reservas hoje existentes.

Em tempos de forte preocupação com as mudanças climáticas ocasionadas por um modelo econômico baseado no uso indiscriminado dos combustíveis fósseis, a dependência do petróleo começou a ser encarada como uma condição nada vantajosa para as nações árabes.

Foi assim que, a partir da primeira década deste século, países do Oriente Médio passaram a elaborar programas voltados à diversificação de suas economias, a partir do uso dos petrodólares. O esporte acabou por ganhar um papel central nessas iniciativas.

Aquisições

Os fundos soberanos e as estatais petrolíferas ganharam protagonismo na nova engenharia econômica desenvolvida pelas nações árabes.

Se antes os investimentos eram focados de maneira específica nas ligas locais, a partir das duas últimas décadas eles se voltaram para oportunidades existentes em mercados já consolidados.

Entre os movimentos mais célebres feitos pelo capital árabe turbinado pelos petrodólares estão a compra Manchester City, em 2008, pelo Abu Dhabi United Group (que criaria mais tarde o City Football Group), e do PSG, em 2011, pelo fundo de investimentos Qatar Sports Investment (QSI).

As duas equipes acabaram se tornando grandes potências do futebol europeu. Hoje, o City Football Group conta com clubes em diferentes países, inclusive o Bahia, no Brasil.

O Catar, por sua vez, conquistou o direito de sediar a Copa do Mundo de 2022, situação que serviu para deixar o país em evidência em todo o planeta, fortalecendo a estratégia de fomentar o turismo local, reduzindo assim o peso da exportação do petróleo na economia nacional.

Arábia Saudita

Maior país da região e um dos principais exportadores de petróleo do mundo, a Arábia Saudita elevou à enésima potência o projeto de diversificação econômica.

Não é exagero afirmar que, sem o dinheiro saudita, os investimentos em esporte jamais teriam atingido os níveis atuais.

Ao mesmo tempo em que injetou recursos volumosos em sua liga nacional de futebol, a Saudi Pro League, atraindo craques que ainda estavam no auge como Benzema, Cristiano Ronaldo e Neymar, o reino do Oriente Médio passou a patrocinar uma série de competições em todo o mundo.

A participação saudita foi essencial, por exemplo, para a realização da Copa do Mundo de Clubes de 2025, nos Estados Unidos. A competição tornou-se atrativa graças à premiação de US$ 1 bilhão distribuída pela Federação Internacional de Futebol (Fifa) aos times participantes.

Esse dinheiro chegou à entidade numa espécie de triangulação, que envolveu a venda de 10% do DAZN ao Fundo Público de Investimento (PIF), da Arábia Saudita, em 2025, por US$ 1 bilhão. No ano anterior, a plataforma de streaming esportivo havia registrado prejuízo de US$ 924 milhões.

Com esse recurso em caixa, o DANZ comprou por US$ 1 bilhão a exclusividade dos direitos globais de transmissão da Copa do Mundo de Clubes de 2025, que depois foram negociados com plataformas locais e regionais.

As relações do governo saudita com a Fifa andam tão estreitas que o país foi escolhido como sede da Copa do Mundo de 2034.

Esse e outros eventos são vistos pelo país como uma forma de atrair turistas e ajudar a diversificar a economia local.

Por esse motivo, a Arábia Saudita possui acordos com outras organizações esportivas como Fórmula 1, por meio da estatal petrolífera Aramco, WTA e ATP, que já realizaram torneios de tênis no país, além de boxe e até mesmo e-Sports.

No ano passado, o PIF comprou, em parceria com a Silver Lake, a Eletronic Arts (EA), uma das maiores desenvolvedoras de jogos do mundo, em um negócio avaliado em US$ 55 bilhões.

A Arábia Saudita ainda possui sua própria liga de golfe, a LIV Golf, e é dona de times na Europa como o Newcastle, da Inglaterra, e o Almería, da Espanha, que, na semana passada, ganhou como sócio Cristiano Ronaldo, grande estrela da Saudi Pro League.

Conflito bélico

O conflito bélico que se desenrola no Oriente Médio abala um dos pilares do plano de diversificação dessas nações, que é justamente o turismo.

Nos últimos dias, viralizaram no Brasil e no mundo vídeos e fotos de turistas, incluindo diversas celebridades, que ficaram presas em locais como Dubai, por conta dos bombardeios.

Mas, pensando apenas pelo lado financeiro, nada se compara à ameaça que a guerra passou a representar para a economia baseada nos petrodólares.

Na última segunda-feira (2), drones atacaram a refinaria da Aramco situada em Ras Tanura, na Arábia Saudita.

A planta é uma das maiores do mundo e precisou paralisar suas atividades. Se o conflito estender-se por vários meses (ou anos) e seguir afetando refinarias e bases de extração de petróleo (além do próprio transporte da mercadoria), a economia de países como Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes corre o risco de colapsar.

Mesmo diante de uma potencial disparada nas cotações do petróleo (o que até poderia injetar mais recursos na região), no fim das contas essas nações ficariam sem condições de extrair e comercializar o produto.

Por enquanto, o colapso econômico petrodólar do Oriente Médio, que arrastaria todo o esporte mundial junto, aparenta ser uma hipótese um tanto improvável. Sobretudo porque o sistema em vivemos costuma mover todas as forças possíveis para salvar os lucros financeiros, independentemente de quantas vidas humanas isso possa vir a custar, hoje ou no futuro.