O caos político e financeiro que tomou conta do Paraguai (nação que, em alguns círculos da extrema-direita brasileira, vinha sendo vendida como a “Suíça da América do Sul”), com a quebra do Ueno Bank (em enredo que lembra muito o do Banco Master no Brasil) abalou não apenas o esporte local do país.
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A situação também acabou por respingar na imagem do presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), Alejandro Domínguez.
O dirigente (que, frise-se, não teve enquanto qualquer participação documentada na trama que resultou na falência do Ueno) possuía estreita relação com Santiago Peña, que renunciou à presidência do Paraguai nesta quinta-feira (5), pressionado pela revolta popular surgida após a falência do Ueno, que contava com cerca de 3 milhões de correntistas, em um país que possui 7,1 milhões de habitantes.
Peña, que assumiu o cargo no início de 2023, havia sido acionista da instituição financeira até abril de 2025, quando a situação foi descoberta e ele decidiu vender sua participação na empresa.
O detalhe é que a oficialização do Ueno como banco comercial e sua expansão (com direito à gestão de US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo fundos previdenciários do Instituto de Seguridade Social, o IPS) ocorreram justamente durante o governo do conservador Peña, que viu sua situação se tornar insustentável perante o eleitorado do país, com milhões de paraguaios impedidos de comprar e de vender e sem saber quando e como poderão reaver o dinheiro, em decorrência dos bloqueios das contas após a intervenção do Banco Central do Paraguai (BCP).
Hoje, o presidente demissionário do país sul-americano converteu-se numa espécie de cadáver político ambulante, do qual os poderosos e endinheirados querem distância. Até algumas semanas atrás, porém, ele costumava posar triunfante para fotos ao lado de empresários, chefes de estado, parlamentares, investidores. E dirigentes esportivos.
Em junho de 2025, foi um dos convidados de honra da cerimônia de reeleição de Domínguez como presidente da Conmebol.
Alguém poderá argumentar que a participação de Peña no evento foi algo natural, tendo em vista que a sede da Conmebol fica no Paraguai.
O que é uma meia verdade, uma vez que, nos últimos anos, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) trocou de comando várias vezes. Em nenhuma das posses, o presidente da República de plantão esteve presente.
Próximo aos poderosos
O fato é que Domínguez, que é paraguaio, sempre soube cultivar relação próxima com os poderosos de seu país.
Peña não foi o primeiro chefe do Executivo do Paraguai a prestigiar sua posse. Em janeiro 2016, quando ele chegou ao poder na Conmebol no vácuo de poder deixado pelo Fifagate (que resultou nas prisões e indiciamentos dos ex-manda-chuvas da entidade Nicolás Leoz, Juan Ángel Napout e Eugenio Figueredo), Domínguez teve como convidado ilustre para seu momento máximo o então presidente Horacio Cartes.
Vale lembrar que, pouco antes de assumir o comando da entidade sul-americana, Domínguez vendeu seu grupo de comunicação La Nación, que incluía jornais e emissoras de rádio, para Sarah Cartes, irmã e parceira de negócios do presidente do país.
Cartes, por sua vez, possuía forte atuação no futebol da nação, tendo sido presidente do Libertad e ainda diretor de seleções da Associação Paraguaia de Futebol (AFP), entidade que Domínguez dirigiu, antes de vencer a eleição da Conmebol.
Ao assumir a presidência da confederação com a promessa de exorcizar a corrupção que marcava a história recente da entidade, Domínguez contou com ajuda de Cartes para materializar seu primeiro gesto simbólico de peso, que foi revogar a imunidade diplomática que pairava sobre a sede da Conmebol, impedindo que ela pudesse ser alvo de investigações por parte de autoridades locais. Um decreto assinado pelo então presidente da República permitiu que o cartola fizesse esse aceno à opinião pública.
Apesar de nunca haver disputado cargos públicos no país, Domínguez é filiado ao Partido Colorado, o maior do Paraguai. Seu tio Humberto Domínguez Dibb foi uma figura de peso política da nação e genro de ninguém menos que ex-ditador Alfredo Stroessner, que governou o país de 1954 a 1989, tendo a legenda como um de seus principais sustentáculos (o outro pilar eram as Forças Armadas).
Seu pai, Osvaldo Domínguez Dibb (o ODD), fez imensa fortuna no Paraguai graças a concessões e à proximidade com o regime, impulsionando sua carreira como empresário e cartola de futebol (ele foi presidente do Olimpia.
A partir 2018, com a chegada do também colorado Mario Abdo Benítez ao poder, Domínguez procurou manter uma relação pragmática e diplomática com o novo mandatário da nação, que era de uma ala rival dentro do partido. Os dois não tiveram atritos e procuraram cooperar na realização de grandes eventos.
Em 2023, com a ascensão de Peña ao Palacio de los López, Domínguez voltou a se aproximar do Governo do Paraguai, já que novo presidente era afilhado político de Cartes.
Os vínculos são tão estreitos que, antes de cair em desgraça na esteira da quebra do Ueno, Peña chegou a cogitar indicar Domínguez como seu candidato à sucessão presidencial no país.
A amizade de ambos ajudou a consolidar Luque como sede do futebol sul-americano, sem contar que eles trabalharam juntos para que o Paraguai fosse escolhido para receber partidas iniciais da Copa de 2030, vencendo a concorrência com o Chile.
Patrocínio e dinheiro perdido
Na área financeira, o ponto de intersecção mais notório entre o dirigente esportivo e o presidente demissionário estava justamente no Ueno Bank.
A Conmebol mantinha US$ 14 milhões aplicados em fundos de investimento de longo prazo na instituição financeira.
A entidade manifestou-se a respeito desse prejuízo, alegando que o montante representa em torno de 2,5% de suas receitas anuais, de modo que a perda, classificada como residual, não afetará seu fluxo de caixa.
O Ueno era também patrocinador oficial da Copa Sul-Americana, acordo que teve de ser interrompido em decorrência da quebra do banco.
Conforme noticiou a Máquina do Esporte, a instituição financeira era também uma das principais parceiras comerciais do futebol paraguaio, graças a vínculos com entidades sobre as quais Domínguez possui forte influência, caso da AFP, com os naming rights da primeira divisão nacional (que era chamada Copa de Primera Ueno) e do Estádio Defensores del Chaco, em Assunção.
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No caso dos acordos locais, a intervenção sofrida pelo Ueno foi sentida com mais intensidade, sobretudo nos contratos mantidos com clubes como Olimpia e Cerro Porteño.
Além do patrocínio, a instituição era parceira bancária oficial das equipes, administrando inclusive a folha de pagamento. Com os bloqueios das contas após a intervenção do BCP, jogadores, comissões técnicas e funcionários dos clubes ficaram impedidos de receber seus salários e rendimentos.
