Pular para o conteúdo

Copa do Mundo bilionária vai de grande trunfo a principal causa de desgaste político para Infantino na Fifa

Considerado um sucesso de público, audiência e faturamento, torneio ampliou proximidade do cartola com Trump, com elevado custo político

Gianni Infantino, presidente da Fifa, durante discurso para a imprensa - Reprodução

Gianni Infantino, presidente da Fifa, durante discurso para a imprensa - Reprodução

⚡ Máquina Fast
  • Gianni Infantino tenta vender participação minoritária dos direitos comerciais da Fifa, gerando conflito com a Uefa.
  • Infantino priorizou alianças com Estados Unidos e Arábia Saudita, causando desgaste político na Europa.
  • Proposta da 'SAFifa' pode provocar racha irreversível entre Fifa e federações europeias do futebol.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

A tentativa de Gianni Infantino de criar uma subsidiária para gerir os direitos comerciais da Federação Internacional de Futebol (Fifa) e depois vender a participação minoritária para investidores externos traz ingredientes que podem resultar numa transformação completa da estrutura desse esporte no mundo.

LEIA MAIS: Uefa decide boicotar Copa do Mundo após projeto da Fifa de vender ativos do futebol

A análise da história dos grandes impérios da humanidade mostra que, em geral, a decadência de vários deles sucedeu momentos de apogeu.

Em alguns casos, como o de Roma, a derrocada final demorou alguns séculos para se concretizar, após o ápice territorial alcançado com Trajano, no ano 117. Já em outros, como no caso do Império Macedônico, bastou que Alexandre, o Grande, morresse aos 32 anos de idade, para que tudo ruísse rapidamente.

Gianni Infantino parecia ter conseguido erguer um império na Fifa, a partir dos escombros do escândalo do Fifagate, em que diversos cartolas influentes da instituição e de entidades nacionais e continentais foram presos pelo FBI, acusados de corrupção, desvio de recursos e lavagem de dinheiro.

Em 2026, ano em que realizou a maior Copa do Mundo da história (em termos de equipes participantes e também de renda, audiência, público nos estádios e receitas comerciais), o dirigente de 56 anos parecia estar prestes a se consolidar no poder na entidade que dita os rumos do esporte mais popular do planeta.

Polêmicas ocorridas durante e após o evento, porém, acabaram por converter esse trunfo na principal causa de desgaste político para o cartola de origem suíça e italiana, que hoje enfrenta sérias barreiras em seus planos de se reeleger como presidente da Fifa.

Filhote do Fifagate

Infantino pode ser definido como uma espécie de filhote (ou talvez um subproduto) do Fifagate, tendo chegado ao posto máximo de comando na Fifa por conta de toda a conjuntura que se construiu a partir daquele escândalo.

Apesar de carregar a palavra “internacional” no nome, a Fifa sempre foi, durante décadas, uma entidade europeia. Se não promoveu a primeira Copa do Mundo no Velho Continente, mas sim no Uruguai, foi porque as principais potências do futebol na época encaravam a ideia com desconfiança extrema.

O processo de internacionalização de fato da entidade foi iniciado quando Infantino ainda era um garoto de 4 anos de idade, que talvez ostentasse uma vasta cabeleira na cabeça.

Em 1974, embalado pela campanha memorável da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970, João Havelange assumiu o poder na Fifa e logo notou que, para se consolidar no comando, seria fundamental ampliar o espaço dos outros continentes, como forma não apenas de fortalecer o domínio global da entidade, mas também de limitar a influência dos europeus nas principais decisões.

Quando ele assumiu o cargo, a Copa do Mundo reunia 16 equipes. Ao fim do mandato, em 1998, eram 32 seleções disputando o torneio. Nesse período, o número de associações-membro da Fifa faltou de 142 para a 194, superando o total de territórios atualmente com assento na Organização das Nações Unidas (ONU), que é de 193.

Essa expansão ocorreu sobretudo a partir da filiação de entidades na África, Ásia e Oceania, o que ajudou a reconfigurar a correção de forças na Fifa.

Tanto que o sucessor de Havelange, o suíço Joseph Blatter, chegou ao poder mesmo com a oposição das federações ligadas à União das Associações Europeias de Futebol (Uefa), que apoiavam o sueco Lennart Johansson, então presidente da entidade continental.

Nos anos 1990, tal como agora, o futebol europeu já procurava se organizar para construir uma vida própria, por assim dizer, mais independente da Fifa.

Durante a gestão de Johansson, que durou até 2007, a Uefa consolidou o atual formato da Champions League, em substituição ao da antiga Copa dos Campeões, e fortaleceu a Euro.

No mesmo período, ligas nacionais, especialmente a Premier League, passaram a se fortalecer, ampliando as receitas e atraindo alguns dos principais craques do planeta para os gramados europeus.

A resposta de Blatter e seu grupo foi ampliar a relação com as outras regiões do planeta, instituindo o rodízio de continentes para sediar a Copa do Mundo, que enfim chegou a locais como Ásia, em 2002, e África, em 2010.

As investigações do Fifagate demonstrariam que essa influência política tinha um custo elevado, com direito a denúncias de corrupção nas escolhas de Rússia e Catar como sedes dos Mundiais de 2018 e 2022, respectivamente.

A investigação levada adiante pelo FBI, porém, não buscava apenas moralizar a entidade, mas sim alterar o eixo econômico e de poder no futebol mundial.

Ao derrubar Blatter e seus aliados, os Estados Unidos colocaram o esporte sob sua esfera de influência, de uma forma nunca antes vista na história.

Idas e vindas na relação com a Uefa

A derrubada dos cartolas ligados a Joseph Blatter abriu espaço para a ascensão de Infantino, que, por ironia, havia atuado de 2009 a 2015 como secretário-geral na gestão de Michel Platini na Uefa.

O ex-jogador, que derrotara Johansson em 2007 (com apoio de Blatter e das federações menores da Europa), cairia em desgraça com a eclosão do Fifagate, ao ser acusado de haver recebido suposta propina de € 1,8 milhão, paga por Blatter.

Mais tarde, ele seria absolvido das acusações (o dinheiro seria relativo a uma consultoria privada) e, neste ano, processou Infantino, acusando-o de haver arquitetado um complô para prejudicar sua carreira política (o astro francês era cotado como um dos favoritos a suceder Blatter na presidência da Fifa).

O fato é que, em 2016, diante do vácuo surgido no continente e na própria cúpula do futebol mundial, Infantino recebeu apoio unânime da Uefa para se candidatar e vencer a eleição para presidente da Fifa.

Hoje, a mesma Uefa, de maneira também generalizada, ameaça boicotar as competições que vierem a ser promovidas pela gestão do cartola ítalo-suíço, por repudiarem a ideia da “SAFifa”, que consistiria na criação da Fifa Forward Enterprise (FFE), subsidiária que teria uma fatia minoritária vendida para a gestora de capital de risco de Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, que por sua vez é marido de Ivanka Trump e genro de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.

Dirigente troca Europa por Estados Unidos

A fúria da cartolagem europeia contra Infantino possui um agravante, já que, nos últimos anos, ele acabou por priorizar a relação com os Estados Unidos, em detrimento do Velho Continente.

O êxito de sua gestão consistia numa relação triangular estabelecida com os norte-americanos e a Arábia Saudita.

A Fifa levou seus principais torneios à Terra do Tio Sam, enquanto a monarquia do Oriente Médio bancou esses eventos com patrocínio proveniente dos petrodólares.

Foi assim com a Copa do Mundo de Clubes de 2025 e com a Copa do Mundo de 2026, que teve a imensa maioria de seus jogos realizada nos Estados Unidos.

Manter uma boa relação com determinado país, ainda mais se esse for o mais rico e influente do planeta, não representaria propriamente um problema para Infantino.

Ocorre que, desde que Donald Trump retornou à presidência dos Estados Unidos, o mandatário da Fifa optou por assumir uma atitude de alinhamento automático, que beira muitas vezes à submissão explícita.

Fato que ficou evidente na entrega do Prêmio Fifa da Paz a Trump, dias antes de ele ordenar o bombardeiro ao Irã, em parceria com Israel.

A anulação da suspensão do atacante Folarin Balogun, que havia sido expulso diante da Bósnia e Herzegovina, mas ficou livre para disputar as oitavas de final contra Bélgica, serviu para despertar a fúria das entidades europeias contra Infantino.

LEIA MAIS: Gianni Infantino é alvo de mais dois pedidos de investigação na Europa após Caso Balogun

A Federação Alemã de Futebol (DFB), por exemplo, usou o episódio como pretexto para se declarar contrária à reeleição do presidente da Fifa.

Risco de um racha irreversível

O caso Balogun, por si só, já poderia ter servido de alerta para Infantino de que seu alinhamento total (para não dizer subserviência) a Trump resultaria em um elevado custo político.

O arranhão à imagem do dirigente foi tão grande que ele chegou a ser criticado até fora da Europa, pelo vice-presidente da US Soccer, Nathán Goldberg, em artigo publicado no The Guardian.

LEIA MAIS: Vice-presidente da US Soccer acusa Infantino, da Fifa, de manchar o esporte ao aproximar-se de Trump

O dirigente norte-americano afirmou, no texto, que o mandatário da Fifa “trabalhou para se aproximar” do presidente dos Estados Unidos “a qualquer custo”, para descobrir posteriormente que “se aproximar de Trump sempre sai pela culatra, manchando todo o esporte pelo caminho”.

Infantino poderia ter lido e artigo e encarado o conteúdo como um conselho para, quem sabe, alterar a rota. Optou, porém, por buscar uma relação comercial escancarada com a família de Trump, que busca controlar financeiramente os destinos do futebol mundial.

Considerando-se a oferta de pagamento de US$ 40 milhões em bônus aos países que aceitarem participar do FFE, é provável que a ideia até tenha condições numéricas de avançar, já que a soma representa uma fortuna inimaginável para inúmeras entidades que convivem com uma realidade de recursos escassos.

Pela postura adotada até aqui pelas federações europeias, porém, tudo indica que, ao insistir na proposta, Infantino cria as condições materiais para um racha irreversível no futebol mundial.

Hoje, considerando-se questões econômicas e midiáticas, o futebol europeu teria plenas condições de sobreviver sem a Fifa, com as competições de clubes e seleções organizadas pela Uefa e pelas próprias ligas nacionais.

Resta saber se a Copa do Mundo e demais torneios da Fifa conseguiriam prosperar sem seleções, clubes e atletas da Europa.