Após anos de muitas rivalidades e disputas (veladas e abertas), os principais clubes do país enfim se reuniram em uma mesma sala para iniciar o debate sobre a criação de uma liga unificada, que ficaria responsável por organizar as Séries A e B do Brasileirão.
O encontro foi promovido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), na tarde desta segunda-feira (6), no Hotel Hilton, no Rio de Janeiro (RJ). Dos 40 times convidados, apenas Chapecoense e Mirassol não enviaram representantes.
Ao discursar na abertura do encontro, que contou com presença maciça de mandatários de clubes e de federações estaduais, o presidente da CBF, Samir Xaud, referiu-se ao encontro como sendo “um momento histórico”.
O dirigente lembrou do primeiro discurso após assumir a presidência da entidade, quando disse que a criação da liga era uma de suas metas.
“Que possamos trabalhar juntos na construção de uma liga forte em que vocês, clubes, sejam os protagonistas. E a CBF, a mediadora. Para que, em breve, o Brasileirão seja uma das três maiores ligas do mundo”, disse.
Melhorar o produto
Em sua fala na abertura da reunião, Gustavo Dias Henrique, vice-presidente da CBF, deu o tom de como se desenrolaria o debate sobre a liga.
A ideia inicial da CBF é buscar meios de valorizar o Brasileirão como produto, antes de partir para a discussão sobre a divisão de receitas.
“Até agora, discutiu-se só a questão comercial, mas se discutiu muito pouco a qualidade do produto”, afirmou o dirigente.
A CBF realizou um estudo que analisou o Brasileirão a partir de diversas perspectivas. O objetivo principal dessa primeira reunião foi justamente mostrar as fraquezas identificadas nesse diagnóstico, elaborado com a participação de dez diretores da entidade, de diferentes áreas.
A análise comparou o Brasileirão às principais ligas europeias como Premier League, LaLiga e Bundesliga. No estudo feito pela entidade, o campeonato nacional, hoje, é descrito como um produto de qualidade inferior em relação aos concorrentes do Velho Continente.
Os fatores a serem melhorados no Brasileirão são inúmeros e incluem desde a qualidade dos gramados e das arbitragens, passando pelo tempo de bola rolando (que neste ano está em torno de 51 minutos por partida, o pior entre as grandes ligas do planeta), a infraestrutura dos estádios e das transmissões, até desafios como a manutenção de jovens talentos no país e a segurança nos jogos.
Uma pesquisa encomendada pela CBF no ano passado, com 2,5 mil entrevistados, constatou que 74% das pessoas temem levar a família aos estádios, por conta da violência.
Crescer o bolo
Na visão da CBF, melhorar a qualidade do Brasileirão permitirá que os clubes obtenham condições mais favoráveis nas negociações do próximo ciclo de direitos, a ser iniciado em 2030.
A entidade pretende fazer o “bolo” das receitas crescer, antes de debater o modelo de divisão que será adotado.
A CBF também quer se posicionar como mediadora nessa discussão, sem dar a palavra final. A diretoria da instituição entende que medidas impostas na “canetada” poderiam não ter legitimidade perante o conjunto dos clubes.
Dívidas
Ampliar o faturamento dos clubes não será o único foco no trabalho a ser desenvolvido nesse debate sobre a liga.
A análise da CBF constatou que a falta de receitas não é o grande problema das equipes do Brasileirão.
O faturamento dos clubes da competição aumentou 35% nas temporadas de 2022 a 2024, movimento que foi impulsionado pelos patrocínios das casas de apostas, investimentos nas Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) e adiantamentos de receitas comerciais e de mídia feitos pela Sport Media, investidora do Futebol Forte União (FFU).
A governança no uso desses recursos adicionais é que tem se mostrado uma questão fundamental para o futuro dos clubes.
Isso porque, com o aumento no faturamento ocorrido nos últimos três anos, as equipes elevaram suas despesas em 147%, também de 2022 a 2024.
Os gastos com contratações de atletas saltaram 55%, em um mercado cada vez mais inflacionado. Nos bastidores, os comentários são que para cada R$ 1 a mais ganho nesse período, os clubes tiveram um gasto adicional de R$ 2 para manterem elencos com qualidade igual ou até inferior à de três anos atrás.
Ao mesmo tempo, a dívida líquida acumulada dos clubes cresceu 77% de 2022 a 2024. Atualmente, é avaliada em cerca de R$ 15 bilhões.
Cronograma
Por enquanto, a CBF pretende apresentar o diagnóstico e ouvir os clubes. O cronograma inicialmente proposto pela entidade, mas que depende das equipes para avançar, prevê que, neste ano, as discussões estejam focadas na melhora do produto.
Entre maio e julho, ocorreria a coleta de sugestões e a elaboração de propostas para encaminhamento. Entre agosto e setembro deste ano, as ideias seriam apresentadas, ajustadas e aprovadas, para então, de outubro a dezembro, o debate abordar outras questões.
A segunda fase envolveria as discussões sobre a comercialização de direitos, mas sem entrar ainda na divisão de receitas.
Hoje, não há uma previsão de quando essa discussão teria início, mas a tendência é de que ela deva se desenrolar ainda no primeiro semestre do ano que vem, que é quando provavelmente começarão a ser negociados os contratos para o ciclo de 2030 em diante.
As discussões sobre a constituição de uma liga propriamente dita, incluindo a forma como os recursos seriam repartidos entre os clubes, representarão a última fase desse debate.
