A “Era John Textor” no Botafogo está por um fio. O empresário norte-americano permanece no comando da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) da Estrela Solitária graças a uma liminar concedida no ano passado pela Justiça do Rio de Janeiro.
Na prática, porém, as bases materiais de seu poder se esvaíram, já que ele deve perder o controle sobre a Eagle Football Holdings, grupo multiclubes fundado por ele e que possui times de futebol em diferentes países.
Textor entrou em rota de colisão com seus sócios na Eagle, despertando a fúria de figuras poderosas como Michele Kang, dona do London Lionesses e que foi nomeada gestora do Lyon, da França, como condição para que a equipe não fosse rebaixada na Ligue 1, em decorrência das dívidas contraídas pelo norte-americano à frente do clube.
Nessa briga, Kang aliou-se à Ares Management, companhia que cedeu o capital para que a Eagle fizesse os investimentos em clubes ao redor do mundo.
A gestora de fundos de investimentos (que controla ativos globais avaliados em cerca de US$ 600 bilhões) leva o nome do deus grego da guerra, que na mitologia era conhecido pelo seu modo impulsivo e violento agir.
Na disputa com Textor, porém, a Ares preferiu encarnar Atena, célebre por dominar as estratégias mais sagazes no campo de batalha e ser impiedosa no trato com os inimigos (a cidade de Troia que o diga).
Ao longo dos últimos meses, Kang e Ares acuaram o norte-americano, que precisou buscar na diretoria do Botafogo associativo e na Justiça do Rio de Janeiro uma forma de resguardar parte de seus investimentos no clube brasileiro.
A liminar que o manteve no comando do Botafogo impediu o repasse de ativos da SAF para uma empresa fundada por Textor no paraíso fiscal das Ilhas Cayman, batizada de Eagle Football Group e controlaria também o capital do Daring, da Bélgica.
Manobra provocou reação da Ares
Sitiado pelos adversários (assim como rei troiano Príamo), Textor viu sua margem de ação se estreitar de maneira significativa.
Kang e a Ares apenas aguardaram um descuido do norte-americano para realizar a investida final. A brecha veio com a tentativa de Textor de afastar membros independentes da estrutura de governança da Eagle Football Holdings. As informações são do jornal O Globo.
O gesto serviu de justificativa para que a Ares acionasse uma cláusula de proteção ao crédito que consta em um processo que tramita na Justiça do Reino Unido.
Na visão da companhia, que é a principal credora de Textor, as mudanças por ele promovidas na área de governança da Eagle representariam um risco adicional aos investidores. Dessa forma, a Ares optou por exercer o direito previsto na cláusula de proteção e assumir o controle da Eagle, situação que deve se concretizar nos próximos dias.
Em nota enviada a O Globo, o empresário alegou que segue como “o acionista controlador da Eagle Football Holdings Limited” e que, apesar dos processos que enfrenta na França, continua “a ocupar o cargo de presidente e líder do Botafogo”.
Incertezas
Em que pese o fato de que chances de Textor seguir à frente da Eagle Football Holdings estejam se tornando cada vez mais escassas, ele tem razão no trecho em que se refere ao Botafogo.
Embora o grupo multiclubes seja dono de fato de 90% do futebol do clube brasileiro, o comando do Glorioso só poderá ser trocado com aprovação do Conselho da SAF, hipótese pouco provável, tendo em vista que diretoria da associação está fechada com Textor. A outra possibilidade seria a cassação da liminar que manteve o norte-americano no cargo.
Por outro lado, a situação amplia as incertezas para o Botafogo, já que seu comandante, em tese, não teria acesso aos recursos da investidora da SAF.
Textor prometeu realizar, nesta semana, um aporte com o objetivo de aliviar a crise financeira da SAF, que sofreu transferban da Federação Internacional de Futebol (Fifa), por conta do atraso no pagamento relativo à contratação do argentino Thiago Almada junto ao Atlanta United. Hoje o jogador, que foi decisivos nas conquistas do Brasileirão e da Copa Libertadores em 2024, atua pelo Atlético de Madrid.
Segundo Textor, esse aporte emergencial teria sido aprovado pelo conselho da Eagle, mas resta saber se a transferência de recursos será mantida após a Ares assumir o comando da empresa.
Nesta semana, ganharam força o rumores de que o Botafogo prepara uma um pedido de recuperação judicial. De acordo com o portal GE, a medida seria a alternativa encontrada pelo comando da SAF para equacionar dívidas que chegaram a R$ 1,5 bilhão, das quais R$ 700 milhões vencem em um curto prazo.
Prevista na Lei das SAFs, a recuperação judicial é um mecanismo pelo qual clubes endividados têm a chance de obter, com anuência dos credores e autorização de um juiz de direito, prazos estendidos e condições facilitadas para quitarem seus débitos.
