O futebol brasileiro se tornou pioneiro na aplicação de tecnologia de biometria facial para controle de acesso a estádios, seguindo uma regra da Lei Geral do Esporte (LGE) implantada em 2025.
O movimento começou um pouco antes. No final de 2022, o Palmeiras adotou a solução em seu estádio em parceria com a Bepass. A iniciativa antecedeu a obrigatoriedade imposta pela LGE, sancionada em 2023, que determinou a implementação da ferramenta em arenas com capacidade superior a 20 mil lugares a partir de junho de 2025.
“Ainda não existia um clube no mundo que tinha feito o acesso por biometria facial num estádio de futebol. Palmeiras foi o primeiro do mundo”, contou Ricardo Cadar, fundador e CEO da Bepass, em entrevista à Máquina do Esporte.
Basicamente, o empresário pegou uma tecnologia já disponível, a do reconhecimento facial para acesso em condomínios e prédios comerciais, por exemplo, e trouxe para o futebol.
Impactos
Um ano após a entrada em vigor da legislação, todos os 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro já utilizam a tecnologia. O sistema alterou a logística de entrada nas arenas e gerou impactos na gestão comercial e na segurança dos eventos esportivos.
A substituição dos ingressos tradicionais pela biometria reduziu a ação de cambistas e a falsificação de bilhetes.
No Corinthians, a diretoria de tecnologia estimava que cerca de 20 mil ingressos por jogo eram comercializados ilegalmente, gerando uma perda de arrecadação de R$ 1 milhão por partida. No Santos, a eliminação da emissão de carteirinhas físicas gerou uma economia estimada em R$ 1,2 milhão por ano.
A diminuição do cambismo refletiu no crescimento dos programas de sócio-torcedor, como registrado no Palmeiras, que teve um aumento de aproximadamente 30% em sua base de associados.
“O número de sócios aumentou porque, com o fim dos cambistas, os torcedores precisam estar cadastrados no programa para comprar ingressos”, afirmou Cadar.
Outra mudança observada foi a alteração no perfil do público presente nas arenas. Levantamento da Bepass apontou que, entre sete clubes atendidos pela empresa (Botafogo, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Palmeiras, São Paulo e Santos), a média de público feminino subiu de 17,5% em 2023 para 23,1% em 2025. A presença de crianças menores de 14 anos cresceu de 6% para 7,6% no mesmo período.
“Pela segurança que conseguimos implantar nos estádios, vimos esse aumento do público feminino e de crianças. Pelas pesquisas recentes, houve um aumento de mais de 30% de mulheres e crianças nos estádios após a implantação da biometria facial”, revelou o executivo.
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Segurança

Na área de segurança pública, a integração do sistema com a plataforma Muralha Paulista auxiliou na detenção de mais de 280 foragidos da Justiça em cerca de 100 partidas monitoradas em São Paulo, além de registrar mais de 130 notificações por descumprimento de medidas cautelares.
Outra vantagem do sistema é a capacidade de identificação rápida do torcedor que comete algum ato racista.
“Em jogos do Palmeiras, Botafogo e Fluminense tivemos casos que foram rapidamente identificados. Entregamos essa identificação ao clube, que repassa para a polícia. Isso hoje em dia é praticamente instantâneo”, contou Cadar.
Expansão
Os resultados obtidos no mercado nacional motivaram a Bepass a iniciar sua internacionalização na América do Sul.
A empresa abriu subsidiárias e firmou parcerias locais para implementar a tecnologia no Vélez Sarsfield (ARG), na Universidad de Chile (CHI) e no Independiente Medellín (COL).
“O Brasil de certa forma é referência especialmente os países da América Latina como um todo, em termos de tecnologia aplicada ao futebol”, pontuou o executivo.
Pagamento
Com mais de 18 milhões de acessos realizados em mais de 700 eventos desde 2022, a empresa projeta diversificar o uso da biometria facial para outros serviços nos estádios, como gestão de camarotes, credenciamento de profissionais e pagamentos consumidos na arena.
“Estamos implantando mais usos [da tecnologia]. Lançamos o Bepass Pay, que é o pagamento por biometria facial. Estamos usando também para shows”, destacou Cadar.
No caso de shows, não há exigência legal para que eventos com mais de 20 mil pessoas tenham que fazer uso da ferramenta. A legislação, por enquanto, abarca apenas o esporte.
