Shell renova patrocínio à Fórmula Indy e terá tecnologia brasileira em biocombustível

Raízen, joint venture com a Cosan, desenvolveu composto feito com resíduos de alimentos

A Shell estendeu seu contrato de patrocínio com a Fórmula Indy e o Autódromo de Indianápolis. Além disso, a partir de 2023, a marca introduzirá na categoria um biocombustível produzido 100% com recursos renováveis, feito com resíduos de alimentos, incluindo a cana-de-açúcar. A tecnologia tem participação da Raízen, joint venture da empresa, que foi criada em 2011 com a brasileira Cosan.

“Usamos a plataforma de corrida para realmente desenvolver e testar novas tecnologias de produtos. Isso se aplica a lubrificantes e também a combustíveis”, contou Selda Gunsel, presidente da Shell Global Solutions, em entrevista à revista Forbes.

O novo biocombustível consiste em uma mistura de etanol de segunda geração derivado de resíduos da cana e outros biocombustíveis para criar um composto feito com matérias-primas consideradas renováveis.

“Trabalhamos com tecnologia de automobilismo há muitos anos porque vemos isso como uma excelente plataforma de inovação para experimentar novas tecnologias e testar novos produtos. Além de seu desempenho e especificações, testamos nossos produtos em condições extremas [no automobilismo]”, afirmou a executiva da Shell.

"Usamos a plataforma de corrida para realmente desenvolver e testar novas tecnologias de produtos. Isso se aplica a lubrificantes e também a combustíveis"

Selda Gunsel, presidente da Shell Global Solutions

O biocombustível fará da Indy a primeira série de automobilismo com sede nos Estados Unidos a abastecer seus carros com produto 100% renovável e permitirá uma redução de ao menos 60% nas emissões de gases de efeito estufa em comparação com o combustível fóssil.

Tecnologia

O etanol de segunda geração virá da Raízen, uma das maiores produtoras de etanol de cana do mundo e proprietária da primeira usina comercial de etanol de segunda geração. O combustível sustentável também pode entrar no mercado automotivo para ajudar a reduzir os níveis de monóxido de carbono na atmosfera.

“Testamos nossos produtos sob condições extremas de velocidade, temperatura e potência. Pegamos esse aprendizado e aplicamos ao desenvolvimento dos nossos produtos para consumidores e clientes. Essa é a nossa visão”, explicou Selda.

Nova geração

A Shell divulgou que a diferença básica do novo biocombustível é uma mudança de geração entre os compostos de etanol.

“Ao atualizar para um etanol de segunda geração, que vem de resíduos, você na verdade não compete com a cadeia alimentar. Esse é um benefício importante”, elucidou a executiva.

Ou seja, esse biocombustível pode ser produzido a partir de resíduos, em vez do etanol atual, que é feito à base de milho ou açúcar, refinado a partir do próprio alimento. O etanol à base de milho é feito do mesmo tipo usado para alimentar o gado, enquanto o etanol de cana anterior incluía o açúcar que teria sido refinado para consumo humano.

"Ao atualizar para um etanol de segunda geração, que vem de resíduos, você na verdade não compete com a cadeia alimentar. Esse é um benefício importante"

Selda Gunsel, presidente da Shell Global Solutions

Com isso, uma ostensiva produção do biocombustível poderia afetar a cadeia alimentar tanto da pecuária como do homem. O novo biocombustível será refinado a partir dos resíduos deixados por essas fábricas e de outros produtos alimentícios.

Uma parcela significativa do etanol de segunda geração é produzida, no caso da cana, a partir de biomassa residual. A parte restante é proveniente de componentes renováveis ​​obtidos a partir de resíduos alimentares.

“Isso é ótimo para nós porque não competimos com a cadeia alimentar. Substituímos o componente restante, a gasolina de origem fóssil, por um componente renovável. Não há absolutamente nenhuma molécula baseada em fósseis do ponto de vista da engenharia química nesta formulação”, esclareceu Selda.

Bom desempenho

Segundo a Shell, o novo biocombustível teve ótimo desempenho e durabilidade nos testes. As especificações são semelhantes às de um combustível E85, com octanagem média de 100.

“Ele realmente oferece um desempenho ótimo. Não esperamos que os fãs de corrida vejam qualquer mudança em termos de desempenho”, disse a executiva.

Segundo ela, o objetivo da Shell, uma das gigantes da indústria do petróleo, é se tornar uma empresa de carbono zero até 2050.

"Levamos inovações não apenas para carros, mas também para muitas outras indústrias. Queremos continuar a alimentar essa paixão que as pessoas têm pelo automobilismo"

Carlos Maurer, vice-presidente executivo da divisão de descarbonização da Shell

“Devemos isso a nós, mas também a todos os fãs para continuar inovando, porque a Indy e as 500 Milhas de Indianápolis têm sido um campo de provas para muitas inovações”, afirmou Carlos Maurer, vice-presidente executivo da divisão de descarbonização da Shell.

“Inovações que levamos não apenas para carros, mas também para muitas outras indústrias. Queremos continuar a alimentar essa paixão que as pessoas têm pelo automobilismo”, completou.

Futuro sustentável

Há mais tecnologia sustentável no circo da Indy. Na última edição das 500 Milhas de Indianápolis, os pneus usados na prova foram entregues por caminhões elétricos da Penske, administradora do autódromo.

Além disso, até o final de setembro, no GP de Nashville, a Firestone promete apresentar um pneu de corrida feito de guaiule, arbusto encontrado no Deserto de Chihuahua, que fica no México e no sudoeste dos Estados Unidos.

Por fim, neste ano, algumas camisas à venda na loja oficial das 500 Milhas de Indianápolis foram produzidas a partir de garrafas pet recicladas.

“Mas não parecem garrafas de plástico velhas. Todo mundo está colaborando. Temos grandes parceiros. Acho que a mensagem é que este é o começo importante para uma iniciativa muito sustentável e contínua para nós”, finalizou Mark Mile, presidente da Penske Entertainment, gestora comercial da Indy e das 500 Milhas de Indianápolis.