A Copa do Mundo de 1970, disputada no México, marcou o início da parceria entre Fifa e Adidas. Inicialmente voltado apenas para o fornecimento da bola oficial do Mundial, o acordo evoluiu nos anos seguintes, mantendo-se em vigor até os dias atuais, e passou a envolver toda a linha de material esportivo que a entidade máxima do futebol promove nos seus torneios, como os uniformes dos árbitros, gandulas e voluntários, além das bolas das competições.
Vale lembrar que, até o Mundial de 1970, o país-sede era responsável por fornecer as bolas que seriam usadas na competição, o que criava inconsistências nas especificações técnicas dos modelos, como variações no peso, esfericidade e capacidade de absorção de água.
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Por conta dessa questão, a Fifa entendia que era necessário padronizar a qualidade das bolas da Copa do Mundo para a edição de 1970 do evento, e a escolha da Adidas para ser a parceira nesse processo foi praticamente óbvia. Isso porque a marca forneceu o modelo usado tanto nas partidas de futebol dos Jogos Olímpicos da Cidade do México 1968 quanto na Eurocopa do mesmo ano, o que comprovou a capacidade logística e de produção da empresa alemã para atender a grandes eventos.
O início da era Adidas (1970)
A Eurocopa de 1968, realizada na Itália, foi o primeiro grande campeonato de futebol que contou com uma bola desenvolvida pela Adidas. Por intermédio de um acordo com a Uefa, a marca alemã criou a “Telstar Elast” como modelo oficial do torneio.
O nome veio por conta da semelhança do objeto com o satélite “Telstar”, o primeiro voltado para a comunicação, lançado no espaço em 1962, que marcou o início das transmissões de TV ao vivo e das chamadas telefônicas transatlânticas. A forma esférica com painéis solares acoplados, lembrando os gomos de uma bola de futebol, inspiraram os designers da Adidas a criar o modelo da bola, que também buscava simbolizar a inovação tecnológica característica do contexto da época, que envolvia, principalmente, a corrida espacial.
O sucesso técnico da “Telstar Elast” na Eurocopa e o sucesso logístico do modelo dos Jogos Olímpicos de 1968 serviram como referência positiva e deram segurança para a Fifa contratar a Adidas como fornecedora da bola oficial da Copa do Mundo de 1970.
A partir disso, a marca alemã praticamente replicou a “Telstar Elast”, em termos de design, para o modelo do Mundial do México. Com 32 painéis costurados à mão, sendo 20 hexágonos na cor branca e 12 pentágonos pretos, a bola seguia o mesmo padrão estético do modelo da Eurocopa, que foi criado para ter mais destaque nas transmissões televisivas do torneio europeu, as quais ainda não eram em cores.
No entanto, a principal diferença da bola da Copa do Mundo de 1970, batizada apenas de “Telstar”, para a versão da Eurocopa era uma camada de revestimento externo de poliuretano sob o couro do modelo do Mundial. Essa tecnologia, que a Adidas chamou de “Durlast”, deixava o material mais resistente ao desgaste e ainda oferecia um nível muito maior de impermeabilidade em relação às bolas das edições anteriores do torneio.
Além disso, a Fifa manteve a regra que proibia a estampa de marcas e inscrições nas bolas que seriam usadas nos jogos do Mundial de 1970. Dessa forma, a logomarca da Adidas e o nome “Telstar” só foram permitidos em réplicas comerciais produzidas pela marca alemã.
Impacto visual e comercial
Mesmo sem o logotipo da Adidas na bola dos jogos, a propaganda da “Telstar” foi feita pelo seu próprio design, aproveitando a estreia da transmissão televisiva em cores de uma Copa do Mundo na edição de 1970. O nome do modelo, referenciando o satélite de comunicações que possibilitou a transmissão global do evento pela TV, conectou o futebol com a modernidade, com a era espacial e com o início do processo de globalização.
Sob este contexto, a Adidas conseguiu capitalizar essa associação entre a bola e o momento que a sociedade vivia na época, com a imagem da “Telstar” se tornando uma propaganda poderosa da marca, mesmo sem a logomarca da empresa na versão usada nas partidas.
A “Telstar” ainda marcou o nascimento da bola de futebol como um produto de consumo em massa e um pilar do merchandising esportivo. Mesmo com apenas 20 bolas sendo fornecidas para os jogos do torneio, a demanda por réplicas foi gigantesca para os padrões da época e estima-se que aproximadamente 600 mil unidades do modelo foram vendidas após a Copa do Mundo.
Estratégia mantida (1974)
Para a Copa do Mundo de 1974, realizada na Alemanha Ocidental, terra natal da Adidas, a empresa optou por manter a estratégia em relação à bola oficial da competição. Dado o sucesso da “Telstar” em 1970, a marca alemã manteve o nome e o design para o seu segundo Mundial como parceira da Fifa, fazendo apenas algumas pequenas atualizações técnicas e, principalmente, na promoção do modelo.

Isso porque a Copa do Mundo de 1974 marcou a primeira vez em que o logotipo da Adidas e o nome da bola foram impressos diretamente no equipamento usado em campo, um passo importante para a consolidação da bola como um produto da marca e a associação do modelo à empresa por parte do público.
Com o logotipo da Adidas visível para milhões de telespectadores ao redor do mundo, a bola virou uma peça central da estratégia de publicidade da empresa, que promoveu o modelo em seus catálogos e campanhas, capitalizando a presença na Copa do Mundo e impulsionando as vendas da “Telstar” do Mundial de 1974.
