No cenário corporativo e esportivo, costuma-se dizer que “o que não é visto, não é lembrado”, uma premissa que ancora contratos de patrocínio e a economia da atenção global. Quando transpomos essa lógica para a ocupação de espaços de poder, a máxima ganha uma profundidade vital: o que não é visto, não é sequer sonhado. Como bem sintetizou o artista Emicida: “se a gente não sabe como que a gente quer sonhar, é muito difícil a gente sonhar”.
Afinal, como o indivíduo pode projetar o desejo de ser algo que, no seu mapa mental, ainda não existe?
Recentemente, ao final de uma palestra sobre alta gestão e liderança feminina, fui abordada por uma mãe que trazia o rascunho desse novo imaginário. Ela me contou sobre sua filha Joana, gaúcha, de 11 anos, torcedora do Internacional e apaixonada por futebol. Ao ser desafiada na escola a desenhar seu futuro, a menina rompeu com os clichês. No papel, não havia uma chuteira ou uma coroa. Havia uma cadeira de decisões e uma figura central: Leila Pereira.
O traço de Joana capturou a presidente do Palmeiras em sua essência: uma serenidade estratégica traduzida em uma “pose de poder”. Sentada em uma poltrona de encosto alto, com pernas cruzadas e expressão firme, a figura desenhada por Joana não era apenas uma homenagem, mas um manifesto silencioso de pertencimento.
A ciência do comportamento nos mostra que a ambição não nasce no vácuo; ela é, em grande parte, um processo visual e especular. Precisamos de referências para mapear nossas próprias rotas. Em um ecossistema historicamente hermético, a presença de uma mulher gerindo orçamentos bilionários atua como um potente catalisador.
Entre os 7 e 12 anos, a criança vive uma fase áurea de formação de identidade, em que o cérebro absorve e consolida o que é “possível”. Ao colocar a gestão feminina em evidência, o esporte não está apenas fazendo história; está moldando o futuro mercado de talentos e provando que a pluralidade de visões torna o futebol mais profissional e lucrativo.
Joana compreendeu cedo que não quer apenas estar no gramado; ela deseja a caneta, a estratégia e o impacto macroeconômico. Essa ascensão de lideranças femininas traz um retorno que as planilhas ainda não capturam totalmente: a profissionalização do desejo. Meninas que se veem representadas na presidência de um clube passam a consumir o esporte de forma mais ativa e estratégica. Como afirma a economista Luiza Carvalho, “sucesso é poder escolher”. O desenho de Joana é a prova de que ela já começou a exercer essa escolha.
O “ser presidente” passou a ter o mesmo peso heroico do “fazer o gol”. É o sinal de que o futebol brasileiro, mestre em exportar talentos de chuteiras, agora começa a exportar referências de governança.
Ocupar espaços de decisão é um ato que reverbera para além de qualquer mandato; é uma sinalização de mercado fundamental. A maior vitória de uma líder no esporte não é apenas o troféu na galeria, mas a permissão silenciosa que ela concede para que milhares de meninas projetem suas carreiras no topo.
O desenho de Joana não é arte infantil; é o novo organograma do esporte brasileiro sendo rascunhado em tempo real. Ali, o verdadeiro objeto de desejo não é a bola, mas o poder de decidir em que lugar o futebol pode chegar.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Liana Bazanela é cofundadora da Hoc Sports
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