Se Los Angeles e Nova York apostam na infraestrutura de ponta das suas arenas e no poder midiático global como diferenciais como sedes da Copa do Mundo de 2026, a cidade de Toronto adota uma estratégia diferente. A metrópole canadense aposta na narrativa “The World in a City” (“O Mundo em uma Cidade”, em tradução livre) como ferramenta de branding para capitalizar a demografia da região, em que cerca de 50% da população nasceu fora do país, e transformar a multiculturalidade em um ativo de engajamento, hospitalidade e segurança aos torcedores no Mundial.
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A cidade, que receberá a estreia da seleção canadense em solo nacional em Copas do Mundo, projeta que o evento gerará um incremento de 393 milhões de dólares canadenses no Produto Interno Bruto (PIB) da província de Ontário, além de criar mais de 3.300 empregos diretos e indiretos.
Apesar disso, ainda há uma preocupação das autoridades locais em relação à complexidade administrativa e ao orçamento operacional da cidade para receber o Mundial, fixado em 380 milhões de dólares canadenses, além de disputas sobre a alocação de responsabilidades financeiras entre a Prefeitura de Toronto e a Província de Ontário.
Cultura esportiva
A identidade de Toronto no esporte é marcada pelo fato da cidade ser uma das poucas do mercado da América do Norte a ostentar franquias com conquistas em cinco ligas profissionais diferentes, casos de NHL, NBA, MLB, MLS e CFL, sendo esta última o principal campeonato de futebol americano do Canadá.
No topo dessa lista está o Toronto Maple Leafs, franquia de hóquei no gelo fundada em 1917. Avaliada em cerca de US$ 3,66 bilhões, a equipe é tratada como uma instituição cultural, com uma base de fãs que lota a sua arena independentemente da fase da equipe.
No entanto, essa paixão tradicional também convive com fenômenos modernos do esporte local. Nesse sentido, o Toronto Raptors, atualmente a única franquia canadense na NBA, redefiniu o consumo da modalidade na cidade com a campanha “We The North” (“Nós somos o Norte”, em tradução livre).
Após a conquista do título histórico na temporada 2018/2019 da NBA, a franquia conseguiu reunir uma base de fãs jovem e diversa. Além disso, os Raptors também usaram a figura do rapper Drake como embaixador global para conectar o basquete à cultura pop e urbana.
Outra ação parecida aconteceu quando o cantor Justin Bieber colaborou com os Maple Leafs para criar os uniformes do “Next Gen” de 2022 por meio da sua marca de vestuário Drew House. O evento é uma forma da franquia celebrar a juventude e o futuro do hóquei no gelo por meio da conexão de universos como música, esporte, cultura pop e vários outros.
No beisebol, o Toronto Blue Jays carrega a responsabilidade de ser o único representante do Canadá na MLB. A franquia é bicampeã da World Series, com títulos conquistados em 1992 e 1993.
Já o Toronto FC, campeão da MLS Cup de 2017, transformou a cultura do futebol local ao reunir uma base de fãs fiéis e que promovem uma das festas mais vibrantes do futebol na América do Norte.
Infraestrutura
Sede de seis jogos da Copa do Mundo, o BMO Field precisou passar por reformas significativas para se adequar, mesmo que temporariamente, à capacidade mínima exigida pela Fifa para um estádio do Mundial, que é de pelo menos 45 mil lugares para duelos da fase de grupos. Vale destacar que, até o início das obras, o espaço comportava cerca de 30 mil pessoas.
Além disso, a localização do BMO Field ainda demanda um plano de mobilidade integrado. Isso porque o setor de análise de riscos da cidade aponta o deslocamento do público como uma questão crítica para o Mundial.
O congestionamento na Gardiner Expressway, principal via de acesso ao entorno do estádio, e a dependência do sistema de transporte público local, chamado de “Go Transit”, em dias e horários de pico exigem a implementação de zonas de exclusão veicular e incentivo massivo ao transporte coletivo.
Outro ponto a ser considerado é a gestão de grandes multidões no “Fan Festival” da Fifa, que terá acesso gratuito, e no entorno do estádio, o que demandará uma cooperação interagências entre a Polícia de Toronto, a Polícia Federal Canadense (RCMP) e a segurança privada da Fifa.
Legado social
O plano de Toronto para a Copa do Mundo vai além do turismo convencional. A cidade implementou uma estratégia de legado social voltada para garantir que as oportunidades econômicas da cadeia de suprimentos do evento cheguem a empresas de menor porte, alinhando-se à demografia da cidade.
Apesar disso, no campo fiscal, o projeto enfrenta desafios. Documentos de maio de 2025 indicam um déficit potencial de 40 milhões de dólares canadenses devido a disputas da Prefeitura de Toronto com a Província de Ontário em relação à contribuição financeira para o Mundial.
Para mitigar riscos orçamentários, a organização local decidiu adotar um teto rígido de gastos e busca maximizar as vendas de hospitalidade e patrocínios locais. Além disso, para também evitar a percepção de elitização do evento, um risco reputacional mapeado pelos organizadores devido ao alto custo dos ingressos, Toronto aposta no programa “Soccer for All” (“Futebol para Todos”, em tradução livre).
A iniciativa busca garantir um legado tangível de infraestrutura e acesso à prática esportiva para comunidades carentes, combatendo também o “marketing de emboscada” por meio de um conjunto de ferramentas para o engajamento seguro do comércio local.
