Uma das três sedes mexicanas da Copa do Mundo de 2026, Monterrey oferece um cartão de visitas ao Mundial forjado no poder econômico e na fidelidade dos torcedores locais. A cidade ainda vive uma dualidade, em que é, ao mesmo tempo, a capital industrial do México e o epicentro de uma paixão esportiva que beira a religião, dividida entre dois dos clubes mais ricos da América Latina.
LEIA MAIS: Nova York e Nova Jersey: A cultura esportiva e a estratégia da Fifa para a sede da final da Copa
LEIA MAIS: Miami: “Casa das Américas” e “Efeito Messi” destacam cidade como sede da Copa do Mundo
LEIA MAIS: Los Angeles: Sede da estreia dos EUA na Copa, cidade usará torneio como teste para os Jogos Olímpicos de 2028
LEIA MAIS: Toronto: Diversidade e cultura multiesportiva definem cidade como sede da Copa do Mundo de 2026
LEIA MAIS: Cidade do México: Tradição e reengenharia financeira marcam capital mexicana como sede da Copa do Mundo de 2026
LEIA MAIS: Vancouver: Povos originários e identidade esportiva na preparação para receber a Copa do Mundo de 2026
Além disso, Monterrey encara o Mundial não apenas como uma celebração esportiva, mas também como um “teste de estresse” para sua infraestrutura metropolitana e uma vitrine global para sua moderna indústria do esporte, impulsionada por gigantes corporativos como Femsa e Cemex.
“Clásico Regio”
A cultura esportiva de Monterrey é definida, principalmente, por uma rivalidade intensa. A cidade respira o “Clásico Regio”, duelo entre o Monterrey, conhecido como Rayados, e o Tigres. Mais do que clubes de futebol, ambas as instituições operam como braços esportivos de conglomerados globais, o que transformou a região no mercado mais inflacionado e valioso do futebol mexicano.
Os Rayados, fundados em 1945, são apoiados pela Femsa, a maior engarrafadora independente da Coca-Cola no mundo e proprietária da rede de lojas Oxxo. Já o Tigres, nascido na Universidade Autônoma de Nuevo León (UANL), conta com o suporte financeiro da Cemex, uma das maiores empresas de materiais de construção do país.
Essa estrutura corporativa permite que as equipes mantenham elencos estelares, com nomes como o espanhol Sergio Canales e o mexicano Jesús “Tecatito” Corona, pelo lado do Monterrey, e o francês André-Pierre Gignac, pelo lado do Tigres, o que gera um ecossistema de consumo robusto. Para a população local, o futebol é descrito como um “estilo de vida”, com famílias inteiras definidas pela lealdade a um dos lados, garantindo taxas de ocupação de estádios consistentemente altas e um mercado de venda de produtos oficiais aquecido.
Vale destacar ainda que, além do futebol, a cidade preserva uma forte tradição no beisebol, por conta do Sultanes de Monterrey, time fundado em 1939.
Estádio BBVA
O palco de Monterrey para a Copa do Mundo de 2026 será o Estádio BBVA, que adotará o nome genérico de Estádio Monterrey durante o torneio, devido às regras da Fifa. Inaugurada em 2015 e conhecida popularmente como “Gigante de Aço”, a arena é um símbolo da modernidade da cidade.
Com capacidade para mais de 53 mil espectadores, o estádio foi projetado pelo escritório de arquitetura Populous e se destaca por sua sustentabilidade, já que conta com o selo internacional de construção sustentável “Leed Prata” e por uma arquitetura que homenageia, por meio de uma abertura na estrutura, o Cerro de la Silla, montanha que é símbolo da região.
Diferentemente de outras sedes que exigiram reformas massivas, o BBVA já nasceu alinhado aos padrões internacionais da Fifa, oferecendo uma experiência de hospitalidade corporativa de alto nível, essencial para a estratégia de geração de receitas do Mundial. O estádio receberá quatro partidas da competição, sendo três da fase de grupos e uma da primeira fase da etapa mata-mata do torneio.
Desafios urbanos e legado
Apesar da virtude econômica, a preparação de Monterrey enfrenta desafios estruturais relevantes. A região convive com uma crise hídrica que ganhou manchetes globais nos últimos anos, exigindo das autoridades locais e da Fifa um planejamento rigoroso de gestão de recursos para o período do torneio, que acontece no verão do Hemisfério Norte.
A mobilidade urbana é outro ponto de atenção. Historicamente dependente de carros, a cidade busca acelerar obras de transporte público para conectar o estádio às zonas hoteleiras e turísticas.
Do ponto de vista econômico, a expectativa é de que o Mundial impulsione o setor de serviços e turismo. Instituições financeiras, como o Citibanamex, já projetam um ajuste positivo no Produto Interno Bruto (PIB) mexicano para 2026, impulsionado pelo fluxo de visitantes e pelo consumo gerado pelo evento.
Para Monterrey, especificamente, o torneio é a oportunidade de se posicionar globalmente não apenas como um polo industrial, mas como um destino de entretenimento e cultura esportiva de classe mundial.
