Nos últimos dias, a torcida do São Paulo foi agitada pela notícia de que o clube teria fechado acordo com a Ticketmaster, para assumir toda a parte de bilheteria e experiências do Estádio do Morumbis em lugar da Total Acesso.
O contrato com a atual tiqueteira, previsto para terminar em dezembro deste ano, tem sido marcado por muita insatisfação da parte do clube e de torcedores, que já relataram constantes problemas envolvendo quedas e instabilidade no site, especialmente em jogos de maior apelo de público.
Isso sem contar as filas virtuais infindáveis e que muitas vezes terminavam com uma tentativa frustrada de compra ou ingressos que esgotavam instantes após o início da venda, para ressurgirem como disponíveis horas depois, sem um explicação plausível.
O que tem deixado os torcedores em polvorosa nem é propriamente a possibilidade de melhora desse serviço, mas sim a informação de que, para assumir a bilheteria do Morumbis, a Ticketmaster teria aceitado pagar um adiantamento de R$ 250 milhões ao São Paulo, que está afundado em dívidas de cerca de R$ 1 bilhão e enfrenta atualmente mais um transfer ban imposto pela Federação Internacional de Futebol (Fifa).
Esse valor (que contemplaria R$ 110 milhões relativos ao adiantamento da bilheteria propriamente dita e R$ 30 milhões pela cessão de um camarote premium corporativo à empresa) é visto como um alívio para um clube que, além de ir mal nas finanças, vem patinando dentro de campo e não vence há sete jogos consecutivos na Série A do Brasileirão.
Já fechou?
A resposta a essa pergunta é não. A coluna apurou que, no momento atual, São Paulo e Ticketmaster estão em fase de troca e análise das minutas do possível contrato definitivo.
Nesse período, as partes costumam submeter cláusulas e condições à análise de seus respectivos departamentos jurídico e financeiro.
Por mais que haja boa vontade de ambos os lados, não é raro que acordos bem encaminhados acabem naufragando, antes da assinatura.
Time vai receber tudo isso?
A coluna apurou nos bastidores que o edital aberto pelo São Paulo para a contratação da nova tiqueteira já previa o pagamento de um adiantamento de receitas.
Hoje, é praticamente impossível saber quanto esse adiantamento pode render à equipe, pois o valor depende de uma série de variáveis, que ainda não estão definidas.
O próprio valor global do contrato ainda não está fechado, pois não se trata de uma operação com ganho fixo garantido. Ela depende dos torcedores irem aos jogos.
A tendência, em todo caso, é de que o clube venha a receber de adiantamento uma quantia menor do que os R$ 250 milhões que estão sendo ventilados na mídia.
Independentemente disso, o adiantamento, ainda que em um valor mais baixo, deverá representar um alívio financeiro para o clube, em meio a um cenário de transfer ban e salários atrasados do elenco.
Como foi o processo de escolha?
Quando o São Paulo abriu o edital para a escolha da nova tiqueteira, várias empresas apresentaram propostas formais.
Duas delas foram consideradas aptas, pois cumpriam todas as exigências formais feitas pela diretoria do clube. Uma delas foi a da Ticketmaster. A outra foi a da NewC, que ajudou a estruturar o Avanti, do Palmeiras, maior programa de sócio-torcedor do país, e que opera ainda a bilheteria da Arena MRV, do Atlético-MG.
No fim das contas, o clube optou por seguir com a proposta da Ticketmaster. A escolha, ao que tudo indica, não tem a ver apenas com a questão do possível adiantamento oferecido pela empresa, mas das condições gerais que ela apresentou ao São Paulo.
Como o contrato ainda não está assinado, porém, não é possível garantir que ela irá assumir a bilheteria do Morumbis, embora seja favorita para fechar o negócio.
Sondagem
A coluna também apurou que, pouco depois de o clube decidir caminhar com a proposta da Ticketmaster, a NewC teria feito uma sondagem com a diretoria são-paulina, de uma possível parceria com o Tricolor.
Pela oferta, a empresa assumiria o direito de uso do solo do Morumbis, situação que não faz parte dos planos da atual diretoria.
Além disso, a NewC propôs a criação de um fundo de investimentos, que iria captar até R$ 500 milhões para o São Paulo.
Por que ideia do fundo não avançou?
Atualmente o São Paulo já conta com o Fundo de Investimentos de Direitos Creditórios (FIDC), lançado em outubro de 2024 (ainda na gestão do ex-presidente Julio Casares) e estruturado pela Outfield Ventures e Galapagos Capital.
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A operação representa uma tentativa do clube de reduzir seu endividamento e equilibrar suas finanças.
Segundo apurou a coluna, o novo fundo proposto pela NewC demandaria garantias que hoje já estão comprometidas no FIDC SPFC, o que tornaria inviável o andamento do negócio.
Crise política
A possível mudança um contrato dessa magnitude apresenta um complicador adicional no São Paulo, uma vez que, no fim do ano, o clube terá eleições para a escolha de sua nova diretoria.
Após a cassação de Julio Casares, justamente por conta das denúncias envolvendo a comercialização irregular do camarotes no Morumbis em dias de shows no estádio, o Tricolor vive um cenário político marcado pela instabilidade e a indefinição.
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Nesta semana, por exemplo, membros da oposição protocolaram no Conselho Deliberativo um pedido para que o presidente do São Paulo, Harry Massis, seja expulso do quadro de associados do clube. Uma das justificativas é o novo transfer ban sofrido pela equipe.
As chances de esse requerimento ser aprovado são mínimas, mas o caso dá uma mostra do caos que segue instalado no Morumbis.
Fim da linha
E por falar em Julio Casares, o ex-mandatário máximo do Tricolor pediu para deixar o quadro de associados do clube, evitando assim o mesmo destino que coube a seus aliados Mara Casares e Douglas Schwartzmann, que acabaram sendo expulsos pelo Conselho Deliberativo, por conta do envolvimento no escândalo dos camarotes.
A solicitação de desligamento foi enviada ao São Paulo na tarde desta quarta-feira (29), antes da reunião da Comissão de Ética, que analisaria o processo disciplinar contra o ex-cartola.
Caso seguisse como sócio (sem ser expulso, claro), Casares continuaria também a fazer parte do Conselho Consultivo, formado por ex-presidentes e membros ilustres do clube, conhecidos como os “cardeais tricolores”.
Casares atribuiu a decisão de se desligar em definitivo do São Paulo a questões de saúde e disse ter sido alvo de perseguições.
Rodrigo Ferrari é jornalista da Máquina do Esporte desde 2022. Formado pela Universidade de São Paulo (USP), atua com política desde 2010
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