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Ana Teresa Ratti, especial para a Máquina do Esporte

Ana Teresa Ratti

6 min de leitura

Análise

Formação: O ativo mais valioso e menos financiado do futebol brasileiro

Futebol brasileiro não sofre de escassez de talentos nem de clubes formadores, mas será que estamos transformando todo esse potencial em valor esportivo e econômico?

Ana Teresa Ratti, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

29/07/2026 06h30

Endrick, do Palmeiras, foi negociado com o Real Madrid por 72 milhões de euros - Cesar Greco / Palmeiras

Endrick teve oportunidade, mostrou talento em campo pelo Palmeiras e foi negociado com o Real Madrid por € 72 milhões - Cesar Greco / Palmeiras

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  • O Brasil tem 470 clubes de base e exporta mais atletas que a Bélgica, mas gera menos valor financeiro por jogador transferido.
  • Clubes brasileiros destinam apenas 3% dos investimentos à formação, enquanto 92% são para o elenco profissional, comprometendo a sustentabilidade futura.
  • Investir na qualidade da formação humana é essencial para transformar o potencial em valor esportivo, econômico e sustentável no futebol brasileiro.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

O futebol brasileiro não sofre de escassez de talentos. E também não sofre de escassez de clubes formadores.

Segundo o Relatório Convocados 2026, o país conta com 470 clubes dedicados exclusivamente às categorias de base. Além disso, em 2025, 1.049 clubes disputaram competições de base em todo o Brasil, um crescimento de 8% em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, seguimos sendo o país que mais transfere atletas internacionalmente. Em 2025, foram mais de mil jogadores transferidos para o exterior.

LEIA MAIS: Relatório Convocados vê maior equilíbrio financeiro em contrato de TV, mas finanças preocupam

Mas uma pergunta me chamou atenção ao cruzar os dados do Relatório Convocados com os relatórios de transferências da Fifa: será que estamos transformando todo esse potencial em valor esportivo e econômico?

Em uma coluna publicada anteriormente, ao analisar o modelo do Ajax, defendi que desenvolvimento humano, excelência esportiva e sustentabilidade econômica não são objetivos concorrentes. Pelo contrário: fazem parte do mesmo sistema. Clubes que investem melhor na formação integral tendem a produzir atletas mais preparados, mais adaptáveis e mais valorizados.

Agora, olhando para os números do futebol brasileiro, essa reflexão parece ainda mais necessária.

Os dados da Fifa referentes à janela internacional de janeiro de 2026 mostram que o Brasil realizou 204 transferências internacionais de saída, enquanto a Bélgica registrou apenas 71.

À primeira vista, parece uma demonstração clara da força da formação brasileira. Mas quando observamos os valores envolvidos, a história muda, pois os clubes brasileiros receberam aproximadamente US$ 154,7 milhões com transferências internacionais no período, enquanto os clubes belgas receberam US$ 89,1 milhões.

Em outras palavras, o Brasil exportou quase três vezes mais atletas, mas arrecadou apenas 74% mais. Quando dividimos a receita pelo número de atletas transferidos, a diferença fica ainda mais evidente. Cada atleta exportado pelo Brasil gerou, em média, US$ 758 mil em receitas de transferência. Na Bélgica, esse valor chegou a US$ 1,25 milhão por atleta.

Ou seja: a Bélgica capturou cerca de 65% mais valor por jogador negociado.

Os números sugerem que o desafio brasileiro talvez não seja formar mais atletas. Talvez seja formar atletas capazes de gerar mais valor.

Essa reflexão ganha ainda mais relevância quando observamos a composição das receitas dos clubes brasileiros. Segundo o Relatório Convocados 2026, as transferências de atletas representaram aproximadamente 27% das receitas totais da Série A do Brasileirão em 2025, tornando-se a principal fonte individual de receita dos clubes.

O dado é relevante porque demonstra que a sustentabilidade econômica do futebol brasileiro depende cada vez mais da capacidade de desenvolver, valorizar e negociar atletas. Em outras palavras, uma parcela significativa das receitas dos clubes já nasce (ou deveria nascer) na formação.

E é aqui que os dados do Relatório Convocados trazem mais uma reflexão importante e contraditória ao dado mencionado acima: em 2025, os clubes brasileiros destinaram aproximadamente 92% dos investimentos ao elenco profissional, enquanto as categorias de base receberam apenas 3%. Os demais 5% foram direcionados à infraestrutura.

Ao mesmo tempo, os gastos com salários seguem entre os principais componentes da estrutura financeira dos clubes, e o endividamento total continua crescendo em ritmo superior ao crescimento das receitas.

Isso levanta uma questão estratégica: estamos investindo onde o problema aparece ou onde o valor nasce?

O futebol profissional consome recursos. A formação gera ativos. São funções diferentes dentro da mesma cadeia de valor.

Em outra coluna publicada aqui na Máquina do Esporte, ao abordar o novo processo da Fifa para compensação pela formação de atletas por meio da “Clearing House”, destaquei que o futebol mundial caminha para remunerar de forma cada vez mais eficiente os clubes responsáveis pelo desenvolvimento dos jogadores.

A mensagem é clara: formar bem deixou de ser apenas uma missão esportiva ou social e se tornou também uma estratégia econômica.

Mas para capturar esse valor, não basta ter clubes de base. É preciso investir na qualidade da formação. E isso nos leva a outro dado interessante do Relatório Convocados: entre as despesas dos clubes da Série A, apenas 9% estão relacionadas a pessoal.

Quando pensamos em formação, é comum imaginar centros de treinamento, alojamentos, academias e campos. Mas o principal ativo da formação continua sendo humano: treinadores, coordenadores, psicólogos, pedagogos, analistas, profissionais de educação e gestores capazes de construir ambientes de desenvolvimento.

A pergunta, portanto, talvez não seja apenas quanto investir na base, mas sim quanto estamos investindo nas pessoas responsáveis por formar os atletas.

O Brasil possui escala, tradição, talento e centenas de clubes dedicados à formação. O que os números parecem indicar é que ainda existe espaço para evoluir na transformação desse enorme potencial em valor esportivo, humano e econômico.

Como já disse acima, o futebol brasileiro não sofre de escassez de talentos e também não sofre de escassez de clubes formadores. O que os dados sugerem, e o que constatamos diariamente vivendo a gestão do futebol brasileiro, é uma escassez de investimento e visão estratégica na formação.

Enquanto bilhões são destinados à contratação e remuneração de atletas profissionais, apenas uma fração dos recursos chega aos ambientes responsáveis por desenvolver os próximos talentos.

Se as transferências já representam a principal fonte individual de receita dos clubes brasileiros, mas apenas 3% dos investimentos são destinados à base, talvez a pergunta não seja quanto investir no futebol, mas sim em que etapa da cadeia investir para gerar mais valor esportivo, humano e econômico.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Ana Teresa Ratti possui mais de 20 anos de experiência corporativa, é mestra em Administração, e trabalha atualmente com gestão esportiva, sendo cofundadora da Vesta Gestão Esportiva

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